quarta-feira, 22 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (61): O exemplo de Barrancos e uma Estrela que caiu em Sintra de pára-quedas

O PSD já deu por encerrado o processo de escolha das candidaturas às Eleições Autárquicas de 11 de Outubro. Neste momento, já estão definidas as candidaturas para os 307 concelhos onde os sociais-democratas irão apresentar-se a votos, havendo apenas um único concelho que não contará com um candidato e listas do PSD: Barrancos.

Em declarações à Lusa, o coordenador da comissão autárquica social-democrata, Manuel Castro Almeida frisou que, “em Barrancos, temos três militantes. Poderíamos inventar um candidato, isso seria muito fácil para o PSD, mas seria um candidato a fingir porque não traduziria uma opção local”. “Optámos pela natureza local das eleições locais e por uma política de verdade. Não há projecto local, não há candidatos locais”, explicou ainda.

Esta postura do PSD não deixa, de certa forma, de ser meritória. Em Barrancos, o PSD tem uma expressão quase nula e, sem projecto ou sem gente para concorrer, não vale a pena inventar um candidato de fora para marcar presença nas Autárquicas. Barrancos é uma vila alentejana longe de tudo e todos, muito mais próxima de Espanha do que do resto do Alentejo, ao ponto de, em tempos idos, as crianças apenas aprenderem a falar português quando iam para a escola - antes de se sentarem nos bancos da escola, os petizes falavam apenas o peculiar castelhano de Barrancos, que, garanto-vos, não é fácil de perceber. Se o PSD inventasse um candidato de fora da terra, este seria sempre olhado como um pára-quedista, um gajo qualquer que apareceu ali, vindo do nada, a tentar a sua sorte nesta Câmara esquecida nos confins do Alentejo.

Contudo, seria interessante se o PSD e outros partidos aplicassem o exemplo de Barrancos a outros concelhos. Sim, porque o que não falta por aí é gente que se candidata a uma dada Câmara apenas porque foi ali que conseguiu arranjar uma vaga, que, com um pouco de sorte, até termina em tacho. E há inúmeros exemplos de pára-quedistas, que, sem fazerem a mais pequena ideia de onde estão, se candidatam a Câmaras Municipais.

Querem um exemplo? Lembremos o glorioso dia em que Edite Estrela, candidata à Câmara Municipal de Sintra, foi fazer campanha pelo PS para Queluz de Baixo, que não só não pertence à cidade ou à freguesia de Queluz, como também não integra o concelho de Sintra, mas sim o de Oeiras. Edite Estrela aceitou o repto para liderar os destinos de um concelho que conhecia tão bem como eu conheço os princípios básicos da termodinâmica nuclear aplicada à engenharia genética. E ganhou porque o anterior edil, o social-democrata Rui Silva, foi das piores coisas que algum dia passou por qualquer órgão autárquico no Portugal democrático.

Esta história passou-se em Sintra, com a candidata do PS. Mas, se percorrermos o resto do país, decerto iremos encontrar outros exemplos semelhantes, provenientes deste e doutros partidos. E se formos às listas distritais para a Assembleia da República, veremos pérolas destas como grãos de areia numa praia… e não estou a falar de uma praia da Costa de Caparica (OK, a piada era desnecessária).

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (6): O Mundo

“O Mundo é, actualmente, um local muito mal frequentado, ao ponto de se tornar insuportável. Tanto que devemos deixar de lamentar os que partem, para passarmos a chorar os que ficam.”

Dr. Mento

terça-feira, 21 de julho de 2009

ESPADAS QUE PICAM (17): Machismo... só que ao contrário

Não é segredo para ninguém que a política portuguesa tem sido, por tradição, dominada pelo sexo masculino. Contudo, nos últimos anos, temos assistido a uma tentativa de mudar um pouco este estado de coisas, o qual, em parte, é de louvar. Deve haver igualdade entre sexos e não posso estar mais de acordo com isso. Mas o que se quer é uma igualdade natural e não uma coisa inventada à pressão para enfiar mulheres na política apenas porque sim.

As quotas para mulheres e as respectivas posições destas nas listas eleitorais são um bom exemplo dessa igualdade artificial. A mulher A fica à frente do Homem B na lista do partido C porque há uma lei que diz que é assim e ponto final. Não interessa se o Homem B é mais ou menos competente do que a Mulher A, o que vale é meter mulheres nos lugares que lhe estão destinados.

Pior ainda é a ideia do actual presidente da Câmara de Faro, José Apolinário, que, nas listas do PS nas próximas Autárquicas, decidiu meter mais mulheres do que homens (cinco a quatro, para sermos mais exactos). Se o fez, deveria ter ficado calado - escolhia os nove nomes que achasse mais competentes para liderar a capital do Algarve (cidade que me é muito querida), independentemente de estes serem homens ou mulheres. Se se vangloria de ter mais mulheres nas listas, está a subvalorizá-las, uma vez que uma lista maioritariamente masculina não mereceria qualquer comentário.

Que fique bem claro: Sou totalmente a favor da presença de mulheres na política. Mas que estas estejam nas listas partidárias por serem as PESSOAS mais competentes e não devido ao sexo. Isso é uma forma de machismo ao contrário.

E para finalizar este texto, tiro o chapéu a mulheres como Manuela Ferreira Leite, que ocupam lugares de destaque sem truques artificiais. Sim, porque a Dama de Espadas do PSD lidera o partido que lidera porque os seus companheiros «laranja» acharam que ela era a melhor PESSOA (sem sexo ou género) para o fazer. E pode ser que, a partir de Setembro, ela seja também a segunda mulher a chefiar um Governo em Portugal, depois de Maria de Lurdes Pintassilgo, embora, seja a primeira a ocupar tal cargo na sequência de um acto eleitoral. Novamente, se vencer, será porque os portugueses acham que ela é a melhor PESSOA para liderar os destinos do país, independentemente se, no meio das pernas da pessoa em questão, está um pénis ou uma vagina.

ESPADAS QUE PICAM (16): Pacheco ainda tem razão

No seu Abrupto, José Pacheco Pereira dedicou um post inteiro à chegada do Homem à Lua. O texto em si é excelente e, numa altura em que muitos se entretêm a criticar José Pacheco Pereira, eu opto antes por elogiar o autor de tão bom pedaço de prosa.

No seu post, Pacheco Pereira conta-nos onde estava a 20 de Julho de 1969 e os meandros da vida de um aluno de Filosofia que tentava estudar para um exame dificílimo do 1.º ano da licenciatura, no momento em que o célebre passo para a Humanidade é dado. A dada altura, diz-nos: “como era habitual na época, os professores ensinavam muito em função daquilo que tinha sido a sua tese e pouco se afastavam desse terreno que lhes era familiar”.

Pois, “como era habitual na época”.

Só na época, em 1969?

Não, infelizmente, não.

Bem sei que há docentes universitários minimamente que se esforçam por criar programas para as cadeiras que dêem aos alunos uma visão minimamente abrangente sobre um conjunto de temas. Para estes, o meu aplauso. Só que, para mal dos pecados do ensino superior, também há muitos que continuam exactamente como em 1969: Se a tese de mestrado e/ou doutoramento foi sobre a plantação de cebolas em Celorico da Beira na primeira metade do Século XX, certo é que, em toda a santa aula, a plantação de cebolas terá de vir à baila, mesmo que estejamos a falar de uma cadeira de Direito Administrativo. Conheço bastantes casos assim.

Isto ajuda a explicar porque é que, actualmente, existe a impressão que os licenciados saem de uma qualquer faculdade com níveis de conhecimento rudimentares. Com professores destes, não há milagres, mas as favas, essas, são pagas pelos estudantes e, indirectamente, pelos pais destes e pelo próprio mercado de trabalho.

Ainda há gente assim no ensino superior. Temo dizê-lo: Muita gente. O que é pena. Pacheco tem razão no que diz e teria mais razão se utilizasse um tempo verbal diferente.

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (5): A Verdade (II)

“As verdades são como os chapéus: Há muitas.”

Dr. Mento

segunda-feira, 20 de julho de 2009

CARTAS MARCADAS (3): Ana Jorge

"Querida Aninhas:

Espero que esta carta te vá encontrar, a ti e aos teus, de boa saúde. Afinal, de saúde percebes tu ou não fosses tu a mulher que trata da saúde aos portugueses. Pelo menos, é o que dizem…

Bem sei que há muito que não dou notícias, mas, sabes, lembrei-me de ti no outro dia, enquanto via um filme em casa com os gaiatos. Estava muito bem a ver o Madagáscar 2 quando, de repente, chego àquela cena em que o Melman, a girafa hipocondríaca, descobre que as girafas do Quénia não têm médicos. “E então, como é que fazem quando têm uma gripe?”, pergunta ele, ao que lhe respondem: “Vamos para os morredouros… e morremos”.

Ora, tu, que passas a vida a lutar contra as farmácias, os farmacêuticos, a indústria farmacêutica, as associações de farmácias, as associações da indústria farmacêutica, os consumidores de fármacos e sabe-se lá mais quem, estás de mãos e pés atados por causa da porcaria da Gripe A. Queres dizer à malta que está tudo bem, que não se passa nada e que não há motivos para alarme, mas a porra da gripe anda nas horas e tu ficas com cara de tacho. Se alguma criancinha bate a bota antes das eleições por causa da Gripe A, o teu amigo Sócrates bem pode dizer adeus ao Governo e aos tachos todos, que mais ninguém vota no PS. Desconfio que até o Berloque de Esquerda vos passa à frente.

Mas sei que estás lixada com esta merda toda. Queres que os gajos dos medicamentos se vão todos foder, mas a malta, à rasca, quer toda emborcar Tamiflu e vacinas e o raio mais que as parta. Ou seja, vai tudo dar carcanhol às farmácias a às farmacêuticas, que é o mesmo que engordar gulosos. Bem fizeste tu, que não arranjaste vacinas para toda a gente, nem as deixas à disposição desses maricas antes da altura crítica das gripes. Esses panascas deviam era ter vivido nos tempos do Doutor Salazar, quando a malta era rija e ia trabalhar para o campo com as gripes todas de A a Z - se morressem, paciência.

Além do mais, Tamiflu rima com cú. Cheira-me a uma boa merda…

Essa malta que arranjou a porra da Gripe A devia era fazer como as girafas: Escavavam um morredouro, metiam-se lá dentro com a cabeça de fora e morriam. Simples, pá, simples. Pronto, acabava-se logo a Gripe A. E vai na volta, morriam também uns quantos desempregados e já não davam tantas dores de cabeça ao Viera da Silva, que arranca os poucos cabelos que tem a tentar arranjar umas novas fórmulas estatísticas que lhe permitam fazer desaparecer com mais uns quantos milhares de gajos e gajas das listas oficiais do desemprego.

Olha, agora que digo isto, vou mas é escavar o meu morredouro, para quando apanhar a Gripe A. Se quiseres, escavo um para ti também, que és uma gaja fixe e até nem deixas os panascas darem sangue. Esses mariconços que vão mas é dar sangue à mãezinha deles. Mas não faças mal às fufas, que todo o homem gosta de ver duas gajas a paparem-se uma à outra e o sangue delas não deve fazer mal algum. Paneleiros é que não! Que nojo!

Olha, amiga, vou ter que ir. Resta-me desejar-te felicidades e que apanhes a Gripe A quanto antes, que, nestas coisas, mais vale despachar já o assunto. Ainda para mais, lá para o final de Setembro, vais ter trabalho que não acaba mais a arrumar as tuas coisas no Ministério da Saúde. Não te preocupes, que, se souber de algum emprego para ti, eu telefono, mas já sei que menos do que administradora não executiva na Caixa Geral de Depósitos não te serve.

Muitos beijinhos sem máscara,


Dr. Mento”

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (4): Preconceito (I)

“Ninguém é preconceituoso. Excepto em relação a todos os que não são como nós.”

Dr. Mento

domingo, 19 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (60): Costa não pode ser como Sampaio?

A aliança entre António Costa e Helena Roseta para as Eleições Autárquicas em Lisboa pôs muita gente a falar sobre as eventuais consequências políticas deste acordo, até porque a vereador do movimento Cidadãos Por Lisboa garantiu o segundo lugar na lista do PS, ainda que tendo estatuto de independente.

Antes mesmo do anúncio oficial, houve logo quem suspeitasse que, caso Costa avançasse para uma candidatura à liderança do PS, deixaria Roseta como edil de Lisboa. Na conferência de imprensa de apresentação do acordo, Helena Roseta abordou esse tema, o qual já figurava no memorando do acordo entre PS e Cidadãos por Lisboa: “As substituições ocasionais dos eleitos serão feitas de modo a garantir que o eleito de uma força política é sempre substituído por outro da mesma força política. Para efeitos do nº 2 do artigo14º da lei eleitoral autárquica (substituição definitiva do Presidente da Câmara “em caso de morte ou doença que determine impossibilidade física ou psíquica, de perda de mandato ou de opção por função incompatível”), o primeiro independente indicado pelo movimento CPL assegurará que a substituição recaia no seguinte da lista, indicado pelo PS”.

Acho muito bem que estas questões sejam esclarecidas - por escrito e publicamente - para não haver quaisquer dúvidas. Mas, tirando isso, deu-se demasiada importância a esta questão e Pedro Santana Lopes foi logo o primeiro a fazê-lo. Santana entende que esta discussão tem a ver com o pressuposto de que José Sócrates vai perder as Legislativas e sair da liderança do PS, a qual será disputada por António Costa. Para o menino-guerreiro, tudo isto é uma gigantesca desconsideração em relação a Sócrates e aos próprios lisboetas.

O problema é que Santana só tem razão em parte. Neste momento, existe a possibilidade de o PS perder as Legislativas, certo? Se os socialistas forem derrotados a 27 de Setembro, Sócrates pedirá automaticamente a sua demissão do cargo de secretário-geral do PS, o que faz sentido quando a primeira figura de um Governo vê o seu programa e acções governativas derrotados nas urnas (só Santana é que não entende isso, mas isso são contas do peculiar rosário do senhor). Ora, se Sócrates se demitir, António Costa posiciona-se como uma boa escolha para ocupar a liderança dos socialistas e, quanto a isso, parece haver um certo consenso.

Só que o cargo de secretário-geral do PS não é incompatível com o de presidente da Câmara Municipal de Lisboa - Jorge Sampaio acumulou os dois cargos e não veio mal algum ao Mundo por causa disso. Mesmo no PSD, o anterior líder, Luís Filipe Menezes, era líder do partido e, ao mesmo tempo, governava o terceiro concelho mais populoso do país.

Daí que a questão da eventual saída de Costa da Câmara para a liderança do PS seja, na verdade, uma falsa questão. Mesmo.

A MANILHA VAI SECA (59): Querem continuar a ser pobres?

Um dos truques políticos mais curiosos é uma espécie de chantagem que certos políticos fazem com o eleitorado, sendo que, neste capítulo, José Sócrates é mestre na arte de ameaçar subtilmente o eleitorado.

Por isso, no encerramento do Fórum Novas Fronteiras 2009-2013, no Porto, o secretário-geral do PS anunciou que o programa eleitoral dos socialistas vai incluir um novo subsídio para as famílias, sendo que a nova prestação social (que, obviamente, já não é para esta legislatura) irá beneficiar os casais que trabalham e têm filhos, mas cujo rendimento per capita do agregado familiar é inferior ao limiar da pobreza.

No discurso em que fez este anúncio, Sócrates abordou inúmeras vezes as políticas sociais desenvolvidas por este Governo. De súbito, fez-me lembrar o seu antecessor (e colega de Governo), Eduardo Ferro Rodrigues, que, nas legislativas de 2002, não parava de enaltecer as medidas sociais do Executivo de António Guterres. Se Ferro falasse do novo aeroporto de Lisboa, chamar-lhe-ia “aeroporto social” - aliás, ele próprio liderou o Ministério do Equipamento Social, uma designação à socialista para a pasta das Obras Públicas. Claro que Sócrates não falou em “aeroporto social”, mas andou pela mesma linha, ao lembrar a criação do complemento social para idosos e do abono pré-natal e os aumentos do salário mínimo nacional, do abono de família e da acção social escolar.

Só que as palavras de Sócrates são como uma espécie de ameaça escondida ao eleitorado. Não vou discutir se estas medidas sociais são boas ou más, até porque iniciativas deste género são sempre como as moedas: Têm dois lados. Basta ver uma das grandes criações de Guterres, o Rendimento Mínimo Garantido.

Basicamente, o que o primeiro-ministro quer dizer é algo como: “Se votarem em nós, o Governo vem, dá subsídios e ajuda os pobrezinhos. Se votarem no PSD, vêm os mauzões da direita e tira-nos isso tudo, para deixarem as criancinhas a passar fome”. Sócrates nunca diz quem paga esses subsídios (não interessa se são justos ou injustos), porque, se o fizesse, uma parte do eleitorado fugiria a sete pés do PS. A verdade, quando a há, fica sempre pela metade.

Esta estratégia de acenar com os papões da direita costuma produzir bons frutos para a esquerda (e até para o PS), ao ponto de, para alguns sectores menos informados da população, o Governo de Durão Barroso ter ficado conhecido como o carrasco do Rendimento Mínimo Garantido, quando o que fez foi, na verdade, mudar-lhe o nome e alterar um pouco as condições de acesso à dita prestação.

Quando a campanha eleitoral começar mesmo a sério, vamos voltar a ouvir falar nos papões da direita, nos mauzões que querem um Estado mínimo que se está a cagar para toda a gente, menos para uma pequena clique que transacciona favores e dinheiros de forma mais ou menos legal, mas sempre imoral. Muitos dos que se dizem de esquerda (e há tantos assim no PS) adoram este tipo de discurso maniqueísta e, muitas vezes, recheado de inverdades.

Querem um exemplo? Na segunda volta das presidenciais de 1986, muita gente no PCP pôs a correr os mais incríveis boatos do que aconteceria a Portugal se Freitas do Amaral ganhasse as eleições, havendo quem dissesse que iríamos voltar aos tempos de Mr. Salazar. E foi assim que muita gente, mesmo não gostando de Mário Soares, lá entregou o seu voto vitorioso ao fundador do PS. 19 anos depois, o mesmo Freitas do Amaral que era pior do que Salazar acabou num Governo do partido do Soares que salvou o país do fascismo.

O tempo é um excelente conselheiro, meus amigos.

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (3): Sofrimento

“O valor exacto do limite de sofrimento do ser humano é exactamente o mesmo valor da sua capacidade de auto-destruição”.

Dr. Mento

sábado, 18 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (58): O impacto de Chão da Lagoa

Há quem lhe chame ditador, vigarista, malcriado, boçal e o diabo a sete, mas não falta quem lhe gabe a obra feita e a determinação. O que é verdade é que ninguém fica indiferente a Alberto João Jardim, o enfant terrible da política portuguesa, que, volta e meia, faz declarações de pôr os cabelos em pé a um santo. Na festa anual do PSD/Madeira, em Chão da Lagoa, costumam surgir discursos dos mais incríveis que há memória em Portugal, alguns deles ofensivos para os continentais, para todos os portugueses e, por vezes, até para os madeirenses.

Só que Jardim tem a importância que tem porque todos dão às suas palavras demasiada importância. Por mim, já deixei de dar para esse peditório e vejo o discurso de Chão da Lagoa como um dos melhores momentos de stand-up comedy do ano. Ainda por cima, Jardim, quando fala, nunca está sóbrio, o que torna a coisa ainda mais divertida e surpreendente (e o homem consegue ser dos poucos bêbados que não é chato e não diz que ama toda a gente).

Mas… sendo assim, porque é que se dá tanta importância às palavras de um barrigudo mal-encarado com uma tosga daquelas?

Meus amigos, este ano, a festa de Chão da Lagoa realiza-se a 26 de Julho.

Estão bem a ver a data? É em pleno Verão, altura em que, nas redacções de todo o país, o pessoal se contorce para arranjar notícias de jeito que possam fazer as primeiras páginas. Se houver muitos incêndios, dá para encher páginas com isso, mas, se chover um bocadinho em pleno Agosto, a coisa fica preta. É que até a porcaria da Assembleia da República está de férias (ou seja, não há cornos, nem deputados remetidos para o caralho) e não há debates para animar a malta. Se os conselhos de ministros que se forem realizando não tiverem nada de jeito, pior ainda. Como não dá para ter reportagens bombásticas todos os dias, a realização de uma primeira página nesta época torna-se uma tarefa algo penosa.

É neste contexto que surge Chão da Lagoa. Jardim aproveita um certo vazio de coisas novas no mundo da política para dizer o que lhe der na real gana. E di-lo mesmo com o intuito de chocar, para ganhar protagonismo, para ser manchete. Se o dia em questão for particularmente morto em termos noticiosos, Jardim tem umas quantas primeiras páginas garantidas com um par de bujardas contra este e contra aquele e contra tudo o que mexe.

É simples, demasiado simples. E, em rigor, pouco importante.

A MANILHA VAI SECA (57): PS, oportunismo e realidade

Já várias referi que considero o interesse de José Sócrates pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo como uma estratégia puramente eleitoralista, marcada por um cinismo que me choca. Afinal, o PS chumbou os projectos do BE e do PEV para legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo (acusando ambos os partidos de oportunismo político) e, logo em seguida, Sócrates anunciou justamente que o matrimónio entre homossexuais seria uma realidade na próxima legislatura. Ou seja, Sócrates quis usar os homossexuais como forma de piscar o olho a uma série de socialistas descontes, que, cada vez mais, vão pôr a cruzinha no BE (desde sempre, o partido mais genuíno na defesa dos LGBT). E convém sublinhar que, em Portugal, cerca de dez por cento da população será homo ou bissexual, o que, na hora de contar os votos, pode dar um jeito do caneco.

O que é verdade é que este Governo se está nas tintas para os homossexuais, ao ponto de o Ministério da Saúde proibir estes de poderem dar sangue. Mas só os homossexuais masculinos, para a discriminação ser mesmo a sério. Afinal, já não bastavam todas as discriminações que os homossexuais já sofriam. Agora têm mais esta: São considerados um grupo de risco, apesar de a SIDA estar a alastrar, curiosamente, entre heterossexuais. Neste particular, não deixa de ser interessante verificar que os bissexuais (mesmo masculinos) e as lésbicas não constituem grupos de risco. Ou seja, quem tiver relações sexuais com mulheres, mesmo que também tenha com homens, está na boa. Fazer sexo só com homens é que não, que isso faz mal.

No fundo, o que se passa é que Ana Jorge, a titular da pasta da Saúde, é, na verdade, tão homofóbica como Manuela Ferreira Leite, que, como se sabe, é uma homofóbica declarada. Ora, se o PS nos oferece um Governo com posturas homofóbicas e se isso choca alguém (a mim choca-me), mais vale votar no PSD… ou no BE.

Em tempos, achei que José Sócrates iria fazer uma ponta final de mandato verdadeiramente enérgica, de molde a vencer as Legislativas ou, pelo menos, para tentar vender cara a derrota. Só que Sócrates é uma coisa, os seus ministros são outra, apesar de caber ao líder do Governo a escolha da sua equipa. Ao optar por gente pouco qualificada do ponto de vista político, Sócrates conseguiu brilhar como o número um do Governo, mas agora arrisca-se a deitar tudo a perder. É que, depois dos cornos de Manuel Pinho, esta homofobia declarada de Ana Jorge é mesmo boa para deitar votos no lixo… ou nos dois principais adversários na corrida de 27 de Setembro.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (56): Alvo muito bem definido

A estratégia não é nova. Tem qualquer coisa como dez anos de vida.

Ao longo de uma década de existência, o Bloco de Esquerda tem sobrevivido graças aos descontentes com o rumo que o PS tem vindo a tomar. Foi assim em 1999, quando, nas Legislativas, os dois deputados eleitos pelo BE roubaram a esperada maioria absoluta ao PS de António Guterres, o qual ainda aparentava ser um pouco mais socialista do que o PS de José Sócrates.

Mais do que uma soma de três forças políticas (UDP, PSR e Política XXI) com uns quantos intelectuais de esquerda, o BE começa, cada vez mais, a querer ser o PS que muitos socialistas gostavam de ter, mas não têm. Apesar de, em muitos aspectos, o BE ainda se assemelhar aos velhos partidos de esquerda radical (designadamente ao PCP), a estratégia do partido de Francisco Louçã passa, antes de tudo o mais, por ir esvaziando este PS onde o socialismo repousa numa gaveta secreta do Largo do Rato. E uma simples parcela de um discurso de Louçã em Lisboa revela-nos bem que os descontentes com o PS são um alvo mais do que definido: “É preciso esquerda, uma esquerda solidária, socialista, que saiba o que quer e que lute pelo que quer”.

“Uma esquerda solidária, socialista”. Gostei do pormenor do “socialista”. É como se Louçã dissesse sem dizer: “Socialistas, olhai para o Bloco de Esquerda, o verdadeiro partido socialista”.

É verdade que o BE poderia captar votos do PCP, partido que, ao longo dos anos, tem resistido à mudança de forma absolutamente heróica e sem mexer uma vírgula nos seus ideais. E digo heróica porque o Mundo mudou - e muito - mas o PCP consegue manter-se bem vivo, mesmo algo anacrónico. Só que Louçã sabe que o eleitor tradicional do PCP não é muito dado a mudanças e, entre os eleitores ferrenhos dos comunistas, há gente a quem fará muita confusão que pessoas do mesmo sexo possam casar-se ou que os animais (especialmente os touros) possam ter direitos.

Não quero com isto afirmar que o BE é mesmo um novo PS, até porque as linhas programáticas de ambos os partidos estão demasiadamente afastadas (o PS, até na sua própria génese, é demasiado parecido com o PSD para poder ser confundido com o Bloco). Mas Francisco Louçã, hábil, sabe que é ali, entre os descontentes do PS, que estão os votos.

É a política, meus amigos.

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (2): A verdade (I)

“Há muitas maneiras de se dizer a verdade e outras tantas maneiras de não se dizer a verdade.”

Dr. Mento

A MANILHA VAI SECA (55): A poncha que leva fel em vez de mel

Alberto João Jardim cumpre, presentemente, o seu derradeiro (será?) mandato à frente do Governo Regional da Madeira. Como tal, estamos a falar de uma figura que, em termos de carreira política, já nada tem a ganhar ou a perder, após, no ano passado, ter equacionado uma candidatura à liderança do PSD, que, como logo percebeu, nunca seria vencedora.

Diabolizado por uns, idolatrado por outros, Jardim é uma das mais estranhas criaturas que algum dia ocupou um lugar de topo na vida política portuguesa. E isso explica um conjunto recente de atitudes de Mr. Madeira, que, fingindo ser um solícito social-democrata sempre pronto para ajudar o partido, decidiu, isso sim, fazer a vida negra aos seus companheiros. Basicamente, Jardim anda numa de “estou-me a cagar para isto tudo” e, no âmago do seu ser, sentiu chegada a hora de uma pequena vingança contra Manuela Ferreira Leite, a mulher que lidera o PSD nacional e que venceu umas eleições que ele nunca conseguiria ganhar.

Todos sabem que Alberto João Jardim odeia comunistas e que, se pudesse, mandaria matar todos os militantes do PCP. Todos sabem que Alberto João Jardim gostaria de fazer da Madeira alguma coisa como um jovem, que vai morar para a sua própria casa e faz vida de independente, jamais autorizado que os pais se metam na sua vida, mesmo quando são os progenitores a pagar todas as contas.

Até aqui, Jardim conteve-se nas suas palavras. Nunca pediu que a Constituição proibisse o comunismo ou que o representante da República Portuguesa na Madeira deixasse de existir. Mas agora, o velho folião está-se a cagar para o que possam pensar e diz o que bem lhe dá na gana, ao ponto de defender o comboio de alta velocidade, quando se sabe que Manuela Ferreira Leite diz que esse é um projecto para abandonar.

As referências à suposta abolição do comunismo foram cirurgicamente escolhidas por Jardim, que (alegadamente) dá enormes provas de falta de tacto democrático… justamente no partido onde a líder, numa gafe descomunal, referiu a suspensão da democracia por seis meses em Portugal (sei o sentido das palavras da senhora na altura e sei que não era isto que ela queria dizer, mas foi esta a impressão que passou para a opinião pública). Ao mesmo tempo, numa altura em que o PSD esconde os velhos sinais de desunião depois da vitória nas Europeias (os sabujos do costume já sentem o cheiro a tacho), vem Jardim desdizer o que diz Ferreira Leite, fazendo ressurgir o fantasma do partido onde todos enfiam facas nas costas uns dos outros.

Trocando tudo isto por miúdos, Jardim está a ser um grande filho-da-puta. E até tremo ao pensar que discurso o velho gordo e feio fará em Chão da Lagoa, quando tiver Manuela Ferreira Leite ao seu lado. É que, por acaso, quando discursa na festa do PSD/Madeira, Jardim nunca está sóbrio. Longe, disso.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (1): Pessoas e moedas

"As pessoas são como as moedas, têm uma cara e uma coroa. Mas, por norma, mostram-nos, em primeiro lugar, a face mais bonita e só depois o reverso da mesma."

Dr. Mento

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (54): Vai uma poncha à pescador, Manuela?

Ainda me consigo surpreender.

Em tempos, critiquei a postura das elites do PSD, que, por se acharem elites, evitavam ao máximo o contacto directo com o povo desdentado e suado, de gentes que exibem farfalhudos bigodes e bocas com falta de uns quantos dentes. Entre aqueles que julgam pertencer a uma elite dentro do PSD (e a uma elite dentro do próprio país) temos a própria líder do partido, Manuela Ferreira Leite.

No ano passado, Miss Política de Verdade optou por não marcar presença da tradicional Festa do Pontal, que, no coração de um Algarve que concentra quase todo o Portugal de Agosto, costumava marcar a reentré política do PSD em clima de festejo popular. Em vez de se misturar com o povo que cheira a sardinhas e a suor, Ferreira Leite escondeu-se na higiénica Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide, onde as elites do PSD debatem os problemas e as soluções para o país bem longe do povo que o habita. Nada contra a existência de um fórum onde um dos maiores partidos debate o que pretende para Portugal, mas tudo contra uma postura de “nós somos a elite, nós somos bons, nós não nos misturamos com a gentalha”.

Só que isto foi em 2008 e 2009 é ano de muitas eleições. Vai daí, Ferreira Leite decide que, para poder ganhar as simpatias do eleitorado, tem de mudar urgentemente aquela imagem de pessoa distante, sisuda, altiva e pouco acostumada aos contactos com as gentes do povão. José Sócrates, Paulo Portas, Jerónimo de Sousa e Francisco Louça não têm quaisquer problemas em apertar a mão aos descamisados e não se furtam mesmo a dois dedos de conversa com alguns populares que encontram no caminho.

Não sei se Ferreira Leite já se sente mais à vontade nos contactos com a população ou se esta imagem é algo artificial, mas sinto que, da parte da líder do PSD, há uma vontade clara de vencer as Legislativas em Setembro. Por isso, Miss Política de Verdade vai marcar presença em Chão da Lagoa, a popularucha festa do PSD-Madeira onde, todos os anos, Alberto João Jardim, tolhido pelos desígnios de Baco, de umas quantas ponchas e algumas nikitas, vocifera as maiores barbaridades contra o Governo (seja ele qual for), contra Lisboa e contra os portugueses de Portugal Continental. Jardim sente-se bem entre o povo e não tem quaisquer problemas em beber uns canecos no meio das gentes que cheiram a sardinha assada. Ferreira Leite vai ter de se habituar e, se calhar, até vai ter que mandar abaixo uma poncha à pescador diante da maior participação de sempre em Chão da Lagoa (o secretário-geral dos sociais-democratas madeirenses estima que estejam lá 40 mil pessoas, o que se traduz num público superior ao de muitos festivais de Verão).

Não tenho a certeza se Ferreira Leite vai estar também na Festa do Pontal, mas, por esta altura, já nada me surpreende. É junto do povo que muitos vão ganhando votos e Paulo Portas sabe, melhor do que ninguém, como é que isso se faz.

ESPADAS QUE PICAM (15): A instrumentalização da boa-fé dos resistentes

Numa empresa em queda livre, há quem entenda que todos os expedientes são válidos para manter o barco à tona. Um dos expedientes mais comuns é, infelizmente, o dos salários em atraso, uma solução que gera inúmeros problemas ao trabalhador, que, para além de não ter como cumprir as suas obrigações mensais (as contas da água, da luz, dos seguros, dos empréstimos para a casa e carro, entre outros), vê-se numa situação em que continua a ter de arcar com as despesas normais para ir trabalhar (transportes, combustíveis ou refeições, por exemplo), mas sem ver um chavo por um período de tempo indeterminado.

Como é óbvio, o Código do Trabalho prevê este tipo de situações e determina que, “quando a falta de pagamento pontual da retribuição se prolongue por período de 60 dias sobre a data do vencimento, o trabalhador, independentemente de ter comunicado a suspensão do contrato de trabalho, pode resolver o contrato”. De acordo com a Lei 35/2004 de 29 de Julho (Regulamentação do Código do Trabalho), o trabalhador nesta situação tem direito, entre outras coisas, à respectiva indemnização e ao subsídio de desemprego.

Até aqui, nada de mais. Se o trabalhador tem três meses de salários em atraso (os tais 60 de atraso sobre a data de vencimento), rescinde unilateralmente o seu contrato e vai à sua vida, sem perder os direitos que teria se fosse a entidade patronal a rescindir.

O problema é que, em casos como este, há sempre aqueles que optam por ficar a aguentar o barco, mesmo tendo a lei do seu lado (conheço vários casos assim, sendo que eu próprio já me encontrei, a dada altura, numa situação destas).

As razões que levam alguns trabalhadores a continuar a trabalhar mesmo sem ordenados são muitas. Em primeiro lugar, conheço quem sinta pavor perante a mudança, diante desse desconhecido que é a condição de desempregado. Mas há também quem fique por não querer ficar desocupado em casa, mesmo com algum dinheiro no bolso (do subsídio de desemprego, entenda-se). Haverá quem rejeite a rescisão pela vergonha social de perder o emprego, que, cada vez mais, se confunde com o próprio indivíduo em si. Há os que se mantêm para finalizar um estágio, totalmente obrigatório em certas categorias profissionais. Mas, sobretudo, os que ficam, fazem-no sempre tendo em mente a esperança de que se trata apenas de uma fase passageira e que as coisas poderão melhorar no futuro.

Esta boa-fé (e esperança) dos resistentes é, muitas vezes, instrumentalizada pelo patronato, que, em tempos de crise, vê aqui uma janela de oportunidades para poder reduzir despesas (com os ordenados que deixaram de ser pagos) e continuar a ter o trabalho feito, o qual, em princípio, gerará sempre algum lucro. Quando tal acontece, os atrasos de um mês passam a atrasos de dois meses e, rapidamente, crescem para três, quatro, cinco, seis meses. Nestas alturas, há até empresas que conseguem apresentar serviços a preços inacreditavelmente competitivos, já que a mão-de-obra não tem, na prática, qualquer custo com remunerações (embora os trabalhadores acreditem que sim).

Sei, por experiência própria, qual o desfecho destas histórias de atrasos sucessivos no pagamento de remunerações: No final (provavelmente, no momento em que for decretada a falência ou fecho da empresa), os trabalhadores perceberão que foram ludibriados e ficarão a arder com largas somas em dinheiro. E assim há alguns que se aproveitam da boa-fé de outros, para, em nome da crise, fazerem mais algum lucro.

Enquanto as entidades fiscalizadoras não tiverem mão pesada para situações como a que acabei de descrever, continuaremos a assistir a sucessivos atropelos aos direitos dos trabalhadores e ao próprio Código do Trabalho. E, uma vez mais, faço questão de frisar: As fugas ao Código do Trabalho, mais do que meras questões laborais, constituem também um problema de cidadania, de liberdades e direitos dos cidadãos.

domingo, 12 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (53): Outro que se posiciona

Até ao dia 7 de Junho, a ideia de uma derrota do PS nas Eleições Legislativas deste ano parecia uma possibilidade verdadeiramente remota, apesar de, aqui e ali, sinais claros de descontentamento popular anunciarem que o vento poderia começar a soprar para outro lado. Depois, veio o dia das Eleições Europeias e, num ápice, a ideia de uma derrota de José Sócrates e/ou de uma vitória de Manuela Ferreira Leite começou, rapidamente, a ganhar forma.

Ao sentirem que os dias de ouro de José Sócrates podem estar a chegar ao fim, muitas correntes e grupelhos internos do PS (demasiado parecidos com os que existem no PSD) começaram logo a contar espingardas à pressa, tendo em vista que, no dia 27 de Setembro, as coisas podem correr mal e os socialistas perderem as eleições. Se Sócrates sair derrotado daqui a dois meses e meio, certo é que, logo na noite das eleições, anunciará a sua demissão do cargo de secretário-geral do PS.

No post anterior, falei-vos da minha suspeita em relação à possibilidade de António Costa entrar na eventual corrida para a liderança do PS. Mas o que vos digo é que outro nome forte do PS pode igualmente entrar na corrida e estamos a falar, nem mais, nem menos, do que em Manuel Alegre.

Sócrates e Alegre começaram por disputar as Eleições Directas do PS (juntamente com João Soares), que levaram à vitória do primeiro sobre o segundo. Em seguida, foi o chumbo a uma candidatura presidencial de Alegre em detrimento de uma nova investida de Mário Soares. Depois de Alegre ter ficado à frente de Soares nas Presidenciais e de quase ter obrigado Cavaco Silva a ir a uma segunda volta, o deputado-poeta passou a ter uma ideia palpável da sua influência dentro do PS e na própria sociedade, pelo que começou a assumir uma postura de subgrupo dentro do próprio partido. Basicamente, Alegre imagina-se como o homem que poderá retirar o socialismo da gaveta, fazendo com que o PS regresse aos dias da pureza original.

Agora que Sócrates começa a patinar na sua corrida para um segundo mandato, Alegre posiciona-se como o seu possível sucessor, apesar de já ter batido na fasquia dos 73 anos. O artigo de opinião que o deputado-poeta publicou no Expresso deixa o gato escondido com o rabo de fora, apesar de o texto começar com uma espécie de apelo ao voto no PS contra o alegado terror que se avizinha se Manuela Ferreira Leite for eleita: “Nas europeias, não foi o PSD que teve um aumento significativo de votação, foi o PS que perdeu grande parte da sua base social, a ponto de, pela primeira vez, ter ficado aquém de um milhão de votos. Várias vezes falei de um buraco negro na esquerda. A soma da abstenção com os resultados do BE e do PCP mostram que esse buraco se situa na área do PS. Não é crível que personalidades de direita consigam recuperar para o PS o eleitorado que este perdeu para a abstenção e para a esquerda. Os socialistas não podem ter um discurso emprestado. Não se combate o liberalismo ultra com o liberalismo suave. Nem se vence o PSD com ex-ideólogos do PSD. Ainda é possível dar a volta. Mas algo tem de acontecer. Apesar dos erros, a bandeira do PS não está no chão. Mais política e menos marketing. Mais socialistas e menos figurantes. Um pouco mais de esquerda. Ou, como diria Mário Cesariny, "um acordar". Para que um dia destes não estejamos a perguntar-nos como é que se perdeu mais uma oportunidade e como é que um país maioritariamente de esquerda pode acabar uma vez mais a ser governado pela direita”.

Trocando por miúdos, Alegre, que não integrará as listas do PS nas próximas Legislativas (é a primeira vez que vai ficar de fora desde que há democracia em Portugal), parece pouco ou nada convencido com a capacidade de José Sócrates para vencer as eleições. Alegre bem diz que “a bandeira do PS não está no chão”, mas escusa-se a falar de José Sócrates, como que, implicitamente, responsabilizando o actuar líder por uma eventual derrota (e é por isso que surge o apelo “mais política e menos marketing”).

Claro que José Sócrates ainda não está derrotado. Mas, perante essa possibilidade, Alegre e Costa vão reunindo trunfos e apoios, preparando-se para a eventualidade de, no dia 27 de Setembro, o PS ficar sem líder. É que ninguém que ser apanhado com a Manilha seca na mão no momento em que o Ás saltar para cima da mesa…

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (52): Hum… pois, sei… estou a ver… sim, é “o PS de António Costa”

José Sá Fernandes, advogado e vereador independente na Câmara de Lisboa, admitiu uma convergência com “o PS de António Costa” nas próximas Eleições Autárquicas, caso o actual edil alfacinha aceite as propostas da Associação Cívica «Lisboa é Muita Gente».

Hum…

Pois é, o Sá Fernandes disse “o PS de António Costa”. Expressão interessante. Especialmente, quando ainda está na moda a expressão “o PS de José Sócrates”.

Pois, ainda está na moda. Mas, vai na volta, pode deixar de estar. Especialmente, se “o PS de José Sócrates” perder as eleições. Nesse caso, podemos ter “o PS de António Costa”.

Porque não?

O que eu sei é que, volta e meia, “o PS de António Costa” se lembra de criticar “o PS de José Sócrates”, isto apesar de António Costa já ter integrado o Governo de José Sócrates (e de ambos terem sido colegas nos Governos de António Guterres). Sei que a moção apresentada pelo movimento de Carmona Rodrigues, a criticar a exclusão da edilidade alfacinha da administração do Metropolitano de Lisboa, foi aprovada também com os votos do PS, sendo que António Costa aproveitou a deixa para atacar Mário Lino, seu antigo colega de Governo. Sei também que António Costa já critica a Lei das Rendas, ele que a defendeu nos tempos em que era ministro do Governo que agora ataca.

Tudo isto para chegarmos a um ponto: António Costa começa, lenta e eficazmente, a demarcar-se do Governo que outrora integrou.

Mas… porque o faz? Bem, se António Costa tem espírito auto-crítico, decerto reconhecerá que, como ministro da Administração Interna, foi uma verdadeira lástima e uma das piores coisas que já aconteceu a esta tutela (as razões que me levam a afirmar tal coisa seriam merecedoras de outro post). Mas, sobretudo, parece-me estar em causa uma absoluta falta de crença de Costa numa vitória do PS nas próximas Legislativas; sendo assim, e jogando no seguro, o edil de Lisboa opta por se demarcar de um Governo em nítida queda, ao qual, curiosamente, já pertenceu. José Sócrates? Não conheço esse senhor e nunca me foi apresentado…

Contudo, tenho cá um dedinho que me diz que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa está mais interessado noutros voos. Sentindo próxima a queda de José Sócrates, Costa começa a distanciar-se do Governo e do rumo por ele tomado tendo em vista um eventual assalto à liderança do PS, isto no caso de Sócrates ser derrotado a 27 de Setembro (o que implicaria a demissão voluntária do actual líder socialista).

Tudo isto são meras suposições, análises feitas em cima de quase nada. Mas aquele “o PS de António Costa”, dito por Sá Fernandes, soou-me a profético. Vai na volta, sou eu que estou a ver pestanas em ovos…

… ou não.