sexta-feira, 26 de junho de 2009

ESPADAS QUE PICAM (10): Três meses dedicados às pessoas bonitas (ou, pelo menos, que se julgam esbeltas)

Com uma enorme dose de humor autocrítico, Nuno Markl costuma dizer que a época do ano que mais o fascina é o Inverno, já que as grossas camisolas de lã lhe permitem disfarçar a flácida barriga que o atormente. Como, no último ano, engordei mais quilogramas do que poderia algum dia imaginar (o stress, o sedentarismo, a alimentação desequilibrada e duas idas à mesa de operações não ajudaram), sei bem qual é o sentimento de que fala Nuno Markl.

Curiosamente, em declarações à Lusa, a psicóloga clínica Sandra Santos Vilaça afirma que há perturbações do comportamento que são “mantidas ou precipitadas” nesta altura do ano, na qual “há uma maior exposição do indivíduo” e “uma maior revelação de si próprio em relação a outros”. Ir à praia a ostentar uma barriga flácida como a minha é, por si só, um gesto de autocrítica (que aceito e tendo corrigir) e autoflagelação.

Porém, a psicóloga alerta também que, “quando passa o Verão, passa esta necessidade de exposição e o problema também passa, teoricamente”, mas, se durante o tempo mais frio, as questões não ficarem resolvidas, as “pessoas tornam-se reincidentes e, por vezes, com um grau de patologia muito mais evidente”.

Na adolescência, época em que olhamos para o nosso corpo em mutação como se mais nada existisse, estas perturbações podem ser ainda mais evidentes e deixar marcas na auto-estima para toda a vida.

O Verão é a estação das pessoas bonitas. É por isso que os ginásios recebem mais e mais inscrições nos meses que antecedem as idas à praia, como se todos lutassem desesperadamente por estar bonitos e em forma quando chegar a altura em que as escassas vestimentas revelam todas as nossas fragilidades estéticas. Algumas fragilidades, como a gordura em excesso, podem ser combatidas com muito exercício físico, mas outras, como manchas na pele ou até mesmo o tamanho do peito, são mais difíceis de resolver.

No Verão, mostramos mais de nós mesmos, mas, ao fazê-lo, o que está em causa não é o julgamento dos outros (que, muitas vezes, se estão a marimbar para nós), mas sim o julgamento que fazemos de nós próprios, criado com base num suposto julgamento que os outros irão fazer.

O Verão é uma estranha época de clivagem. Eleva a autoconfiança dos que já se sentem autoconfiantes (às vezes, tocando o narcisismo), mas destrói completamente a auto-estima dos que já têm a auto-estima em baixo.

O Verão é uma época de extremos, que se voltam a juntar na estação que representa o outro extremo climatérico: o Inverno, que, com as suas grossas camisolas de lã e casacos quentinhos, volta a uniformizar um pouco a auto-estima de bonitos e feios, gordos e magros.


Ah! Pois, há aqueles que dizem que se estão nas tintas para o seu aspecto físico e que convivem bem com o espelho. Na verdade, não estão, mas, fazendo de políticos em campanha eleitoral perante o seu próprio subconsciente, criam essa mentira piedosa na qual começam a acreditar.

1 comentário:

R. Rudoisxis disse...

Enfim, mesmo sem saber a faixa etária do amigo essa barrigunha não preocupação. Use-a como trunfo em competições de barrigas ao léu e pode fazer umas vazas.
O raio da cultura do corpo e os padrões estabelecidis de beleza fisica fazem mais mal que bem, mas umas idas ao ginásioe uma saladinhas apetitosas (nhec...) fazem milagres.
Um abraço