quarta-feira, 3 de junho de 2009

CARTAS SEM NAIPE (1): Um pouco de Ícaro

Em todos nós há um pouco de Ícaro.

De afronta em afronta, a espécie humana foi enfurecendo os deuses. Num instante, eles, humanos, mais mão eram do que meros animais como os demais. No momento seguinte, criaturas deidificadas pelo engenho e arte, pelo saber e por uma ânsia de superação.

Durante séculos, o aperfeiçoamento da técnica elevou a espécie humana a patamares que os seus antepassados jamais haviam sonhado. Mas muitos séculos foram consumidos até que o sonho de Ícaro e Dédalo em fuga passasse da lenda para a realidade.

Sabemos que as asas de penas coladas com cera de Dédalo são tão lendárias como o destino do seu imprevidente filho, Ícaro, que, fascinado pela beleza do sol, viu as suas asas destruídas e a sua vida terminada numa queda sobre o mar. Porém, a história ficou, a mensagem passou e o sonho não esmoreceu. E é por isso que homens como os irmãos Wright ou Santos Dumont não são lendas, mas sim humanos de carne e osso que materializaram as asas de Dédalo em enormes pássaros de metal, novos senhores dos céus, capazes de elevar a espécie humana à divina condição.

Mas nem sempre somos Dédalo e nem sempre somos capazes de chegar à Sicília da nossa libertação. Por vezes, somos Ícaro. Por vezes, pagamos o tributo de sangue pela audácia de viajarmos pelas nuvens, qual Hermes calçando as suas sandálias aladas.

Por vezes, há voos 447.

4 comentários:

R. Rudoisxis disse...

Mitos e realidades em consonância.
E no Real o irreal pensar que as máquinas são perfeitas.
O risco existe em tudo e a própria vida é a sua essência nunca nos dando a conhecer quando começa ou quando acaba.

Susana disse...

O sonho fala mais alto e com ele alcançamos coisas, que já foram impesáveis de se concretizar.
Abraço, Susana

Susana disse...

Perdão: "impensáveis"

SILÊNCIO CULPADO disse...

Dr.Mento
A vida sem loucura não é vida. Porém há que gerir a loucura de forma lúcida para que ela possa ser o impulso e a emoção que impelem ao voo e nos acrescentam mas sem a queda que é tanto mais dolorosa quanto mais alto se voou.

Abraço