quarta-feira, 13 de maio de 2009

A MANILHA VAI SECA (6): Paulo Portas, a formiga e a verdade

Digo e repito: há muitas maneiras de se dizer a verdade e outras tantas de não se dizer a verdade. E as verdades são como os chapéus: há muitas.

Isto a propósito de Paulo Portas.

No encerramento das Jornadas Parlamentares do CDS-PP, que tiveram lugar em Aveiro, o líder centrista tocou num assunto interessante: o trabalho legislativo desenvolvido pelas várias bancadas com assento parlamentar. Há muito quem tenha uma ideia vaga das muitas iniciativas que, ao longo de uma legislatura, são apresentadas pelas várias forças políticas, embora seja certo que muitas das propostas que vão a plenário acabem sempre por ser chumbadas (facto quase garantido quando há uma maioria absoluta de um dos partidos).

Ora, o argumento de Paulo Portas para convencer o eleitorado a votar no CDS-PP nas Eleições Europeias passa justamente por essas iniciativas. E Portas, sem qualquer pejo, fez questão de salientar que, em termos de oposição ao Governo, o seu partido fez claramente mais do que o PSD (partido que, tal como o CDS-PP, integra a grande família do Partido Popular Europeu, que domina a maior parte dos assentos em Estrasburgo).

E diz-nos o ilustre Paulo: “É preciso censurar quem governou mal e premiar quem se opôs melhor. Nas pequenas e médias empresas, CDS apresentou 87 iniciativas [no Parlamento], o PSD 74. Na área da Segurança, o CDS apresentou 30 iniciativas, o PSD 13. Nas pensões, o CDS apresentou 20 iniciativas, o PSD sete. Fomos a formiguinha que mais trabalhou”.

Agora que a formiguinha já tem catarro, vejamos o outro lado da verdade:

1. Paulo Portas quer convencer o eleitorado a votar nas Eleições Europeias com o trabalho realizado na Assembleia da República, cujos 230 membros são escolhidos pelo povo, através de sufrágio universal. Nas Eleições Legislativas. Há uma pequena diferença.

2. O mestre-de-cerimónias de todas as feiras e mercados compara o número de iniciativas legislativas do seu partido com o PSD, que é o maior partido da oposição. O maior, mas não o único. E todos nós sabemos que o PCP, o BE e «Os Verdes» também são formiguinhas muito trabalhadoras neste aspecto. Só que Paulo Portas não fala neles. Só fala no PSD. Estranho, não?

3. Paulo Portas considera que o CDS-PP foi o partido que mais oposição fez ao Governo e, para exemplificar, mostra quantas iniciativas legislativas apresentou. Sucede que os deputados da nação são eleitos para fazer e votar leis que sirvam o povo. Digo e repito: leis que sirvam o povo. O que Portas nos diz é que, afinal, o CDS-PP não serve o País, trabalha apenas para aqueles que não gostam do PS e/ou do Governo. E o povo, pá?

4. Por fim, temos um problema clássico. Paulo Portas fala em quantidade de iniciativas legislativas, mas ignora por completo a questão da qualidade. A julgar pelo problema enunciado no ponto 3, adivinha-se porquê.

2 comentários:

SILÊNCIO CULPADO disse...

Dr.Mento
A qualidade da nossa democracia e dos nossos políticos é mais que questionável. Tudo gira à volta do "tirar partido" das actuações dos opositores para ganhar votos. Fabricam-se assim verdades à medida dos interesses.
O bem do povo só é defendido pelos partidos que são oposição. Logo que passem a partidos de poder a primeira coisa que nos dizem é que o País está pior do que previam por culpa dos antecessores e, por isso, têm que tomar medidas antipopilares com que não contavam.
A ladainha é sempre a mesma, são sempre os mesmos que se enchem e sempre o mesmo povo que é lixado.

Abraço

Maria João disse...

Dr. Mento

Já ninguém tem qualquer dúvida sobre a cartilha com que se regem os nossos políticos para elaborarem os seus discursos. A cor da letra pode mudar, mas a escrita é a mesma. Vira o disco e toca o mesmo... ou toca outro porque a música não varia.
Reservo ainda algumas espectativas, confesso, mas apenas numa futura geração de políticos, aqueles que agora têm algumas dificuldades em obter a necessária formação académica, porque os pais deixaram de ter recursos suficiêntes. Esses começam a sentir na pele a revolta, a revolta necessária para lançar o caos, esse caos que poderá vir a repôr a ordem!
Essa é a minha ultima esperança.

Um abraço.