quarta-feira, 20 de maio de 2009

CARTAS DO QUINTO NAIPE (1): O pequeno centro comercial

(Estreio hoje uma nova secção do blog, que, ao mesmo tempo que pretende fugir um pouco das tradicionais áreas da política e sociedade, vai levar-vos numa pequena viagem pelo tempo, até à Idade da Nostalgia)

Tempos houve em que as tardes de Domingo pertenciam a um mundo completamente diferente. Uma tarde de Domingo - esse momento em que o fim-de-semana esboça um sorriso agridoce, como que anunciando “adeus e até breve” - já foi algo precioso demais num país perdido nas páginas do tempo.

Lembram-se do que faziam com as vossas tardes de Domingo?

Lembram-se de como, hoje em dia, consomem as vossas últimas tardes do último dia do fim-de-semana?

Eu disse “consomem”.

Sim, hoje em dia, consumimos dias, como consumimos outra coisa qualquer. Consumimos por consumir, consumimo-nos a nós mesmos. E rezamos nas grandes catedrais do consumo. Em muitas delas, consumimos as nossas tardes de Domingo, como se o Mundo outro lugar não tivesse.

Mas nem sempre foi assim. Nem sempre fomos máquinas consumidoras compulsivas, misericordiosamente de joelhos diante de monstruosos centros comerciais. Centros devoradores de tardes de Domingo, digo eu.

Dolce Vita Tejo. Mais uma gigantesca superfície comercial, daquelas que nos são apresentadas publicamente como sendo um motivo de orgulho soberano para a lusa pátria. Até dizem que dão emprego a muita gente, embora ninguém pergunto que tipo de emprego elas dão. Quando abriu, corria até o rumor que o Dolce Vita Tejo seria o maior centro comercial da Europa. Na verdade, é a mesma ladainha que se ouve sempre que abre um novo centro comercial - pelo menos, desde a época em que abriu o Colombo. Mas não, este não é o maior da Europa. É o maior, isso sim, da Península Ibérica. Mas é melhor não dizer isto em voz alta - o nosso orgulho, enquanto povo construtor dos maiores centros comerciais da Europa, pode sair profunda e irremediavelmente ferido.

Lembro-me.

Muito bem, até.

Os pequenos centros comerciais de bairro.

Lembram-se?

Alguns, pela sua localização estratégica, ainda sobrevivem. Outros já fecharam as portas. Muitos agonizam rápida e inexoravelmente, sobrevivendo sabe-se graças a que milagre ou gesto de teimosia perante a marcha inexorável do tempo.

De uma forma ou de outra, muitos destes espaços comerciais ficaram indelevelmente gravados na nossa memória, mais não seja pelos muitos momentos que neles passamos, naqueles idos anos em que nem sequer o Amoreiras existia ainda.

Lembro-me de muitos deles em muitos locais. Por norma, mais não eram do que meras extensões do pequeno comércio local e tradicional, então rei e senhor das nossas cidades. Em muitos destes centros, não encontrávamos todas aquelas lojas de todas aquelas marcas que, hoje em dia, esperamos encontrar em qualquer centro comercial. Encontrávamos, isso sim, o velho pronto-a-vestir (sim, eu usei esta palavra), a velha loja com todos os electrodomésticos que pudéssemos imaginar amontoados a tordo e a direito, o velho cabeleireiro da Rosa lá do bairro, a velha loja de fotocópias, a velha papelaria/tabacaria, o velho clube de vídeo, a velha perfumaria, a velha loja de ferragens, a velha loja de discos (em vinil, pois claro), o velho café onde ainda se podia falar alto e praguejar, comer rissóis feitos em casa, fumar entre dois dedos de prosa, conhecer o homem que nos trazia imperiais/finos para a mesa.

Lembro-me até de uma destas lojas, onde matava um dos poucos desejos de consumo da minha infância: jogos para o Spectrum 48K (embora, no meu caso, eu tivesse o Timex 2048, a variante «deluxe» do 48K). Mas eram cópias-pirata, vendidas a preço e saldo e à luz do dia, num tempo em que tal seria tão normal como ir à casa-de-banho.

Noutro destes centros, vi, num pequeno café onde havia mais fumo do que pessoas, o meu clube ganhar, pela última vez, a Taça de Portugal (como não torço por um dos ditos três grandes, este é um privilégio que não posso ter todos os anos). Neste mesmo centro, comprei o primeiro número de um certo semanário (sim, era mesmo a primeira edição), sem imaginar que, 14 anos mais tarde, iria trabalhar para essa mesma publicação… e perder toda a imagem pueril que dela tinha.

Noutro destes centros, numa loja monumentalmente confusa, comprei o meu primeiro vídeo. Sim, um VHS. Custou muitas vezes aquilo que dei pelo DVD que tenho cá em casa e, por isso, quando o tive nas mãos, senti uma felicidade que, nos tempos de hoje, seria impossível sentir.

Lembro-me. De tudo isto e de muito mais.

Muitos destes espaços teriam uma sala de cinema… quando tinham. Nalguns, a higiene e a limpeza (até mesmo dos corredores) deixavam demasiado a desejar, mas não havia ASAE que implicasse com isso. Alguns, nem casa-de-banho teriam.

Nestes locais, estranhos e bizarros aos olhos do Mundo actual, não consumíamos as nossas tardes de Domingo deambulando por corredores de lojas e mais lojas. Na verdade, percorrer os corredores destes locais seria tarefa a cumprir em poucos minutos. Por isso, se por lá consumíssemos as derradeiras horas do nosso fim-de-semana, estas seriam passadas no pequeno café ou na pequena sala de cinema lá do centro comercial lá do nosso bairro. Porém, podia muito bem dar-se o caso de passarmos o fim do fim-de-semana entre a família ou, quem sabe, num passeio algures onde quatro paredes não nos fechassem num universo de medo e de consumo, frio e sempre igual ao ponto da exaustão.

Naquele estranho mundo de outrora, tudo era pequeno, tudo era simples e demasiado provinciano. Menos as nossas tardes de Domingo - essas eram sagradas demais para serem consumidas.



Nota de edição: Troquei a foto do Babilónia, na Amadora, por uma referente ao Galáxia, em Mem Martins, que exemplifica melhor a ideia do pequeno centro comercial de bairro. Seja como for, ambos sobrevivem actualmente devido à proximidade em relação a uma estação dos caminhos-de-ferro.

2 comentários:

SILÊNCIO CULPADO disse...

Dr.Mento

Estamos a desenvolver a cultura da solidão, do fastio, do cansaço e da insatisfação. E isto num mundo que muda tão rapidamente devido às novas tecnologias que desactualiza os saberes e os hábitos a uma velocidade alucinante.
O ser humano está cada vez mais longe de si próprio perdendo o gosto pelas coisas simples, enfraquecendos os laços familiares e diluindo os valores que tornavam coesas as sociedades.
Os Centros Comerciais espelham esta desolação interior que se alimenta do voyeurismo, do vazio e da falta de objectivos.
Os prazeres das aquisições vão-se perdendo à medida que se banalizam.
Só os afectos perduram para quem os saiba conservar.


Abraço

Maria João disse...

Dr. Mento

Abordas um assunto que me tem feito reflectir imenso, por diversos aspectos.
A Lídia no seu comentário, refere algumas reflexões pessoais que eu partilho na integra.
Mas existe um detalhe, eu e os detalhes...
O que é que os pais ensinam às suas crianças, nas tardes de domingo nos Centros Comerciais ( também nos maiores da Europa ou da Península)? Sim, esses pais que têm a responsabilidade assumida ou pelo menos presumida de contribuir para a formação da personalidade dos filhos, educando-os e ensinando-os a valorizarem o que é realmente importante.
Afinal, porque se queixam os pais dos comportamentos por vezes tão pouco saudáveis, tão consumistas, tão desprovidos de afectividade e civismo, tão egoístas, dos filhos?

" Quem boa cama faz, nela se deita"
Assim diz o ditado.
Assim se perpetuará a alienação, digo eu!

Um beijinho