terça-feira, 5 de maio de 2009

A MANILHA VAI SECA (3): E se houver Bloco Central?

Numa entrevista ao Diário Económico, Jorge Sampaio afirmou taxativamente, que, perante a actual situação do País, “o Bloco Central pode ser uma possibilidade”, caso nenhum dos partidos consiga a maioria absoluta nas próximas Eleições Legislativas.

Durante todo o dia, sucederam-se várias reacções de destacadas figuras do PSD (como Luís Filipe Menezes ou Paulo Rangel), que colocaram de parte a possibilidade de se reeditar uma coligação PS-PSD, como sucedeu entre 1983 e 1985. Para fechar o dia, a própria Manuela Ferreira Leite veio a público descartar, por completo, tal possibilidade.

Bem, se Miss Política de Verdade diz que não, é porque é não mesmo.

Ou não?

Em política e na vida em geral, há muitas maneiras de se dizer a verdade e outras tantas maneiras de não se dizer a verdade. E as verdades são como os chapéus: há muitas.

Antes de o PSD vencer as Eleições Legislativas de 2002, um tal José Manuel Durão Barroso disse que ir dar aos portugueses um choque fiscal. E foi mesmo um choque que deu: o IVA saltou logo de 17 para 19 por cento.

Antes de o PS vencer as Eleições Legislativas de 2005, um tal José Sócrates prometeu 150 mil novos postos de trabalho e que não iria subir impostos. Mal se apanhou no poder, fez o IVA passar de 19 para 21 por cento, embora, posteriormente, tenha descido este imposto para 20 por cento. Quanto aos 150 mil postos de trabalho, dado que Sócrates não estava a pensar criá-los na Administração Pública, trata-se de uma promessa cujo cumprimento nunca esteve nas suas mãos: Nenhum Governo pode obrigar as empresas a aceitarem mais gente.

Recuando um pouco mais, até 1996, encontramos um tal Pedro Santana Lopes a jurar aos adeptos do Sporting que não iria deixar a presidência do clube para entrar na corrida à liderança do PSD. Na época, Santana disse qualquer coisa como: “Sou do Sporting desde pequenino, mas só sou do PPD/PSD há alguns anos” (não me lembro com exactidão da citação). Dias depois de estas palavras serem proferidas, Pedro Santana Lopes abandonou a presidência do Sporting Clube de Portugal para entrar na corrida à liderança do «seu» PPD/PSD… corrida essa que acabou por perder, como estarão recordados.

Por isso, se PS e/ou PSD ficarem sem a maioria absoluta nas Legislativas, podemos contar com um novo Bloco Central, que surgirá embrulhado na desculpa: “As circunstâncias assim o exigiram, temos de unir esforços a bem do País para podermos sair da grave crise económica e social em que nos encontramos”.

“A recuperação vai obrigar à existência da necessária estabilidade governativa para se poderem levar a cabo reformas absolutamente essenciais para o futuro do País, para o bem-estar dos portugueses”, pode ser outra boa ladainha para a ocasião.

E com que cara ficará Manuela Ferreira Leite se for apanhada numa tão descarada mentira? Com a mesma de sempre.

No fundo, se houver um novo Bloco Central, tal será apenas a confirmação de que as elites políticas portuguesas só conseguem ganhar fazendo renúncia. Mas um dia, garanto-vos, o jogo ainda vira…

Nota adicional: Não estou aqui a querer dizer que Manuela Ferreira Leite vai MESMO faltar à verdade. Estou só a equacionar um possível cenário… no qual, sinceramente, eu acredito. Mas pode ser que Ferreira Leite mostre provas de ser uma mulher de palavra (coisa rara na política) e me surpreenda.

2 comentários:

Maria João disse...

Caro Dr. Mento

É no minímo curiosa, esta tua análise.
Claro que é do conhecimento geral que a falta de verdade nas afirmações políticas, já passou a ser um dado adquirido.
O descrédito instalou-se de tal forma que já ninguém, ou poucos ( temos se ser sinceros, porque ainda existem alguns) acreditam que as tão proclamadas verdades, assim o venham a ser em futuro muito próximo.
Também já vem sendo hábito, a utilização das mesmas desculpas, como: uma causa maior..a conjuntura.. os sacríficios pelo país..a mudança de cenários... ou o que é ainda pior: .. por culpa do "outro" que lá esteve e que ocultou a verdade.
Anda por aí muito boa gente a esconder o nariz, que de tanto crescer já se tornou um permanente incomodo para a imagem pública.
Mas sabes o que eu acho curioso, é essa possibilidade que agora temos, de saber ou prever, com uma percentagem mínima de erro, o que na realidade vai acontecer no futuro em matéria de decisões políticas. Basta estarmos atentos aos discursos, assim saberemos que a verdade será inversamente proporcional à convicção das promessas.

Um abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Dr.Mento

Já li uma declaração da Manuela Ferreira Leite a admitir uma coligação pós-eleitoral com o PS.
Mas quem liga a palavra de político nesta altura do campeonato?
A esperança está numa figura não comprometida com o passado que apresente um projecto com credibilidade.
Os USA estão a dar sinais positivos porque têm um rosto-novidade chamado Barack Obama. A novidade só por si não é um garante mas sem ela é que nada se constrói. Os vícios são grandes e os interesses instalados também. E todos têm barbas.

Abraço