sexta-feira, 10 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (51): Agora é com o menino Zé

Leram o post anterior? Se não leram, não me vou dar ao trabalho de pôr o link, porque basta recuar um bocadinho com o rato. Mas se não quiserem ler, escusam de ler este post.

Depois de pensar um bocado, achei que traçar o cenário da hipotética continuidade de um Governo minoritário do PSD no caso de uma pandemia de Gripe A seria um exercício demasiado parcial. Ainda por cima, é um exercício que parte de um pressuposto (a vitória do PSD a 27 de Setembro) cuja concretização não é minimamente certa.

Por isso, passamos a outro exercício idêntico. Desta vez, com o PS de José Sócrates reconduzido a um novo mandato, ainda que em maioria relativa (a absoluta, tanto para socialistas, como para sociais-democratas, parece cada vez mais longe).

Imaginem, uma vez mais, o mesmo cenário dantesco provocado pela Gripe A (e este é o cenário que mais se aproxima da realidade, confesso). Neste caso, seria muito mais fácil apontar culpas ao Governo de Sócrates, já que ele é que foi responsável por tomar todas as precauções em relação aos perigos da Gripe A.

Perante este cenário, imagino, uma vez mais, um quarto dos deputados reunidos para poderem apresentar uma moção de censura, a qual tinha fortes possibilidades de ser aprovada. Aí, Cavaco não teria muito que pensar: Demitia o Governo e Portugal ia novamente a eleições.

Num cenário como o que acima descrevi, o PS perderia toda a confiança do eleitorado em ira, que não mais lhe daria uma segunda hipótese. Por seu turno, o PSD (se calhar, já sem Manuela Ferreira Leite como líder) teria todas as hipóteses de conseguir uma histórica maioria absoluta, a primeira do partido desde 1991. Tal como sucedeu nas últimas Europeias, também o BE, a CDU e o CDS-PP poderiam aproveitar a perda de votos do PS para engordarem um pouco mais, ao passo que partidos como o MEP ou o MMS poderiam até ter espaço de manobra para conseguirem uma pequena representação parlamentar, captando descontentes com os cinco partidos que dominam o «sistema» (ou seja, a Assembleia da República, assembleias regionais e autarquias locais).

E assim, sem honra nem glória, terminaria a era Sócrates, à qual se seguiria um período de enorme turbulência interna dentro do PS.

A MANILHA VAI SECA (50): Uma maçã envenenada para a menina Manuela

Vamos partir do princípio que José Sócrates e o PS estão mesmo na mó de baixo, sem ânimo para esboçarem uma jogada de contra-ataque até ao dia das Eleições Legislativas. Vamos mesmo partir do princípio que o primeiro-ministro está farto de o ser e que, a partir de finais de Setembro, quer é sopas e descanso e, por isso, até vai agradecer se perder as eleições.

Se Sócrates perde, é Manuela Ferreira Leite quem ganha, não é?

Se calhar… não.

O PSD tem, no dia 27 de Setembro, uma oportunidade histórica para poder regressar ao poder. Mas, este arrisca-se a ser um Governo inacreditavelmente efémero, se Manuela Ferreira Leite não se aperceber da ratoeira que lhe estão a preparar. Por isso, se Ferreira Leite quer mesmo ser primeira-ministra por mais do que uns meses, vai mesmo ter de arranjar uma maioria absoluta, seja apenas com os votos do PSD, ou através de uma coligação que reedite a AD ou o Bloco Central.

Mas por que cargas de água estou eu a traçar tal cenário, tão drástico e aparentemente exagerado?

Por esta altura, já a população portuguesa está mais do que preparada para o pior. Dia a dia, vou perdendo a conta os novos infectados e, bem vistas as coisas, estamos ainda em pleno Verão. Quando chegar o Outono, o número de infectados vai subir drasticamente, especialmente nas escolas e jardins-de-infância, onde a concentração de pessoas numa pequena sala é propícia a todo o tipo de contaminações; muitas pequenas e médias empresas não têm dinheiro para planos de prevenção face à Gripe A e assumem mesmo que confiam na sorte. Para juntar a tudo isto, o Ministério da Saúde já fez saber que as vacinas para a Gripe A estarão disponíveis lá para finais de Novembro, depois de passado o pico das contaminações.

Trocando por miúdos, as estimativas que apontam para a possibilidade de 25 por cento da população portuguesa acabar por ser contaminada começam a parecer-me estranhamente realistas e, se calhar, optimistas. Mas já se sabe que o Sistema Nacional de Saúde não tem capacidade para fazer face a uma pandemia de Gripe A.

Temo mesmo que o pior possa acontecer e que, em Portugal, haja vítimas mortais por causa da Gripe A. E se, entre as vítimas, estiverem crianças, já se sabe que a comunicação social vai explorar o caso ao máximo, criando aquele discurso de pedir a cabeça dos responsáveis. Só que, partindo do cenário descrito anteriormente, quem estará na liderança do Governo nesta altura será justamente o PSD, embora a trapalhada das vacinas seja da responsabilidade do PS. Mas se o PSD não tiver forma de resolver o problema no mais curto espaço de tempo, certo é que cabeças vão rolar - provavelmente, o primeiro ministro da Saúde não irá nem aquecer a cadeira.

Logo em seguida, teremos as outras consequências indirectas da Gripe A, como sejam as escolas fechadas e os atrasos nas aulas e programas para o ano lectivo. As empresas poderão sofrer horrores, com muitos trabalhadores de baixa, seja para tratarem da própria gripe, seja para prestarem assistência a familiares.

Perante um cenário destes, o que podem fazer os partidos da oposição diante de um Governo minoritário a quem toda a gente pede responsabilidades pela pandemia de Gripe A?

APRESENTAR UMA MOÇÃO DE CENSURA.

Se 116 deputados votarem favoravelmente a moção de censura, o Governo cairá imediatamente, consoante o que vem expresso na alínea f do artigo 195.º da Constituição da República Portuguesa.

Perante tal cenário, o Presidente da República será chamado a desempenhar um papel decisivo na matéria, mas Cavaco Silva teria de jogar habilidosamente com a situação, já que também ele irá a votos no início de 2011. Ou seja, os níveis de popularidade do Governo e a possibilidade ou não de o PSD ser eleito num novo sufrágio irão determinar a decisão de Cavaco Silva, que não quererá manchar a sua própria imagem a pouco tempo de ele próprio ir disputar uma eleição.

Basicamente, Cavaco pode nomear um novo Governo do PSD, provavelmente sem Manuela Ferreira Leite, mas só o fará se as sondagens disserem claramente que a manutenção dos sociais-democratas no poder representa a vontade da maioria. Caso Cavaco actue para beneficiar o PSD contra a opinião dos portugueses, estará a comprometer, em definitivo, a sua reeleição. Por isso, em caso de dúvida, Cavaco deverá optar por convocar novas eleições, as quais darão a vitória… ao PS? Ao BE? Ao PNR? Bem, para adivinhar o hipotético vencedor de umas eleições altamente hipotéticas que sucederão a um Governo ainda hipotético, nem os meus dotes de leitura de cartas de Tarot chegam.

Mas o que é verdade é que, para o português comum, a saúde é um dos bens que estão à frente de tudo o mais. E quando digo à frente, quero dizer que supera a importância dada, por exemplo, à educação, à cultura, às finanças ou à economia. Caso se confirme a contaminação de 25 por cento da população, Portugal em peso irá voltar-se contra o Governo que não protegeu os cidadãos da Gripe A, ainda que as responsabilidades de um Executivo recém-empossado possam até ser relativamente reduzidas.

Por isso, Manuela, se queres manter o rabo sentado na cadeira do poder por mais do que uns meses, toma atenção ao que eu te digo: Ataca, logo desde início, a Gripe A e faz o que for possível e impossível para que os efeitos da pandemia quase nem se façam sentir. Isto, é claro, se venceres as eleições a 27 de Setembro, tarefa que ainda não demonstraste ser capaz de cumprir.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

ESPADAS QUE PICAM (14): As limitações da ACT e os entraves às liberdades, direitos e garantias dos cidadãos

O Filinto, ex-jornalista d’ O Primeiro de Janeiro, chamou-me a atenção para o facto de a Autoridade para as Condições do Trabalho já ter visitado as instalações do conhecido matutino portuense, sendo que, segundo ele, esta inspecção da ACT ter resultado em nada.

A questão do papel da ACT parece ser, muitas vezes, subvalorizada, quando, na verdade, deveria merecer especial atenção por parte do poder político.

Não vou estar aqui a discorrer sobre as justiças ou injustiças do Código do Trabalho de Bagão Félix e respectivas alterações promovidas pelo actual Governo. O que é certo é que existe um código legislativo a regular os direitos e deveres de empregados e empregadores, cujas normas são sistematicamente violadas um pouco por toda a parte. Não é segredo para ninguém que, em todo o país, há despedimentos ilegais, feitos à margem de toda e qualquer legislação, seja ela mais ou menos justa, e que a Justiça pouco ou nada tem conseguido fazer para que a legalidade seja reposta. O caso d’ O Primeiro de Janeiro é apenas um entre muitos e citei-o duas vezes por ter sido uma história que mereceu especial destaque na comunicação social.

O que é certo é que a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica faz o que bem entende e fiscaliza quando e onde quer. Se a ASAE entender que um dado café não tem condições para funcionar, pode encerrar o dito estabelecimento comercial e aplicar uma valente multa aos proprietários, sejam eles quem forem.

Contudo, quando olhamos para outra autoridade, a ACT, verificamos que as coisas se passam de maneira substancialmente diferente. A ACT fiscaliza, mas as consequências dos seus actos são bem menos evidentes, oferecendo a uma certa fatia do patronato uma sensação de total impunidade. Recentemente, o ministro Vieira da Silva anunciou a admissão de mais uma leva de inspectores estagiários para reforçar os quadros da autoridade, mas, apesar de louvável, esta medida, por si só, não chega. A ACT necessita de mais poderes e, sobretudo, de se assumir como a entidade que, em nome do Estado, defende os direitos e garantias dos trabalhadores, tal como vem consagrado do Código do Trabalho. As empresas que, de má fé, prejudicam os seus trabalhadores, devem ser exemplarmente punidas.

Claro que há quem diga que, se a ACT funcionasse como a ASAE, muitas empresas teria de fechar as portas. Tudo bem, admito que seja verdade, mas a ASAE já fechou as portas a muitos estabelecimentos que davam emprego a muita gente e ninguém falou disso.

Não estou a dizer que a ACT seja uma espécie de grupo de fanáticos religiosos com o Código do Trabalho nas mãos em vez da Bíblia. A função da ACT deve ser também ela pedagógica, mas os abusos terão obrigatoriamente de ser castigados. Para muitos empregadores, é mais rentável pagar a multa (que pode ser sempre contestada nos tribunais e ter o seu pagamento adiado para o dia de São Nunca) e continuar a manter trabalhadores em condições verdadeiramente deploráveis.

Sem invalidar tudo que acima referi, nada justifica que se fuja de uma inspecção da ACT (seja onde for), nem que seja pela mensagem que se está a passar a patrões incumpridores. Quem foge da ACT, diz ao Mundo que aceita trabalhar em condições ilegais e deploráveis e é esse o alerta que pretendo fazer.

Quem abdica dos seus direitos enquanto trabalhador, abdica também dos seus direitos enquanto cidadão e isso é uma matéria que já entra no campo dos direitos humanos, uma vez que há relações laborais que mais não são do que relações entre proprietário e escravo.

ESPADAS QUE PICAM (13): Infelizmente, o tempo deu-me razão

No dia 18 de Maio, publiquei um post onde alertava para uma prática, comum em muitas empresas, de pôr os trabalhadores a fugir pela porta das traseiras sempre que a ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho) aparecia para fazer uma inspecção. Na época, alertei com base na minha própria experiência: “Quem foge da ACT, foge do cumprimento da lei, mas, sobretudo, dos seus próprios direitos”.

Nesse mesmo post, relatei uma história (que até conheço melhor do que dei a entender na época): “No centenário O Primeiro de Janeiro, ilustre matutino portuense, a prática de fugir à ACT era mais do que comum, o que dava à entidade empregadora, a Sédico, o direito de cometer todas as arbitrariedades possíveis e imaginárias (muitas delas foram já tornadas públicas). Um dia, quando a carteira minguou, o patrão da Sédico e d’ O Primeiro de Janeiro, Eduardo de Oliveira Costa, montou uma estratégia de despedimento colectivo e completamente ilegal de 34 trabalhadores do célebre matutino, alegando que ia suspender a publicação do jornal por um mês… o que, como se sabe, não veio a acontecer. De um momento para o outro, 34 pessoas ficaram sem emprego, com salários em atraso, sem indemnizações, sem subsídios de férias e de Natal… basicamente, ficaram sem nada. Quando recorreram à justiça, a insolvência da Sédico acabou por ser decretada judicialmente, mas a empresa anteriormente detentora d’ O Primeiro de Janeiro não tinha quaisquer bens - nem sequer o próprio título, que havia sido previamente «trespassado» para outra empresa do grupo A Folha Cultural”.

O episódio do despedimento colectivo, feito à margem de todas as leis, de 34 jornalistas d’ O Primeiro de Janeiro teve lugar a 31 de Julho de 2008.

Ontem, dia 8 de Julho de 2009, um comunicado do Sindicato dos Jornalistas dava conta da situação dos que ficaram a fazer o ilustre matutino portuense (uma redacção que mescla elementos do suplemento O Norte Desportivo, no Porto, com a redacção do Notícias da Manhã, em Lisboa). De acordo com o SJ, no Janeiro, os cinco jornalistas que lá trabalham têm já três meses de salários em atraso; ao que pude apurar por conta própria, neste último ano, vários foram já os que bateram com a porta, mas os que ficam, fazem-no porque, no Porto, é cada vez mais difícil exercer a profissão de jornalista e ali, ao menos, ainda podem fazê-lo, embora em condições desumanas.

O mesmo comunicado do Sindicato dos Jornalistas alerta para a situação no Motor, semanário onde há gente com oito meses de salários em atraso. O SJ não especifica se são colaboradores externos ou membros efectivos da redacção, mas confesso que me custa a acreditar nestes oito meses (as minhas fontes não me mencionaram o caso deste jornal, do qual, em tempos idos, fui grande fã). Contudo, não me espantava nada se fosse verdade.

Isto é o que se passa na redacção do Porto, mas o Sindicato dos Jornalistas nada diz sobre dois outros títulos do grupo A Folha Cultural onde a situação não é exactamente melhor. No Fundão, no Diário XXI, trabalha-se igualmente com três meses de salários em atraso e o senhorio que arrendou as instalações onde funciona o jornal há muito tempo que não mete as mãos nos cheques correspondentes às rendas devidas. Em Lisboa, no Notícias da Manhã (onde funciona parte da redacção d’ O Primeiro de Janeiro), as duas jornalistas sobreviventes (sim, duas) não recebem há quatro meses, ao passo que o senhorio também está há quatro meses sem ver o dinheiro referente ao arrendamento; para cúmulo do ridículo, nesta redacção, a casa-de-banho foi desactivada por falta de pagamento à EPUL (sim, é isso mesmo, a água foi cortada).

Ao tomar conhecimento dos dois primeiros casos, o Sindicato dos Jornalistas lançou um apelo à ACT no sentido de intervir imediatamente. Ou seja, os que antes fugiram da ACT, agora correm para ela.

Por isso, finalizo este post repetindo a frase que rematava o post de 18 de Maio: “Não fujam da ACT, ela é vossa amiga”.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O EDITOR VAI A JOGO (10): 100

Eis-nos chegados ao centésimo post do ONZE DE ESPADAS, a obscura sala de jogo onde uma enigmática criatura, que diz ser um tal Dr. Mento, deixa fluir para a pena estranhos pensamentos que lhe atormentam a alma. Já antes o fazia, mas os jornais em papel, com as suas limitações de espaço, caracteres e outras, não eram o local ideal para que a liberdade se expressasse da forma adequada.

Confesso-vos que o rumo que este blog tomou não era aquele que, inicialmente, havia planeado. De certa forma, imaginei que este espaço seria somente um local de sátira, de escárnio e maldizer, onde, pela via do humor, tentava colocar sal em algumas feridas da sociedade e da vida política portuguesa. Isto sucedeu na época em que os meus posts eram publicados em simultâneo com a minha actividade como jornalista, a qual, como decerto já se aperceberam, acabei por cessar há algum tempo (de forma voluntária). Quando deixei de ter um espaço físico, em papel, para tentar desmontar e analisar certos episódios do dia-a-dia de um país, senti, de certa forma, um vazio, que acabou por ser preenchido aqui, no ONZE DE ESPADAS. É por isso que, actualmente, os textos de humor são bem menos do que as análises mais a sério, sendo estas últimas uma sequência lógica daquilo que eu já escrevia numa certa coluna, numa certa publicação.

No passado, já tive alguns blogs, mas nenhum me deu tanto prazer, nem exigiu tanto de mim como o ONZE DE ESPADAS. Contrariamente a blogues que analisam o dia-a-dia quase ao minuto (e muitos deles estão entre os que mais visito e admiro), esta casa de jogo pretende análises mais profundas sobre cada momento, o que justifica que os textos sejam publicados com uma ligeira distância em relação aos acontecimentos: É esse tempo que me permite reflectir sobre um dado assunto e captar aqueles detalhes e aquelas perspectivas que uma análise mais a quente não é capaz de apanhar. No fundo, o ONZE DE ESPADAS pretende ser um espaço de reflexão, porque me obriga a pensar e porque quer deixar quem o lê a pensar (nem que seja pela via do humor).

Neste momento, nem sei ainda ao certo quais as minhas expectativas em relação a esta casa de jogo, que optei por manter de portas abertas mesmo após uma violenta crise de inspiração (é a minha faceta de escritor a revelar-se) que me fez questionar tudo. Não sei o que será o futuro e mal sei como tem sido o passado. Mas sei que estou a gostar disto, justo eu, que rapidamente me desapego em relação a quase tudo (menos àqueles que, de facto, estão sempre comigo em pensamento).

Ao longo de uma centena de posts, notei que houve gente que gostou, de facto, daquilo que eu ia escrevendo. E é isso que me dá um ânimo extra para continuar. Embora, de certa forma, esteja um pouco a escrever para mim mesmo e para não perder a mão, também não é menos verdade que o faço para outras pessoas, mesmo que, muitas vezes, não saiba quem elas são, do mesmo modo que quase ninguém sabe quem é, na verdade, o misterioso Dr. Mento (no máximo, uma ou duas pessoas).

Bem, findo este momento de divagação, resta-me agradecer a todos pelo apoio que me têm dado desde Abril, pelos muitos conselhos e até pelos reparos e críticas construtivas, sem esquecer os elogios, que sabem sempre bem (o meu ego é pequeno, anda um pouco ferido, mas ainda vai existindo).

A todos, beijos e abraços, consoante a preferência.

(E agora, vamos aos posts que interessam)

ROYAL STRAIGHT FLUSH (4): Ouvir apenas faixas de trabalho, seguir apenas a playlist e criar acefalia musical

Um familiar meu, perdido algures no final da adolescência, espanta-se sobejamente com o facto de eu ainda adquirir CD’s e, imagine-se, possuir álbuns inteiros. Para ele, que passa dias inteiros agarrado ao seu mp3, a música resume-se a um amontoado de músicas isoladas (as que passam nas rádios e na MTV a toda a hora e a todo o momento), que, obviamente, não podem ser compradas - para alguma coisa existe o e-mule (que também serve para encher os computadores de vírus).

Preocupa-me este sentimento das gerações mais novas em relação à música. Em primeiro lugar, a ideia de que o fruto do trabalho dos artistas (e, em muitos casos, o seu ganha-pão) não deve ser comprado, devendo, isso sim, estar disponível de forma totalmente gratuita. Logo aí temos o sinal de uma adolescência marcada por doses cavalares de facilitismo: Tudo é fácil, tudo se arranja, tudo é grátis, nada dá trabalho.

Em segundo lugar, a ideia de que só existem os artistas e bandas que as rádios e os canais de música divulgam. Felizmente, ainda há muita gente que se dá ao trabalho de seleccionar a música que irá ouvir, o que, muitas vezes, significa descobrir coisas verdadeiramente inacreditáveis. Por exemplo, Elend. Alguém conhece? Pois, não passa nas rádios, nem na MTV ou na VH1. Mas existe. E é projecto soberanamente bom (ouçam apenas se estiverem num estado de espírito melancólico). Mas Elend é apenas um exemplo entre milhões e, para muitos, até pode ser um mau exemplo (há quem ame e há quem abomine este projecto franco-austríaco).

Em terceiro lugar, a ideia de que apenas existem músicas e não álbuns. Por vezes, o primeiro single escolhido para apresentar um álbum é aquela faixa certeira, mas, em muitos casos, pode dar-nos uma ideia errada de todo um trabalho. Há singles que são melhores do que todo um álbum, ao passo que outros são apenas a faixa de trabalho escolhida e a menos interessante de todo um registo.

Em quarto lugar, o mais importante: Se deixarmos que sejam as rádios ou a MTV a escolher a música que vamos ouvir, arriscamo-nos a cair numa ditadura mental sem nos apercebermos. Basicamente, as editoras trabalham um determinado produto, «obrigam» as rádios a divulgá-lo e os ouvintes, carneirada acéfala sem vontade, deixam que os seus ouvidos se transformem em penicos onde toda a merda pode ser depositada. Se deixamos que tal suceda, deixamos de ter vontade… e tornamo-nos acéfalos musicais. Depois de deixamos de ter vontade própria em relação ao que ouvimos, podemos perfeitamente de deixar de ter vontade própria em relação a tudo o mais. É só o primeiro passo.

A música é uma das melhores formas de libertação que existem e um dos muitos caminhos para o conhecimento (foi graças a Herr Spiegelman, dos Moonspell, que senti vontade de ler «O Perfume», cujo capítulo 49 é parcialmente citado a meio da música). A música pode ser igualmente um reflexo dos nossos estados de espírito e isso é algo que ninguém pode escolher por nós, porque nós é que sabemos como nos sentimos naquele momento, naquela hora, naquele instante, naquela semana.

A MANILHA VAI SECA (49): Sou advogado do Diabo e vou defender o lado bom de Maria de Lurdes Rodrigues

CALMA!

Já leram o título, não leram? Pois bem, deixem-me, desde já, salientar uma coisa: Para mim, Maria de Lurdes Rodrigues foi uma das piores coisas que já passou pelo Ministério da Educação.

Não que critique o uso do Magalhães, que pode ser uma interessante arma para combater o analfabetismo informático, embora isso seja algo que só se vai perceber daqui a muitos anos. Não que critique o programa de renovação de escolas, já que muitos estabelecimentos de ensino (e podemos começar pela Secundária Filipa de Lencastre, cuja biblioteca tresanda a mofo) necessitam mesmo de obras. Não que critique e existência, por si só, de um modelo de avaliação de professores, desde que a mesma seja feita com pés e cabeça. Não que critique o combate a certos corporativismos sindicais, personificados num tal Mário Nogueira, que, para além de necessitar urgentemente de cortar aquele bigode, precisava de dar umas quantas aulas antes de ter legitimidade para vir defender os que, de facto, fazem do ensino a sua actividade profissional.

Em teoria, o Ministério da Educação até tinha boas intenções. Só que, de boas intenções, está o Inferno cheio e a forma como a tutela acabou por gerir certos dossiers, acabou por transformar tudo numa gigantesca trapalhada, que só serviu para arrasar completamente com o ensino público português. Se algum ultra neoliberal vier a terreiro defender a privatização completa do ensino público, decerto encontrará e Maria de Lurdes Rodrigues a sua musa inspiradora, já que ela transformou a escola oficial num local a evitar por quem tiver capacidades (financeiras, obviamente) para tal.

Mas, em tudo, há sempre um lado bom. Até mesmo em Maria de Lurdes Rodrigues.

Há coisa de uma década (ou década e meia, vá lá), era comum dizer-se: “Se não arranjares o que fazer, vais dar aulas. Se quiseres ganhar mais algum, vais dar umas aulas”. Ou seja, qualquer gato-pingado que quisesse fazer mais uns trocos ou não tivesse competência para coisa alguma, poderia aventurar-se no ensino, mesmo que a sua vocação fosse zero ou menos do que isso. Esta mentalidade fez com que o ensino público ficasse cheio de pessoas, que, apesar de terem nas mãos o amanhã dos nossos filhos, se estavam pura e simplesmente a cagar para eles.

Agora, nada disso acontece.

Neste momento, para se ser professor, há que ter a consciência de que o ensino público é um meio inacreditavelmente agreste e difícil - e o último local onde os pára-quedistas de ocasião vão querer estar. Tudo isto pode conduzir a que, dentro de algum tempo, só vá para o ensino quem realmente GOSTA de ensinar e têm vocação para tal. No fundo, só vai entrar na maratona quem quiser correr por gosto, que são sempre os que não se cansam. A médio prazo, a escola pública portuguesa até pode beneficiar alguma coisa com esta curiosa purga involuntária, ainda que os jovens que atravessaram estes anos de convulsão do consulado de Maria de Lurdes Rodrigues tenham de ser os mártires de todo este processo.

Ainda assim, dá para encontrar alguma coisa de bom nos anos de Maria de Lurdes Rodrigues. Mas, se não se importam, preferia um (ou uma) titular da pasta da Educação ao qual não fosse tão difícil apontar qualidades e que a melhor delas seja justamente uma purga. Não é por nada…

terça-feira, 7 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (48): Sim e assim-assim

Não é meu costume falar da imprensa portuguesa, mas, hoje, abro uma pequena excepção. Muito se disse a falou sobre o lançamento do i, com muita gente a tecer duras críticas ao jornal do Grupo Lena. Bem, pode ser que algumas críticas sejam perfeitamente válidas, mas uma coisa é certa: O raio do jornal tem-nos brindado com uma série de boas entrevistas a inúmeras personalidades.

Da entrevista a Maria Filomena Mónica, há um par de frases que merecem uma nota.

“Prefiro o António Costa ao Santana Lopes, embora o Santana Lopes me divirta muito mais. Mas ele só me diverte quando está fora do poder, no poder é um irresponsável”. Sintético e certeiro. Pena é que António Costa não consiga fazer valer outros argumentos para além do facto de, para muitos, ser melhor e mais responsável do que Santana. Lisboa merecia mais.

Já sobre José Sócrates, Maria Filomena Mónica diz: “É um rapaz da província que subiu na vida à custa da esperteza e de muito pouco trabalho”. Concordo com a primeira parte, mas não com a segunda. José Sócrates é conhecido como sendo um homem muito trabalhador (já o era como ministro do Ambiente) e o esmero com que prepara as suas idas à Assembleia da República mostra bem que faz os trabalhos de casa melhor do que ninguém. Marques Mendes, que demorou muito a aperceber-se desta faceta de Sócrates, levava cada baile no Parlamento que até metia dó. Os episódios que podem levar-nos a pensar que Sócrates não seja um homem trabalhador (como o dos projectos na Guarda ou o da licenciatura) são como as noitadas de Cristiano Ronaldo, que escondem o facto de o CR9 ser o senhor que, por norma, mais dá de si nos treinos. Pena é que Sócrates não seja tão bom primeiro-ministro como CR9 é jogador...

JOKER (7): Agarrem-me, que eu vou para o Brasil!!!

Pois é, meus caros amigos, o vosso Dr. Mento vai deixar-vos. Na verdade, não sois vós quem eu abandono, mas sim esta pátria ingrata e cruel, onde a insana voracidade de uns abandona os demais, seus iguais à nascença, à mais triste e desditosa das sortes. Amargo, sim, quiçá inclemente e irredutível, mas eis chegada a hora de partir, dizer adeus, contemplar as gentes que acenam e não mais voltar a olhar para trás.

Nesta altura da minha vida, é chegada a hora de uma decisão. A minha está tomada: tal como os meus antepassados de quinhentos, parto numa nau de madeira e velas de pano em busca da minha terra prometida, onde erguerei a Veraz Cruz dos meus sonhos. Portugal, mesquinha piolheira, será passado. Brasil, terra de esperanças mil, será futuro enquanto não passar a presente.

Por cá, viu vilipendiado, ignorado, desprezado, hostilizado. Lá, no país dos sonhos em tens de verde e amarelo, sei que os meus mil talentos e saberes serão merecedores de mil elogios, mil reconhecimentos, mil aplausos. São gentes civilizadas, aquelas, sedentas de novos génios incompreendidos aos quais saberão dar o devido reconhecimento. Bem sei que todos os génios são incompreendidos. E a mim ninguém me compreende.

NÃO, NÃO E NÃO!

Escusam de se prostrar num gesto clemente, deitando por terra vossos joelhos. A decisão está tomada e mais do que tomada. O primeiro avião que me deixar em Jundiaí será o meu passaporte para a liberdade, para a felicidade. Em Jundiaí, erguerei o meu castelo, não de sonhos por cumprir, mas de pedras nascidas do suor dos meus talentos.

NÃO! JÁ DISSE! ESCUSAM DE IMPLORAR!

Vou para o Brasil para ser feliz, voltando costas a um país abjecto que me voltou as costas.

NÃO RECONSIDERO COISA NENHUMA!

Eu vou. Já estou a fazer as malas. Em breve, não mais português serei quando a minha nacionalidade brasileira mostrar ao Mundo as feridas que a lusa pátria abriu no meu coração. A mim e a tantos outros, meus pares na desgraça infinda. Maria João Pires já foi, Miguel Sousa Tavares já vai e o Padre Frederico já lá está. Todos, à sua maneira, gentes de talento, gentes escorraçadas por um país avaro para os seus talentos. Ó, inglória pátria, que nem um mísero subsídio me dais para pôr em marcha os meus mil projectos e sonhos.

NÃO! EU…

O quê? Uma contra-proposta? Como assim?

Ah!, pois.

Mas… num banco? Ainda por cima na Caixa Geral de Depósitos? Têm mesmo a certeza? Eu nem percebo grande coisa de bancos, finanças, economia, gestão…

Pois. Sim, compreendo. É para ser administrador não executivo. Estou a perceber. Vou lá uma vez por semana, pico o ponto, recebo o meu e tenho carro com motorista pago pela Caixa. O que fizer com os meus dias é da minha inteira responsabilidade, que a Caixa nada tem a ver com isso. Pois, faz sentido, se não percebo nada de bancos, não vale a pena ir lá muitas vezes e nem sequer iria fazer muito sentido ir às reuniões para fazer figura de corpo presente. Para isso, fico esquecido na cama, no vale dos meus lençóis.

Sim, nesses termos vale a pena. Se bem que se me dessem um subsidiozinho…

Ah!, tenho que almoçar com o ministro. Não faz mal. Mas a conta do almoço é paga pela Caixa, que eu não sou rico para andar a desbaratar dinheiro com poucas-vergonhas.

Bem, pois é…

O tempo… está calor, não está?

Pois, pois, pois…

Enfim…

Ai, ai...

Sendo assim...

PUTA QUE PARIU O BRASIL!

(Sem ofensa!)

A MANILHA VAI SECA (47): Costa joga um trunfo

Não digo que António Costa seja a melhor coisa que já aconteceu a Lisboa. Também não sou da opinião que o seu mandato (ou melhor, meio mandato) tenha estado isento de erros ou de projectos equivocados. Mas há que fazer justiça ao senhor quando ele merece.

António Costa sabe perfeitamente que, no dia 11 de Outubro, estará em jogo muito mais do que o seu futuro na Câmara de Lisboa. Se, dias antes, José Sócrates perder as Eleições Legislativas, Costa afigura-se como uma boa alternativa para lhe suceder no lugar de secretário-geral do PS. Só que, para poder sonhar com o lugar de líder do PS (seja em Outubro ou daqui a algum tempo), Costa não pode, de forma alguma, perder a Câmara de Lisboa para Santana Lopes.

Por outras palavras: António Costa joga, no início do Outono, todo o seu futuro político.

Como as sondagens indicam que a competição entre Costa e Santana vai ser muito, muito renhida, o ex-ministro da Justiça e da Administração Interna começa já a jogar alguns trunfos para aniquilar o seu adversário, a quem, de resto, são apontadas inúmeras fragilidades fáceis de apontar. Por exemplo, não é segredo para quem quer que seja que, do ponto de vista financeiro, a presidência de Santana (repartida com Carmona Rodrigues ao sabor do vai-e-vem de gente do Governo) foi um completo descalabro. E António Costa já tratou de, subtilmente, explorar este aspecto.

Como efeito, a Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL) veio a público anunciar o início da reabilitação do edifício da sua antiga sede, na Quinta dos Lilases, para onde deverá regressar até ao final do ano, poupando assim 800 mil euros anuais em rendas. Recorde-se que, em 2003 (durante a liderança de Santana), a EPUL foi transferida provisoriamente para umas instalações no edifício Alvalade XXI, sendo que só a mudança de instalações custou a módica quantia de três milhões de euros.

Este pequeno detalhe vai ser um indicador de como será a campanha em Lisboa, com António Costa a insistir na tecla do despesismo exorbitante da gestão de Santana. Aliás, logo desde a altura em que tomou posse, António Costa sempre fez da redução do despesismo da edilidade alfacinha uma das suas bandeiras, pelo que não será de surpreender que surja, num qualquer debate com Santana, com umas folhinhas cheias de números para atirar à cara do seu adversário; se Santana for apanhado desprevenido e não tiver cartas para rebater os frios números de Costa, a eleição estará perdida para o menino-guerreiro, independentemente de as Legislativas poderem transportar o PSD para um novo estado de graça.

Decididamente, a política é um jogo muito, muito previsível.

ESPADAS QUE PICAM (12): O povo não tem pão? Que comam com o circo!

Numa primeira apreciação, ver 85 mil pessoas num estádio (com bilhetes pagos) para verem a apresentação de um único jogador de futebol parece-me um exercício de puro non-sense.

Mas, bem vistas as coisas, faz todo o sentido.

Toda a paranóia em torno da ida de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid parece um momento de histeria colectiva, mas a realidade está bem distante dos números da transferência (94 milhões, uma bagatela face àquilo que o Real vai lucrar com a brincadeira), do ordenado e outras remunerações de CR9… ou até do seu valor como jogador (que não está minimamente e causa).

Na verdade, tudo não passa de um momento de circo quando o povo não tem pão. Portugal e Espanha param para ver a chegada do homem das fintas e das mudanças de velocidade estonteantes numa altura em que a crise económica castiga estes dois países de forma impiedosa. Na Península Ibérica, o desemprego atinge valores tenebrosos e o desespero chega a demasiados lares. Como nenhum dos executivos socialistas da Península Ibérica arranja soluções milagrosas para a crise (e, sobretudo, para o desemprego), milhares de pessoas (merengues ou não) aplaudem a chegada ao Santiago Bernabéu do homem que melhor tem sabido ignorar a crise: Ele ganha o quer bem quer e lhe apetece e até se dá ao luxo de escolher para quem deseja trabalhar, numa altura em que milhares de ibéricos andam de mão estendida em busca de um emprego qualquer.

Cristiano Ronaldo, mais do que um extremo velocíssimo (ok, também pode jogar como ponta-de-lança), é o sonho personificado de toda uma Península Ibérica. É o herói de um espectáculo de circo, onde o povo que assiste, por momentos, se esquece do pão que não lhes deram e que muita falta lhes faz. De rosto bovino e de olhos pregados à televisão (ou ao relvado do Bernabéu), a crise parece nem existir.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (46): Mó de cima, mó de baixo

Até 7 de Junho:

- JOSÉ SÓCRATES: Vai vencer as Europeias, as Autárquicas e as Legislativas, embora não seja certo que consiga a maioria absoluta nestas últimas. É o líder que agrega a esmagadora maioria das tendências dentro do PS (com excepção do grupo de Manuel Alegre) e o secretário-geral incontestado. Mistura dinamismo com algumas medidas acertas e sabe embrulhá-las na forma de propaganda. Teve a coragem de implementar certas reformas essenciais e de lutar contra muitos interesses corporativos instalados na sociedade portuguesa. Mau grado alguns defeitos e muitas dúvidas em torno de certos dossiers polémicos (como o Freeport ou a Independente), em Portugal, não se vislumbra outro líder político com capacidade para batê-lo.

- MANUELA FERREIRA LEITE: Mais um erro de casting do PSD, que deve ser corrigido antes da sequência tripla de eleições. Se continuar à frente do partido, vai perder as Europeias, as Autárquicas e as Legislativas (apesar de poder ficar com a vitória moral de, eventualmente, conseguir evitar a maioria absoluta do PS e de José Sócrates). Não sabe falar, não se sabe vestir, não tem imagem, não tem empatia com o público, não demonstra simpatia, não é capaz de agregar as várias tendências dentro do PSD. É feia que nem a noite das tempestades. É um desastre a escolher candidatos, especialmente quando aposta em Santana Lopes para Lisboa e Paulo Rangel para Estrasburgo. Fez declarações homofóbicas, racistas e anti-democráticas que só prejudicaram o PSD. Mais dia, menos dia, é destronada por Pedro Passos Coelho.

Depois de 7 de Junho:


- JOSÉ SÓCRATES: Simulou a postura arrogante com uma falsa humildade, que lhe vai custar uma derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Saiu-se com o discurso das “campanhas negras”, que lhe vai custar uma derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Lidera um partido e um Governo sem rumo, num sinal claro de que vai perder as Legislativas e, provavelmente, as Autárquicas. O episódio dos cornos do Manuel Pinho pode custar-lhe as Legislativas e, provavelmente, as Autárquicas. O caso da venda da TVI à PT foi desmascarado e, apesar da inflexão, deve custar-lhe a vitória nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. As dúvidas sobre o seu envolvimento no Caso Freeport devem custar-lhe a vitória nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Combateu cegamente várias classes profissionais e não soube distinguir entre interesses corporativos e descontentamento generalizado de amplos sectores da população, o que anuncia uma derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Os portugueses já não engolem ilusionismos propagandistas e isso vai ditar a sua derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Suspendeu os projectos da linha ferroviária de alta velocidade e do novo aeroporto de Lisboa, os quais, pelo despesismo que representam, podem ditar a derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. António Costa deve suceder-lhe depois da derrota confirmada nas Europeias e quase certa nas Legislativas… e, provavelmente, nas Autárquicas. Foi o pior primeiro-ministro de que há memória.

- MANUELA FERREIRA LEITE: Ganhou as Europeias com tenacidade e teve o bom-senso de escolher Paulo Rangel para cabeça-de-lista das Europeias. Com Santana Lopes, vai ganhar a Câmara de Lisboa a António Costa. Tem uma imagem de seriedade, compostura e de dizer a verdade, não iludindo os portugueses com falsas esperanças e expectativas. Não faz promessas que não pode cumprir. Ú um triunfo da seriedade, do rigor e da competência sobre a manipulação, o espectáculo e a propaganda. Não está envolvida em escândalos que desprestigiam os cargos que ocupa, a vida política portuguesa e a imagem do país lá fora. Não vai apostar em megalomanias e vai reforçar os apoios às PME’s, que compõem a esmagadora maioria do tecido empresarial português. Será a primeira mulher a ser eleita primeira-ministra em Portugal, já que Maria de Lurdes Pintassilgo liderou um Governo de iniciativa presidencial e, como tal, não foi a votos. É a salvadora da pátria. Vai varrer Pedro Passos Coelho e outros parasitas do PSD. Venceu as Europeias, vai vencer as Legislativas e, provavelmente, as Autárquicas.

(…)

Isto é só um exercício para demonstrar como muitas opiniões mudam ao sabor de ventos e marés. Para quem está na mó de baixo, é difícil sair de lá e Sócrates vai sabê-lo melhor do que ninguém até Setembro (Manuela Ferreira Leite já conhece o segredo).

O que eu queria salientar com este post é que as opiniões variam muito ao sabor do vento. Manuela Ferreira Leite já foi uma besta, mas agora é bestial. Sócrates tem feito o trajecto oposto. Mas o que é verdade é que Manuela Ferreira Leite continua a ter os mesmos defeitos que tinha antes de 7 de Junho e que, na época, eram criticados por meio mundo, a começar pelo próprio PSD. Do mesmo modo, José Sócrates não perdeu as qualidades que tinha antes das Europeias e que, antes de 7 de Junho, até lhe mereciam bastantes elogios (e muitas críticas por parte de certos rivais invejosos).

Sócrates e Ferreira Leite são o que são. Têm virtudes e têm defeitos. São humanos e ponto final.

Depois de os ataques a Ferreira Leite terem estado na moda, é chegada a hora de dizer o pior possível do Governo e de José Sócrates. O leão está moribundo e todos lhe batem, mesmo aqueles que já comeram nas mãos da fera ferida e que agora rastejam diante da eventualidade de uma nova liderança.

Mas a verdade continua a existir para além das modas e dos resultados de umas eleições às quais nenhum dos dois concorreu. Por isso, digo-vos: Antes de entrarem em modas, analisem friamente um e outro. Analisem os programas de PS e PSD (e, já agora, dos demais partidos). Nenhum deles é uma besta, nenhum deles é bestial.

Eles são o que são.

CHARLIE E A FÁBRICA DE CARTAS (3): O risco


No mundo automóvel, há construtores elitistas e construtores elitistas. Há quem pense que, por conduzir um BMW, acede automaticamente à elite do universo das quatro rodas. Mas há quem tenha um conceito de elite ainda mais restrito e, para esses, há marcas deliciosamente elitistas, como, por exemplo, a Aston Martin. James Bond adora a Aston Martin, essa fábrica de sonhos elitistas, onde o desportivo jamais abdica de uma nota de sublime requinte.

Só que tudo isto é muito bonito… em teoria. Os tempos em que a Aston Martin se podia dar ao luxo de viver unicamente do luxo terminaram no dia em que a marca britânica passou das mãos da Ford (um dos três gigantes da indústria automóvel norte-americana) para a Prodrive de Mr. David Richards. Longe da almofada da Ford, a Aston Martin vê-se agora obrigada a dar lucro, sob pena de, mais ano, menos ano, fechar as portas.

Para poder chegar aos lucros, a elitista Aston Martin opta por uma jogada inacreditavelmente arriscada, mas que pode apontar um caminho para a indústria automóvel do futuro.

A certeza de que o petróleo não é eterno e o medo de uma nova escalada do preço do crude tem sido o maior aliado de um certo sentimento de preservação do planeta, que, cada vez mais, deixa de ser uma moda para passar a ser uma tendência. Um pouco por toda a parte, morre a ideia de que um carro grande e vistoso é o primeiro cartão de visita do nosso suposto status social. Actualmente, as grandes «banheiras» com motores de elevada capacidade e consumos astronómicos começam a ser vistas como um pecado politicamente incorrecto, numa época em que os carros citadinos ganham uma pujança jamais vista nas últimas décadas. Cito, como exemplo, a Fiat, que vai comercializar o novo 500 nos Estados Unidos, onde, curiosamente, este city-car parece ter bastante mercado, justo num país onde a tradição, até há bem pouco tempo, pedia automóveis enormes e gastadores.

É certo que alguns construtores mais elitistas, que tinham o seu core-bussiness nas viaturas acima do segmento D, há muito que pairam pelo universo dos carros citadinos. A Mercedes já tem o seu Smart ForTwo há mais de uma década, do mesmo modo que, há oito anos, a BMW decidiu dar uma nova vida ao Mini. Só que, em ambos os casos, nem a Mercedes, nem a BMW quiseram colocar os seus logótipos nos city-cars que produzem, mesmo que estejamos a falar de modelos destinados a franjas de mercado com algum poder de compra (especialmente no caso do Mini, que não é exactamente barato).

O caso da Aston Martin é, por isso, curioso de se analisar. A marca já mostrou imagens de uma variante de pré-produção do Cygnet, que mais não é do que um city-car com menos de três metros. Para terem bem uma ideia, este Cygnet vai conviver com uma gama de modelos, na qual o modelo mais «baratucho» custa, em Portugal, mais de 162 mil euros (falo do V8 Vantage 4.3), isto numa hipotética versão desprovida de equipamentos opcionais; no extremo oposto, temos o DBS, cujo preço se aproxima dos 320 mil euros (sem quaisquer opcionais).

Mas a loucura não se fica por aqui. Bem sei que não é inédito que a Aston Martin use plataformas de outros construtores. Sei que isso aconteceu com o DB7, que partilhava a mesma base do Jaguar XK. Só que a Jaguar (que, tal como a Aston Martin, integrava o Grupo Ford) é também ela uma marca elitista (embora menos do que a AM) e inglesa. O problema é que o futuro Aston Martin Cygnet vai usar a base do Toyota IQ - sim, de um modelo de grande produção de uma marca generalista… e japonesa. Para os puristas, isto vale um ataque do coração.

A Aston Martin entende que os seus clientes não mais podem conduzir, no dia-a-dia, bombas como o V8 Vantage, o DB9 ou o DBS. Por isso, numa jogada de alto risco, apresenta uma solução (em formato pequeno e ecológico) para quem quiser conduzir um Aston Martin, mesmo no meio do caos infernal das grandes metrópoles.

Não sei que carta é este Cygnet, mas admiro a Aston Martin pela coragem. Se a ideia pega, pode ser uma tendência para um futuro, onde os carros serão mais pequenos, mais ecológicos, menos gastadores e senhores de um aproveitamento absolutamente racional do espaço interior. No fundo, é o conceito “small is beautiful” levado ao extremo, reciclado e transformado em moda para as elites (sim, porque o Cygnet não vai ser nada barato).

domingo, 5 de julho de 2009

CARTAS MARCADAS (2): Pacheco Pereira

“Meu muito estimado e auto-elogiado Zé:

Espero, do fundo mais profundo do coração, que esta cartinha te encontre de boa saúde, apesar de achar que uma dieta não te faria mal algum. Se queres que te diga (e perdoa-me, desde já, a sinceridade), acho que a SIC te paga o suficiente para te inscreveres num ginásio, embora saiba que má cara farás a esta observação, porque um Zé como tu, mas com sobrenome de filósofo grego no lugar de um comum apelido de árvore, se lembrou de baixar o IVA das mensalidades dos ginásios de 21 para cinco por cento. Sim, eu sei que não gostas do homem, mas essa barriguinha… não sei não, parece que tens um Rei (de Paus) escondido lá dentro.

Mas não é sobre o teu abdómen que desejava trocar umas palavras contigo.

Sabes que, há coisa de dias, estive no teu blogue e li lá uma coisa que muito apreensivo me deixou: “os blogues são uma boa coisa, a blogosfera (política) está muito má. Má, intriguista, mesquinha, superficial, amiguista e revanchista, muito longe do país, que desconhece, muito longe da vida, que não vive”.

Ó pá, pareces-me o siracusano que diz que todos os siracusanos são mentirosos. Sendo ele siracusano e sendo todos os siracusanos mentirosos, tal significa que está a mentir e que todos os siracusanos são verdadeiros… embora o facto de ele ser siracusano e estar a mentir invalide que todos os siracusanos sejam verdadeiros.

Mas percebes onde quero chegar, certo? Tu tens um blogue político desde o ano da pedra lascada e vais a esse mesmo blogue político dizer que todos os blogues políticos são muito maus e cheios de vícios. Ora como tu tens um blogue político, isso significa que o Abrupto é muito mau e cheio de vícios, certo? Ou estarei enganado? Ah, para ti há uma excepção absolutamente excepcional que confirma a regra de forma excepcional. Muito bem, muito me contas tu…

Depois, dizes tu: “Duas notas: uma de fundo, outra de circunstância. A de fundo tem a ver com a ideia que a intervenção política implica uma capitis diminutio da opinião, e a sua redução a algo que torna ‘suspeita’ a intervenção no espaço público”.

Homem, não escrevas para o teu umbigo. Escreve para as pessoas, pá. Eu sei que és pessoa letrada e de boa escrita, mas frases como aquela que copiei do teu blogue não são sexo, são masturbação. Em bom português: Queres foder a torto e a direito, mas sai-te punheta. É o que acontece a quem não tenta cativar um parceiro ou parceira.

Não, não estou a ser malcriado. Isso é o Pinho, que faz cornos na Assembleia da República. Estou só a ser teu amigo e a avisar-te. E avisto-te já que uma dieta e umas horas de ginásio fariam maravilhas pela tua rubicunda silhueta.

Mas o que me preocupa mesmo é a tua mania de estares sempre a falar mal dos jornalistas e dos jornais portugueses. Volta e meia, até dizes que, se as pessoas soubessem como são feitos os jornais, não mais os comprariam. Bem sei que há muita merda nas redacções, mas tu, que diabo, tu escreves para o Público e para a Sábado. Se as pessoas não comprarem jornais, ninguém lê o que tu escreves, homem.

Além do mais, tens ganas de chamar merda aos jornais, mas não te dão os escrúpulos na hora de receberes umas moedas pelas tuas colunas, pois não? Homem, o que tu estás a fazer é algo como seres convidado para ir jantar a casa de um amigo, chegares lá e dizeres: “És um falhado, a tua mulher é uma puta, o teu filho é um maricas, os canapés sabem a esterco, os cortinados da sala deviam ser queimados e estás mais gordo. O que é o jantar?”

Ainda por cima, como se não bastasses o que mal dizes dos jornalistas em papel, ainda vais vociferar contra eles na SIC-Notícias e no Rádio Clube, onde, não sei se sabes, também há jornalistas. Pagam-te o jantar e ainda os insultas. Isso não é ter a espinha erecta, é ter falta de bom-senso. Pior: É seres Janus, comendo com uma boca e vociferando com outra.

Bem, a carta já vai longa e mais não me quero alongar. Por isso, deixo para outras núpcias a tua adoração nada escondida pela Forreta Leite, que defendes com um amor, um carinho, uma convicção, uma destreza, uma ferocidade que quase comovem as pedras da calçada. Ai homem, se não és tu que te perdes a ti mesmo, há de ser um rabo de saia. Ainda por cima, AQUELE rabo, que se esconde atrás DAQUELA saia. Mas pode ser que ela engrace contigo e que te arranje uma panelinha no Governo. Pois, pois, dizes que não, mas, se ela te acenar com o tacho, vais a correr como um cãozinho atrás da bola. Depois diz-me se não é verdade.

Não leves a mal os reparos que te faço. São de valor, porque são sinceros, escritos do fundo mais profundo da alma. E, das profundezas te digo: dieta e ginásio, saladas e suores.

Um abraço,

Do teu sempre amigo,

Dr. Mento

PS (sem D): Esqueci-me de te dizer, mas uma boa dieta e umas valentes horas de ginásio fariam milagres por ti. Vai na volta, até ficavas mais bem-disposto com a vida e paravas de andar sempre de caçadeira em punho a matar pardais, para depois os servires na ceia da dama com cara de bruxa.”

JOKER (6): Uma ideia genial para arranjar 55 milhões de euros num abrir e fechar de olhos

Morreu.

Esticou o pernil, foi desta para melhor, empacotou, bateu a bota, aviou as malas, quinou, deu-lhe o badagaio, foi para a terra da verdade, virou presunto, faleceu.

Há lágrimas, caixão, flores, roupas negras, cadáver, lápides, coveiros, hipocrisias, condolências, padre, missa e umas pazadas de terra. Só que, no caso daquele cota esquisito que fez parte dos Jackson 5 (como é mesmo o nome dele?), há mais uma coisa a acrescentar: 17.500 bilhetes gratuitos para assistir ao funeral do senhor. Como estamos a falar de uma cerimónia de respeito, os bilhetes não vão ser vendidos, mas sim sorteados Staples Center e no Teatro Nokia em Los Angeles. Quem não conseguir o bilhete mais desejado (nem que seja na candonga), sempre pode assistir, no dia 7, ao enterro pela televisão.

17.500 bilhetes de borla.

Hum…

Não sabiam cobrar 50 euros pelo raio dos bilhetes? Pensem bem: multiplicando 17.500 por 50 atingimos a bonita quantia de 875 mil euros. Se puserem mais umas bancadas, sobe-se o número de espectadores para 30 mil (a capacidade de muitos estádios de futebol), o que elevaria as receitas para um milhão e meio de euros. Se fizerem a porcaria do funeral num estádio bem grande arranja-se lugar para 60 mil pessoas e os lucros sobem logo para os três milhões de euros.

E as televisões? A família do defunto diz que as televisões que estiverem interessadas, podem difundir as imagens do funeral. E onde é que ficam os direitos de transmissão? Se for cobrado meio milhão de euros pelos direitos de transmissão, não vai ser difícil arranjar uma centena de cadeias de televisão a querer comprar as imagens, o que dá logo mais 50 milhões de euros no bolso. É claro que as televisões vão chiar e dizer que é caro, que é isto, que é aquilo, mas, no final, arranjam sempre patrocinadores que paguem a conta. “O funeral de Michael Jackson é oferecido por: BES, Sagres, EDP - Energias Renováveis, Modelo, Worten, Compal Clássico e Cuecas Baiona”. Soa bem, não soa?

E o caixão? Tanto espaço livre não pode levar com os autocolantes de um par de patrocinadores, como acontece na Fórmula 1? Será que a Red Bull não estará interessada em patrocinar a experiência mais radical que alguém pode ter na porra da vida? Vá, dois milhões de euros e não se fala mais no assunto, mas com direito a uns autocolantes grandinhos na carrinha funerária. Mas é o patrocinador quem paga a rave no final do enterro, para homenagear o que virou presunto.

Como vêem, mesmo em tempos de crise, é fácil fazer dinheiro. Num par de horas, arranjei-vos 55 milhões de euros. Onze milhões de contos em moeda antiga.

Crise? A crise é só para os otários.

NOTA ADICIONAL: Por cá, um tal Manuel Pinho meteu-se a fazer uma pega de caras na arena errada e acabou mortinho para a política. Quando é que fazemos um enterro político decente para a criaturinha? Vá lá, com jeitinho, o Berardo ainda se oferece para patrocinar a brincadeira e até se arranjam 230 palhacinhos de São Bento para animar a malta ou para mandar o morto para o… baralho.

CARTAS DO QUINTO NAIPE (3): O Bilhete de Identidade

(Já é nostalgia para alguns)

Morou nas nossas carteiras décadas a fio. Em muitas carteiras lusitanas, ainda o podemos encontrar. Mas não na minha. O meu já morreu, de morte morrida. Foi-se. Extinguiu-se, tornou-se obsoleto e levou alguns amigos consigo.

Para ter um, precisávamos de tirar umas quantas fotografias em papel, que, invariavelmente, deixavam os cavalheiros com ar de presidiários. Sim, eram precisas fotos em papel. E era necessário sujar o dedo com tinta.

Era grande demais para quem tem uma carteira pequena: 10,5 por 7,5 centímetros. O aspecto era mais do que antiquado, especialmente quando estava na companhia e outros colegas seus em formato de cartão de crédito. E era um desbocado, porque dizia mais do que devia - até o nosso estado civil era chamado para o assunto, como se o Mundo parasse para saber se somos casados, solteiros, divorciados ou viúvos.

Mas, com todos os muitos defeitos que tinha, foi uma presença constante nas nossas vidas. Era ele quem dizia ao Mundo: “Olhe, está a ver, aquele senhor ali é um cidadão português”. Depois dos 10 anos (ou seja, antes de entrarmos para o 5º ano/1º ano do Ciclo Preparatório) era quase tão obrigatório como a chegada da morte num qualquer ponto das nossas vidas. Por tudo e por nada, tínhamos de chamá-lo à baila.

O Bilhete de Identidade morreu. O meu, pelo menos, já está na cova, com sete palmos de terra e uma jarra com flores em cima. Nas sepulturas do lado, encontro os meus cartões da Segurança Social, de Contribuinte e de Eleitor (este último, com o mesmo formato horroroso do defunto que dá nome a estas linhas). Só lamento que a Carta de Condução não tenha ido junto, mas nem tudo é perfeito e a minha antiga carta, a cor-de-rosa, até era bem pior do que esta que tenho agora.

Tenho a carteira mais leve. Não tenho Bilhete de Identidade. Nem saudades dele. Tive muitos e nenhum me agradou. Eram grandes, feios e desajeitados.

Há dois anos, um tal José Sócrates anunciou que o BI ia morrer. Sem pesar, nem nostalgia, mostrou-nos o pequeno Cartão do Cidadão, todo catita e janota, que já não necessitava de fotografias em papel da Idade da Pedra ou dos jurássicos dedos molhados na tinta negra. Dois anos depois do anúncio, matei o meu BI. Não fui eu que o matei, foi o senhor da Loja do Cidadão, que furou o defunto e entregou-mo de volta para recordação.

O meu foi-se. Ainda bem. E o vosso?

sábado, 4 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (45): Cornos, bebés na incubadora, cubanos e a razão de ser de todos os que não querem escrever sobre a última ida à praia

Nos últimos dias, Manuel Pinho tem sido o assunto central da esmagadora maioria dos blogues que se dedicam a temas de índole política (com excepção de alguns, fundamentalmente ligados ao PS, que sentiram um enorme incómodo em falar sobre o episódio). Todos criticam Manuel Pinho (também o fiz), todos qualificam o gesto dos cornos como sendo inqualificável, todos dizem mal, todos esmagam o senhor.

Mas digam-se só uma coisa: Não são as figuras como Manuel Pinho a razão principal de ser de muitos blogues? Não são as figuras como Manuel Pinho que dão assunto a muitas e muitas colunas de opinião em jornais e revistas, sejam elas escritas por jornalistas ou não?

Isto para dizer que Manuel Pinho foi uma figura de renome na blogosfera. Foram mil as graçolas, gafes e atitudes irreflectidas, foram milhões os posts sobre o assunto. Mas nós, que escrevemos, necessitamos de temas que nos inspirem e Manuel Pinho era uma das nossas musas, uma das fontes de inspiração dos que gostam de criticar (e eu sou um deles).

Imaginem um país sem Manuel Pinho e os seus cornos. Imaginem um país sem Manuela Moura Guedes e a sua bocarra vociferando a justiça do quarto poder segundo uma interpretação demasiado particular da informação. Imaginem um país sem Marinho Pinto, de dedo em riste, vociferando contra Manuela Moura Guedes e a sua interpretação demasiado particular da informação. Imaginem um país sem Santana Lopes e as suas santanices (neologismo criado em homenagem aos disparates ditos e feitos pelo senhor). Imaginem um país sem os equívocos de Mário Lino. Imaginem um país sem as declarações homofóbicas, racistas e anti-democráticas de Manuela Ferreira Leite. Imaginem um país sem o «tou-me cagando» de Manuel Vilarinho. Imaginem um país sem as fanfarronices de Valentim Loureiro. Imaginem um país sem os discursos inacreditáveis de Alberto João Jardim em Chão de Lagoa, em Porto Santo ou noutro sítio qualquer onde Baco, as ponchas e as nikitas o inspirem. Imaginem um País sem as noções democráticas de Bernardino Soares. Imaginem um País sem José Eduardo Martins a chamar palhaço a José Sócrates ou a mandar Afonso Candal para o caralho.

Imaginem.

Imaginem que todos os políticos tinham um discurso polido, bem estudado, auto-elogioso e positivo como o de José Sócrates. Seriam um país bem chatinho, não seria?

Para o bem e para o mal, figuras como Manuel Pinho ajudam-nos a escrever algo sobre algo, dão motivo aos nossos talentos, dão-nos ânimo, dão-nos inspiração. Se não fosse esta gente, os nossos blogues seriam algo do género: “Hoje fui à praia e estava lá montes de gente. À noite, fui ao Lux com os amigos e amigas. Tenho uma vida muito feliz e contente”.

ARGH!

Pinho, WE FUCKING LOVE YOU!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (44): O Santana de Sócrates e a arte de deitar bombons para o lixo

Lembram-se do célebre dia em que Pedro Santana Lopes comparou o seu Governo a um bebé na incubadora, que, impiedosamente, levava murros e estalos dos irmãos mais velhos? Foi esta a infeliz metáfora (ou seria comparação?) que fez verter o copo da paciência de Jorge Sampaio, que, sem mais rodeios, dissolveu a Assembleia da República e convocou novas eleições. Se tivesse sido esse o único disparate de Santana, Sampaio ainda fechava os olhos e engolia em seco, mas o menino-guerreiro já tinha feito muitas diabruras e a paciência presidencial tem limites.

Já perceberam onde quero chegar, certo?

Manuel Pinho foi, na verdade, o Santana deste Governo, o homem que passou quatro anos e meio a fazer graçolas e a dizer as maiores alarvidades, sempre com Sócrates a engolir em seco e a fingir que nada se passava. Dizem as más-línguas que, quando Pinho tentou vender aos chineses a ideia de que Portugal era um país de mão-de-obra barata, Sócrates estaria capaz de lhe apertar o gasganete. É uma pena que não o tenha feito na altura, confesso. Mas está tudo bem, já passou.

Até ao dia.

Os cornos de Manuel Pinho para Bernardino Soares mais não foram do que a enésima falta de educação que os portugueses tiveram a oportunidade de presenciar naquela tabanca instalada no Palácio de São Bento. A diferença é que Pinho já não tinha margem de manobra para mais uma graçola destas, em especial depois da infelicíssima tirada da papa Maizena (que muito ajudou Paulo Rangel a tornar-se conhecido junto da população em geral, diga-se em abono da verdade). Ainda que as críticas de Bernardino Soares fossem profundamente injustas e Pinho tenha dado tudo por tudo para salvar as minas de Aljustrel, nada justificava o fatal gesto dos cornos no órgão máximo que simboliza a democracia portuguesa.

Não sei se foi Pinho a pedir a demissão ou se foi Sócrates que o pôs a andar, mas isso pouco ou nada interessa. Foi o fim da linha, o ponto final, a morte política do menino-guerreiro deste Governo.

Todo este episódio acabou por favorecer a oposição de uma forma que, decerto, ninguém poderia imaginar. Sendo o debate sobre o Estado da Nação o derradeiro embate de José Sócrates na Assembleia da República durante a actual legislatura, tudo teria de correr pelo melhor, de forma a passar a melhor imagem possível para o eleitorado descontente e/ou com dúvidas.

Como é seu apanágio, Sócrates preparou-se bem para o debate e levou na manga alguns trunfos para jogar. Para adoçar a boca dos portugueses e calar as bocas da oposição, o mestre da ilusão jogou um reforço de 115 milhões de euros da dotação para a construção de novos equipamentos sociais, a criação de uma linha de crédito de 50 milhões também para esta área e a promessa (mais uma) de que o programa nacional de requalificação e modernização dos centros de saúde e urgências hospitalares teria, este ano, uma comparticipação adicional de 20 milhões. Com os cornos de Manuel Pinho, os bombons foram todos para o lixo e quem se lixou foi o próprio Sócrates, já que as medidas/promessas que apresentou perderam toda a visibilidade em favor de um par de cornos.

Se eu fosse José Sócrates, dava uma carga de porrada a Manuel Pinho até o deixar estendido no chão. Vai na volta, Sócrates até conseguiria reconquistar uma boa fatia do eleitorado se optasse por partir para a ignorância, já que estaria a satisfazer a vontade de 10,7 milhões de pessoas (incluindo ele próprio).

quinta-feira, 2 de julho de 2009

ROYAL STRAIGHT FLUSH (3): E, ao oitavo dia, Deus inventou o YouTube

Primeiro, Deus fez a Terra. Depois, fez a espécie humana. Por fim, para que tudo fosse perfeito, inventou o YouTube.

(Estranha entrada para um ateu convicto)

Se há invenção que me fascina é o YouTube.

Já passou muito tempo desde os tristes dias de há duas décadas, quando tínhamos que esperar pelo telejornal das 20h00 para podermos saber as novidades do dia devidamente ilustradas com imagens. Muitas vezes, se não chegássemos a tempo de ver os telejornais da RTP 1 ou da RTP 2 (este último, passava bastante mais tarde), saberíamos as novidades do dia nos matutinos do dia seguinte.

Hoje, somos bombardeados de informação a toda a hora e todo o momento. A Internet teve um papel fundamental neste fluxo de informação, mas, nos tempos das ligações por telefone a 56k (ou ainda mais lentas), mais não tínhamos do que meros jornais digitais com um resumo de notícias (apenas em texto) da Lusa. Desde 2005, com a chegada do YouTube (que surge numa altura em que as ligações rápidas já eram uma realidade em muitos lares), o fluxo de imagens ganhou uma nova dinâmica: acontece uma polémica e, segundos depois, as imagens estão no YouTube.

Se Saddam Hussein tivesse sido executado nos anos 80, o máximo a que teríamos direito seria a umas fotografias, que estariam nos jornais, na melhor das hipóteses, no dia seguinte. Foi o que sucedeu quando Nicolae Ceauşescu foi executado no dia de Natal de 1989. Contudo, a morte de Saddam teve direito a outros requintes, já que uma qualquer alminha gravou as imagens da execução do ditador com um telemóvel e tratou logo de as colocar no YouTube. Na manhã do dia 30 de Dezembro de 2006, já meio Mundo havia visto Saddam a ser enforcado.

O fluxo de imagens no YouTube permite-nos ter acesso a uma tal quantidade de informação que, por vezes, o papel do jornalista se torna irrelevante. A peixeirada entre Marinho Pinto e Manuela Moura Guedes não necessitou de grandes palavras, porque toda a gente pode vê-la e revê-la as vezes que entendeu - mesmo quem não estava a ver a TVI às 20h00 daquela sexta-feira. O mesmo sucedeu agora, com os famosos cornos de Manuel Pinho. O mesmo sucedeu antes, com a guerra entre uma professora e uma aluna na Escola Secundária Carolina Michaëlis. O mesmo sucedeu …

… em dezenas de outros casos.

Hoje, tudo se sabe e tudo se vê, porque há uma coisa chamada YouTube. Hoje, já ninguém nos diz o que aconteceu - passam-nos o link para o vídeo, que já está no YouTube.

Deus inventou o YouTube, porque, como ser omnipresente e omnipotente, queria saber tudo. Mas lixou-se, porque deve ter havido um Prometeu qualquer que lhe gamou o segredo e o entregou aos homens, fazendo deles os novos deuses.

E em boa hora o fez.

A MANILHA VAI SECA (43): O Porto tal como Sintra

Há algum tempo, disse que a candidatura de Ana Gomes à Câmara de Sintra representava um PS a assumir: “Não vale a pena, esta não ganhamos”. Ana Gomes, que perdeu as eleições para a concelhia local, foi escolhida pela concelhia (dominada pelos seus antigos adversários) para enfrentar Fernando Seara - ou seja, escolhe-se uma derrotada (sem sentidos pejorativos para a senhora) para assumir nova derrota. Pelo meio, Ana Gomes foi eleita para o Parlamento Europeu e é por lá que deve ficar nos próximos cinco anos.

Na altura, não quis falar do Porto, porque não conheço tão bem os meandros da política local da Invicta, mas adivinhei logo que fosse uma situação parecida. Elisa Ferreira foi eleita eurodeputada e aceitou concorrer à Câmara do Porto porque o PS não queria queimar nomes fortes num concelho que, à partida, deve estar perdido. Aliás, há uma sondagem da Universidade Católica para o JN/DN/RTP e Antena 1 que frisa que Rui Rio tem 58 por cento das intenções de voto, contra 25 por cento de Elisa Ferreira.

Eu sei, as sondagens valem o que valem e começam a ser tão fiáveis como um qualquer professor Zandinga cá do bairro. Seja como for, uma sondagem, desde que não seja feita com o olho do cú (já vi algumas assim, mas não da Universidade Católica), indica sempre uma tendência. E, neste caso, a tendência é muito, muito clara. Mas nem precisava das sondagens para perceber isso - o próprio PS, ao lançar Elisa Ferreira, já tinha dito ao país e ao Mundo que a Câmara do Porto estava mais do que perdida, salvo alguma surpresa extraordinária de última hora.