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quinta-feira, 30 de julho de 2009

NÃO JOGAS COM O BARALHO TODO (1): A verdade sobre Sócrates

Com esta história de dar 200 euros por cada bebé, descobrimos todos que, afinal, José Sócrates não nos quer foder. Quer-nos a foder.

sábado, 25 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (63): Com uma quina de trunfo não ganhas o jogo

José Sócrates está a desiludir-me. O outrora animal político, ágil e habilidoso nas suas jogadas, vai tentar ganhar esta sueca com duques, ternos, quadras e quinas de trunfo. Ou seja, com palha. E mal jogada.

Durante a apresentação do programa eleitoral do PS, Sócrates anunciou que, caso seja reeleito, dará acesso à integração profissional a cerca de 25 mil jovens, que, pela sua carreira contributiva, não têm acesso ao subsídio de desemprego. Tudo bem, a medida é boa, mas… escassa, muito escassa.

Em Portugal, há cerca de um milhão de trabalhadores a recibos verdes (alguns, verdadeiros), pelo que o número de pessoas sem acesso ao subsídio de desemprego é incrivelmente superior a 25 mil almas. Por outro lado, a questão dos apoios apenas aos jovens dá que pensar, já que há gente com 40 e 50 anos sem acesso a uma prestação essencial para a sobrevivência digna de muitas pessoas e, por vezes, das respectivas famílias. Ainda por cima, já se sabe que quem tem mais de 35 anos, terá dificuldades muito superiores em encontrar um emprego (especialmente, um emprego daqueles que tem contrato de trabalho, descontos para a segurança social e todas as regalias oferecidas a quem não é tratado como escravo).

Trocando por miúdos, o nosso primeiro-ministro oferece umas missangas aos nativos de Portugal e espera que estes pobres indígenas lhe dêem o seu voto. Ainda por cima, ele não oferece, limita-se a prometer as tais missangas (apenas a alguns, pois claro) que esqueceu ali, no navio, mas que vai buscar já, já, já.

Hum…

Sabes, Zé, assim, não vais lá. E, se queres que te diga, ainda passas pela vergonha de veres o PS ultrapassado pelo BE ou pela CDU se continuas a tratar os portugueses como uns pobres selvagens mansos e pouco espertos. É que, não sei se sabes, a malta lá da esquerda não está a oferecer missangas nos seus programas eleitorais - eles estão mesmo a dar jóias aos portugueses, coisa que tu reservas só para os teus amigos da Mota-Engil e companhia. Só que o Jorge Coelho, meu amigo Zé, só vota uma vez.

domingo, 19 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (59): Querem continuar a ser pobres?

Um dos truques políticos mais curiosos é uma espécie de chantagem que certos políticos fazem com o eleitorado, sendo que, neste capítulo, José Sócrates é mestre na arte de ameaçar subtilmente o eleitorado.

Por isso, no encerramento do Fórum Novas Fronteiras 2009-2013, no Porto, o secretário-geral do PS anunciou que o programa eleitoral dos socialistas vai incluir um novo subsídio para as famílias, sendo que a nova prestação social (que, obviamente, já não é para esta legislatura) irá beneficiar os casais que trabalham e têm filhos, mas cujo rendimento per capita do agregado familiar é inferior ao limiar da pobreza.

No discurso em que fez este anúncio, Sócrates abordou inúmeras vezes as políticas sociais desenvolvidas por este Governo. De súbito, fez-me lembrar o seu antecessor (e colega de Governo), Eduardo Ferro Rodrigues, que, nas legislativas de 2002, não parava de enaltecer as medidas sociais do Executivo de António Guterres. Se Ferro falasse do novo aeroporto de Lisboa, chamar-lhe-ia “aeroporto social” - aliás, ele próprio liderou o Ministério do Equipamento Social, uma designação à socialista para a pasta das Obras Públicas. Claro que Sócrates não falou em “aeroporto social”, mas andou pela mesma linha, ao lembrar a criação do complemento social para idosos e do abono pré-natal e os aumentos do salário mínimo nacional, do abono de família e da acção social escolar.

Só que as palavras de Sócrates são como uma espécie de ameaça escondida ao eleitorado. Não vou discutir se estas medidas sociais são boas ou más, até porque iniciativas deste género são sempre como as moedas: Têm dois lados. Basta ver uma das grandes criações de Guterres, o Rendimento Mínimo Garantido.

Basicamente, o que o primeiro-ministro quer dizer é algo como: “Se votarem em nós, o Governo vem, dá subsídios e ajuda os pobrezinhos. Se votarem no PSD, vêm os mauzões da direita e tira-nos isso tudo, para deixarem as criancinhas a passar fome”. Sócrates nunca diz quem paga esses subsídios (não interessa se são justos ou injustos), porque, se o fizesse, uma parte do eleitorado fugiria a sete pés do PS. A verdade, quando a há, fica sempre pela metade.

Esta estratégia de acenar com os papões da direita costuma produzir bons frutos para a esquerda (e até para o PS), ao ponto de, para alguns sectores menos informados da população, o Governo de Durão Barroso ter ficado conhecido como o carrasco do Rendimento Mínimo Garantido, quando o que fez foi, na verdade, mudar-lhe o nome e alterar um pouco as condições de acesso à dita prestação.

Quando a campanha eleitoral começar mesmo a sério, vamos voltar a ouvir falar nos papões da direita, nos mauzões que querem um Estado mínimo que se está a cagar para toda a gente, menos para uma pequena clique que transacciona favores e dinheiros de forma mais ou menos legal, mas sempre imoral. Muitos dos que se dizem de esquerda (e há tantos assim no PS) adoram este tipo de discurso maniqueísta e, muitas vezes, recheado de inverdades.

Querem um exemplo? Na segunda volta das presidenciais de 1986, muita gente no PCP pôs a correr os mais incríveis boatos do que aconteceria a Portugal se Freitas do Amaral ganhasse as eleições, havendo quem dissesse que iríamos voltar aos tempos de Mr. Salazar. E foi assim que muita gente, mesmo não gostando de Mário Soares, lá entregou o seu voto vitorioso ao fundador do PS. 19 anos depois, o mesmo Freitas do Amaral que era pior do que Salazar acabou num Governo do partido do Soares que salvou o país do fascismo.

O tempo é um excelente conselheiro, meus amigos.

sábado, 18 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (57): PS, oportunismo e realidade

Já várias referi que considero o interesse de José Sócrates pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo como uma estratégia puramente eleitoralista, marcada por um cinismo que me choca. Afinal, o PS chumbou os projectos do BE e do PEV para legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo (acusando ambos os partidos de oportunismo político) e, logo em seguida, Sócrates anunciou justamente que o matrimónio entre homossexuais seria uma realidade na próxima legislatura. Ou seja, Sócrates quis usar os homossexuais como forma de piscar o olho a uma série de socialistas descontes, que, cada vez mais, vão pôr a cruzinha no BE (desde sempre, o partido mais genuíno na defesa dos LGBT). E convém sublinhar que, em Portugal, cerca de dez por cento da população será homo ou bissexual, o que, na hora de contar os votos, pode dar um jeito do caneco.

O que é verdade é que este Governo se está nas tintas para os homossexuais, ao ponto de o Ministério da Saúde proibir estes de poderem dar sangue. Mas só os homossexuais masculinos, para a discriminação ser mesmo a sério. Afinal, já não bastavam todas as discriminações que os homossexuais já sofriam. Agora têm mais esta: São considerados um grupo de risco, apesar de a SIDA estar a alastrar, curiosamente, entre heterossexuais. Neste particular, não deixa de ser interessante verificar que os bissexuais (mesmo masculinos) e as lésbicas não constituem grupos de risco. Ou seja, quem tiver relações sexuais com mulheres, mesmo que também tenha com homens, está na boa. Fazer sexo só com homens é que não, que isso faz mal.

No fundo, o que se passa é que Ana Jorge, a titular da pasta da Saúde, é, na verdade, tão homofóbica como Manuela Ferreira Leite, que, como se sabe, é uma homofóbica declarada. Ora, se o PS nos oferece um Governo com posturas homofóbicas e se isso choca alguém (a mim choca-me), mais vale votar no PSD… ou no BE.

Em tempos, achei que José Sócrates iria fazer uma ponta final de mandato verdadeiramente enérgica, de molde a vencer as Legislativas ou, pelo menos, para tentar vender cara a derrota. Só que Sócrates é uma coisa, os seus ministros são outra, apesar de caber ao líder do Governo a escolha da sua equipa. Ao optar por gente pouco qualificada do ponto de vista político, Sócrates conseguiu brilhar como o número um do Governo, mas agora arrisca-se a deitar tudo a perder. É que, depois dos cornos de Manuel Pinho, esta homofobia declarada de Ana Jorge é mesmo boa para deitar votos no lixo… ou nos dois principais adversários na corrida de 27 de Setembro.

domingo, 12 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (53): Outro que se posiciona

Até ao dia 7 de Junho, a ideia de uma derrota do PS nas Eleições Legislativas deste ano parecia uma possibilidade verdadeiramente remota, apesar de, aqui e ali, sinais claros de descontentamento popular anunciarem que o vento poderia começar a soprar para outro lado. Depois, veio o dia das Eleições Europeias e, num ápice, a ideia de uma derrota de José Sócrates e/ou de uma vitória de Manuela Ferreira Leite começou, rapidamente, a ganhar forma.

Ao sentirem que os dias de ouro de José Sócrates podem estar a chegar ao fim, muitas correntes e grupelhos internos do PS (demasiado parecidos com os que existem no PSD) começaram logo a contar espingardas à pressa, tendo em vista que, no dia 27 de Setembro, as coisas podem correr mal e os socialistas perderem as eleições. Se Sócrates sair derrotado daqui a dois meses e meio, certo é que, logo na noite das eleições, anunciará a sua demissão do cargo de secretário-geral do PS.

No post anterior, falei-vos da minha suspeita em relação à possibilidade de António Costa entrar na eventual corrida para a liderança do PS. Mas o que vos digo é que outro nome forte do PS pode igualmente entrar na corrida e estamos a falar, nem mais, nem menos, do que em Manuel Alegre.

Sócrates e Alegre começaram por disputar as Eleições Directas do PS (juntamente com João Soares), que levaram à vitória do primeiro sobre o segundo. Em seguida, foi o chumbo a uma candidatura presidencial de Alegre em detrimento de uma nova investida de Mário Soares. Depois de Alegre ter ficado à frente de Soares nas Presidenciais e de quase ter obrigado Cavaco Silva a ir a uma segunda volta, o deputado-poeta passou a ter uma ideia palpável da sua influência dentro do PS e na própria sociedade, pelo que começou a assumir uma postura de subgrupo dentro do próprio partido. Basicamente, Alegre imagina-se como o homem que poderá retirar o socialismo da gaveta, fazendo com que o PS regresse aos dias da pureza original.

Agora que Sócrates começa a patinar na sua corrida para um segundo mandato, Alegre posiciona-se como o seu possível sucessor, apesar de já ter batido na fasquia dos 73 anos. O artigo de opinião que o deputado-poeta publicou no Expresso deixa o gato escondido com o rabo de fora, apesar de o texto começar com uma espécie de apelo ao voto no PS contra o alegado terror que se avizinha se Manuela Ferreira Leite for eleita: “Nas europeias, não foi o PSD que teve um aumento significativo de votação, foi o PS que perdeu grande parte da sua base social, a ponto de, pela primeira vez, ter ficado aquém de um milhão de votos. Várias vezes falei de um buraco negro na esquerda. A soma da abstenção com os resultados do BE e do PCP mostram que esse buraco se situa na área do PS. Não é crível que personalidades de direita consigam recuperar para o PS o eleitorado que este perdeu para a abstenção e para a esquerda. Os socialistas não podem ter um discurso emprestado. Não se combate o liberalismo ultra com o liberalismo suave. Nem se vence o PSD com ex-ideólogos do PSD. Ainda é possível dar a volta. Mas algo tem de acontecer. Apesar dos erros, a bandeira do PS não está no chão. Mais política e menos marketing. Mais socialistas e menos figurantes. Um pouco mais de esquerda. Ou, como diria Mário Cesariny, "um acordar". Para que um dia destes não estejamos a perguntar-nos como é que se perdeu mais uma oportunidade e como é que um país maioritariamente de esquerda pode acabar uma vez mais a ser governado pela direita”.

Trocando por miúdos, Alegre, que não integrará as listas do PS nas próximas Legislativas (é a primeira vez que vai ficar de fora desde que há democracia em Portugal), parece pouco ou nada convencido com a capacidade de José Sócrates para vencer as eleições. Alegre bem diz que “a bandeira do PS não está no chão”, mas escusa-se a falar de José Sócrates, como que, implicitamente, responsabilizando o actuar líder por uma eventual derrota (e é por isso que surge o apelo “mais política e menos marketing”).

Claro que José Sócrates ainda não está derrotado. Mas, perante essa possibilidade, Alegre e Costa vão reunindo trunfos e apoios, preparando-se para a eventualidade de, no dia 27 de Setembro, o PS ficar sem líder. É que ninguém que ser apanhado com a Manilha seca na mão no momento em que o Ás saltar para cima da mesa…

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (52): Hum… pois, sei… estou a ver… sim, é “o PS de António Costa”

José Sá Fernandes, advogado e vereador independente na Câmara de Lisboa, admitiu uma convergência com “o PS de António Costa” nas próximas Eleições Autárquicas, caso o actual edil alfacinha aceite as propostas da Associação Cívica «Lisboa é Muita Gente».

Hum…

Pois é, o Sá Fernandes disse “o PS de António Costa”. Expressão interessante. Especialmente, quando ainda está na moda a expressão “o PS de José Sócrates”.

Pois, ainda está na moda. Mas, vai na volta, pode deixar de estar. Especialmente, se “o PS de José Sócrates” perder as eleições. Nesse caso, podemos ter “o PS de António Costa”.

Porque não?

O que eu sei é que, volta e meia, “o PS de António Costa” se lembra de criticar “o PS de José Sócrates”, isto apesar de António Costa já ter integrado o Governo de José Sócrates (e de ambos terem sido colegas nos Governos de António Guterres). Sei que a moção apresentada pelo movimento de Carmona Rodrigues, a criticar a exclusão da edilidade alfacinha da administração do Metropolitano de Lisboa, foi aprovada também com os votos do PS, sendo que António Costa aproveitou a deixa para atacar Mário Lino, seu antigo colega de Governo. Sei também que António Costa já critica a Lei das Rendas, ele que a defendeu nos tempos em que era ministro do Governo que agora ataca.

Tudo isto para chegarmos a um ponto: António Costa começa, lenta e eficazmente, a demarcar-se do Governo que outrora integrou.

Mas… porque o faz? Bem, se António Costa tem espírito auto-crítico, decerto reconhecerá que, como ministro da Administração Interna, foi uma verdadeira lástima e uma das piores coisas que já aconteceu a esta tutela (as razões que me levam a afirmar tal coisa seriam merecedoras de outro post). Mas, sobretudo, parece-me estar em causa uma absoluta falta de crença de Costa numa vitória do PS nas próximas Legislativas; sendo assim, e jogando no seguro, o edil de Lisboa opta por se demarcar de um Governo em nítida queda, ao qual, curiosamente, já pertenceu. José Sócrates? Não conheço esse senhor e nunca me foi apresentado…

Contudo, tenho cá um dedinho que me diz que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa está mais interessado noutros voos. Sentindo próxima a queda de José Sócrates, Costa começa a distanciar-se do Governo e do rumo por ele tomado tendo em vista um eventual assalto à liderança do PS, isto no caso de Sócrates ser derrotado a 27 de Setembro (o que implicaria a demissão voluntária do actual líder socialista).

Tudo isto são meras suposições, análises feitas em cima de quase nada. Mas aquele “o PS de António Costa”, dito por Sá Fernandes, soou-me a profético. Vai na volta, sou eu que estou a ver pestanas em ovos…

… ou não.

A MANILHA VAI SECA (51): Agora é com o menino Zé

Leram o post anterior? Se não leram, não me vou dar ao trabalho de pôr o link, porque basta recuar um bocadinho com o rato. Mas se não quiserem ler, escusam de ler este post.

Depois de pensar um bocado, achei que traçar o cenário da hipotética continuidade de um Governo minoritário do PSD no caso de uma pandemia de Gripe A seria um exercício demasiado parcial. Ainda por cima, é um exercício que parte de um pressuposto (a vitória do PSD a 27 de Setembro) cuja concretização não é minimamente certa.

Por isso, passamos a outro exercício idêntico. Desta vez, com o PS de José Sócrates reconduzido a um novo mandato, ainda que em maioria relativa (a absoluta, tanto para socialistas, como para sociais-democratas, parece cada vez mais longe).

Imaginem, uma vez mais, o mesmo cenário dantesco provocado pela Gripe A (e este é o cenário que mais se aproxima da realidade, confesso). Neste caso, seria muito mais fácil apontar culpas ao Governo de Sócrates, já que ele é que foi responsável por tomar todas as precauções em relação aos perigos da Gripe A.

Perante este cenário, imagino, uma vez mais, um quarto dos deputados reunidos para poderem apresentar uma moção de censura, a qual tinha fortes possibilidades de ser aprovada. Aí, Cavaco não teria muito que pensar: Demitia o Governo e Portugal ia novamente a eleições.

Num cenário como o que acima descrevi, o PS perderia toda a confiança do eleitorado em ira, que não mais lhe daria uma segunda hipótese. Por seu turno, o PSD (se calhar, já sem Manuela Ferreira Leite como líder) teria todas as hipóteses de conseguir uma histórica maioria absoluta, a primeira do partido desde 1991. Tal como sucedeu nas últimas Europeias, também o BE, a CDU e o CDS-PP poderiam aproveitar a perda de votos do PS para engordarem um pouco mais, ao passo que partidos como o MEP ou o MMS poderiam até ter espaço de manobra para conseguirem uma pequena representação parlamentar, captando descontentes com os cinco partidos que dominam o «sistema» (ou seja, a Assembleia da República, assembleias regionais e autarquias locais).

E assim, sem honra nem glória, terminaria a era Sócrates, à qual se seguiria um período de enorme turbulência interna dentro do PS.

terça-feira, 7 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (48): Sim e assim-assim

Não é meu costume falar da imprensa portuguesa, mas, hoje, abro uma pequena excepção. Muito se disse a falou sobre o lançamento do i, com muita gente a tecer duras críticas ao jornal do Grupo Lena. Bem, pode ser que algumas críticas sejam perfeitamente válidas, mas uma coisa é certa: O raio do jornal tem-nos brindado com uma série de boas entrevistas a inúmeras personalidades.

Da entrevista a Maria Filomena Mónica, há um par de frases que merecem uma nota.

“Prefiro o António Costa ao Santana Lopes, embora o Santana Lopes me divirta muito mais. Mas ele só me diverte quando está fora do poder, no poder é um irresponsável”. Sintético e certeiro. Pena é que António Costa não consiga fazer valer outros argumentos para além do facto de, para muitos, ser melhor e mais responsável do que Santana. Lisboa merecia mais.

Já sobre José Sócrates, Maria Filomena Mónica diz: “É um rapaz da província que subiu na vida à custa da esperteza e de muito pouco trabalho”. Concordo com a primeira parte, mas não com a segunda. José Sócrates é conhecido como sendo um homem muito trabalhador (já o era como ministro do Ambiente) e o esmero com que prepara as suas idas à Assembleia da República mostra bem que faz os trabalhos de casa melhor do que ninguém. Marques Mendes, que demorou muito a aperceber-se desta faceta de Sócrates, levava cada baile no Parlamento que até metia dó. Os episódios que podem levar-nos a pensar que Sócrates não seja um homem trabalhador (como o dos projectos na Guarda ou o da licenciatura) são como as noitadas de Cristiano Ronaldo, que escondem o facto de o CR9 ser o senhor que, por norma, mais dá de si nos treinos. Pena é que Sócrates não seja tão bom primeiro-ministro como CR9 é jogador...

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (46): Mó de cima, mó de baixo

Até 7 de Junho:

- JOSÉ SÓCRATES: Vai vencer as Europeias, as Autárquicas e as Legislativas, embora não seja certo que consiga a maioria absoluta nestas últimas. É o líder que agrega a esmagadora maioria das tendências dentro do PS (com excepção do grupo de Manuel Alegre) e o secretário-geral incontestado. Mistura dinamismo com algumas medidas acertas e sabe embrulhá-las na forma de propaganda. Teve a coragem de implementar certas reformas essenciais e de lutar contra muitos interesses corporativos instalados na sociedade portuguesa. Mau grado alguns defeitos e muitas dúvidas em torno de certos dossiers polémicos (como o Freeport ou a Independente), em Portugal, não se vislumbra outro líder político com capacidade para batê-lo.

- MANUELA FERREIRA LEITE: Mais um erro de casting do PSD, que deve ser corrigido antes da sequência tripla de eleições. Se continuar à frente do partido, vai perder as Europeias, as Autárquicas e as Legislativas (apesar de poder ficar com a vitória moral de, eventualmente, conseguir evitar a maioria absoluta do PS e de José Sócrates). Não sabe falar, não se sabe vestir, não tem imagem, não tem empatia com o público, não demonstra simpatia, não é capaz de agregar as várias tendências dentro do PSD. É feia que nem a noite das tempestades. É um desastre a escolher candidatos, especialmente quando aposta em Santana Lopes para Lisboa e Paulo Rangel para Estrasburgo. Fez declarações homofóbicas, racistas e anti-democráticas que só prejudicaram o PSD. Mais dia, menos dia, é destronada por Pedro Passos Coelho.

Depois de 7 de Junho:


- JOSÉ SÓCRATES: Simulou a postura arrogante com uma falsa humildade, que lhe vai custar uma derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Saiu-se com o discurso das “campanhas negras”, que lhe vai custar uma derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Lidera um partido e um Governo sem rumo, num sinal claro de que vai perder as Legislativas e, provavelmente, as Autárquicas. O episódio dos cornos do Manuel Pinho pode custar-lhe as Legislativas e, provavelmente, as Autárquicas. O caso da venda da TVI à PT foi desmascarado e, apesar da inflexão, deve custar-lhe a vitória nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. As dúvidas sobre o seu envolvimento no Caso Freeport devem custar-lhe a vitória nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Combateu cegamente várias classes profissionais e não soube distinguir entre interesses corporativos e descontentamento generalizado de amplos sectores da população, o que anuncia uma derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Os portugueses já não engolem ilusionismos propagandistas e isso vai ditar a sua derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Suspendeu os projectos da linha ferroviária de alta velocidade e do novo aeroporto de Lisboa, os quais, pelo despesismo que representam, podem ditar a derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. António Costa deve suceder-lhe depois da derrota confirmada nas Europeias e quase certa nas Legislativas… e, provavelmente, nas Autárquicas. Foi o pior primeiro-ministro de que há memória.

- MANUELA FERREIRA LEITE: Ganhou as Europeias com tenacidade e teve o bom-senso de escolher Paulo Rangel para cabeça-de-lista das Europeias. Com Santana Lopes, vai ganhar a Câmara de Lisboa a António Costa. Tem uma imagem de seriedade, compostura e de dizer a verdade, não iludindo os portugueses com falsas esperanças e expectativas. Não faz promessas que não pode cumprir. Ú um triunfo da seriedade, do rigor e da competência sobre a manipulação, o espectáculo e a propaganda. Não está envolvida em escândalos que desprestigiam os cargos que ocupa, a vida política portuguesa e a imagem do país lá fora. Não vai apostar em megalomanias e vai reforçar os apoios às PME’s, que compõem a esmagadora maioria do tecido empresarial português. Será a primeira mulher a ser eleita primeira-ministra em Portugal, já que Maria de Lurdes Pintassilgo liderou um Governo de iniciativa presidencial e, como tal, não foi a votos. É a salvadora da pátria. Vai varrer Pedro Passos Coelho e outros parasitas do PSD. Venceu as Europeias, vai vencer as Legislativas e, provavelmente, as Autárquicas.

(…)

Isto é só um exercício para demonstrar como muitas opiniões mudam ao sabor de ventos e marés. Para quem está na mó de baixo, é difícil sair de lá e Sócrates vai sabê-lo melhor do que ninguém até Setembro (Manuela Ferreira Leite já conhece o segredo).

O que eu queria salientar com este post é que as opiniões variam muito ao sabor do vento. Manuela Ferreira Leite já foi uma besta, mas agora é bestial. Sócrates tem feito o trajecto oposto. Mas o que é verdade é que Manuela Ferreira Leite continua a ter os mesmos defeitos que tinha antes de 7 de Junho e que, na época, eram criticados por meio mundo, a começar pelo próprio PSD. Do mesmo modo, José Sócrates não perdeu as qualidades que tinha antes das Europeias e que, antes de 7 de Junho, até lhe mereciam bastantes elogios (e muitas críticas por parte de certos rivais invejosos).

Sócrates e Ferreira Leite são o que são. Têm virtudes e têm defeitos. São humanos e ponto final.

Depois de os ataques a Ferreira Leite terem estado na moda, é chegada a hora de dizer o pior possível do Governo e de José Sócrates. O leão está moribundo e todos lhe batem, mesmo aqueles que já comeram nas mãos da fera ferida e que agora rastejam diante da eventualidade de uma nova liderança.

Mas a verdade continua a existir para além das modas e dos resultados de umas eleições às quais nenhum dos dois concorreu. Por isso, digo-vos: Antes de entrarem em modas, analisem friamente um e outro. Analisem os programas de PS e PSD (e, já agora, dos demais partidos). Nenhum deles é uma besta, nenhum deles é bestial.

Eles são o que são.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (44): O Santana de Sócrates e a arte de deitar bombons para o lixo

Lembram-se do célebre dia em que Pedro Santana Lopes comparou o seu Governo a um bebé na incubadora, que, impiedosamente, levava murros e estalos dos irmãos mais velhos? Foi esta a infeliz metáfora (ou seria comparação?) que fez verter o copo da paciência de Jorge Sampaio, que, sem mais rodeios, dissolveu a Assembleia da República e convocou novas eleições. Se tivesse sido esse o único disparate de Santana, Sampaio ainda fechava os olhos e engolia em seco, mas o menino-guerreiro já tinha feito muitas diabruras e a paciência presidencial tem limites.

Já perceberam onde quero chegar, certo?

Manuel Pinho foi, na verdade, o Santana deste Governo, o homem que passou quatro anos e meio a fazer graçolas e a dizer as maiores alarvidades, sempre com Sócrates a engolir em seco e a fingir que nada se passava. Dizem as más-línguas que, quando Pinho tentou vender aos chineses a ideia de que Portugal era um país de mão-de-obra barata, Sócrates estaria capaz de lhe apertar o gasganete. É uma pena que não o tenha feito na altura, confesso. Mas está tudo bem, já passou.

Até ao dia.

Os cornos de Manuel Pinho para Bernardino Soares mais não foram do que a enésima falta de educação que os portugueses tiveram a oportunidade de presenciar naquela tabanca instalada no Palácio de São Bento. A diferença é que Pinho já não tinha margem de manobra para mais uma graçola destas, em especial depois da infelicíssima tirada da papa Maizena (que muito ajudou Paulo Rangel a tornar-se conhecido junto da população em geral, diga-se em abono da verdade). Ainda que as críticas de Bernardino Soares fossem profundamente injustas e Pinho tenha dado tudo por tudo para salvar as minas de Aljustrel, nada justificava o fatal gesto dos cornos no órgão máximo que simboliza a democracia portuguesa.

Não sei se foi Pinho a pedir a demissão ou se foi Sócrates que o pôs a andar, mas isso pouco ou nada interessa. Foi o fim da linha, o ponto final, a morte política do menino-guerreiro deste Governo.

Todo este episódio acabou por favorecer a oposição de uma forma que, decerto, ninguém poderia imaginar. Sendo o debate sobre o Estado da Nação o derradeiro embate de José Sócrates na Assembleia da República durante a actual legislatura, tudo teria de correr pelo melhor, de forma a passar a melhor imagem possível para o eleitorado descontente e/ou com dúvidas.

Como é seu apanágio, Sócrates preparou-se bem para o debate e levou na manga alguns trunfos para jogar. Para adoçar a boca dos portugueses e calar as bocas da oposição, o mestre da ilusão jogou um reforço de 115 milhões de euros da dotação para a construção de novos equipamentos sociais, a criação de uma linha de crédito de 50 milhões também para esta área e a promessa (mais uma) de que o programa nacional de requalificação e modernização dos centros de saúde e urgências hospitalares teria, este ano, uma comparticipação adicional de 20 milhões. Com os cornos de Manuel Pinho, os bombons foram todos para o lixo e quem se lixou foi o próprio Sócrates, já que as medidas/promessas que apresentou perderam toda a visibilidade em favor de um par de cornos.

Se eu fosse José Sócrates, dava uma carga de porrada a Manuel Pinho até o deixar estendido no chão. Vai na volta, Sócrates até conseguiria reconquistar uma boa fatia do eleitorado se optasse por partir para a ignorância, já que estaria a satisfazer a vontade de 10,7 milhões de pessoas (incluindo ele próprio).

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (40): Junta-se água, mexe-se bem, leva-se ao frigorífico e temos milhões de empregos (história da fábrica de penicos)

Vou contar-vos uma pequena história.

Era uma vez um vielarejo do interior (imaginem-o onde quiserem) chamado Vilar do Burro em Pé. Nesta pacata localidade, havia uma próspera fábrica de penicos, que dava emprego a 150 pessoas, havendo famílias inteiras que trabalhavam para o doutor que fabricava as mais ecológicas cagadeiras de que há memória. Um dia, o doutor da fábrica conhece uma moça vinte anos mais nova que lhe dá a volta à cabeça, levando-o a desbaratar a sua pequena fortuna nos mais extravagantes presentes, ofertados na ânsia de satisfazer os mais recônditos e animais desejos de luxúria, de prazer, de sensação de poder fictício sobre uma mulher muito mais jovem, muito mais bela, muito mais tudo.

Quando volta a colocar os pés na terra, o nosso empresário está falido. Sem cara para enfrentar quem quer que seja, esvazia os cofres da empresa e foge para uma ilha paradisíaca. Sem patrão, a outrora fábrica de penicos de Vilar do Burro em Pé é obrigada a fechar portas, deixando centena e meia de desgraçados na mais desgraçada situação de um dia para o outro. Muitos, vão aprender a viver com o subsídio de desemprego, mas os que nem contrato tinham passam a conviver com todas as dificuldades e mais algumas.

Um mês depois do fecho da malfadada fábrica de penicos, uma ruidosa comitiva de gente importante chega a Vilar do Burro em Pé. É gente importante, bem vemos. Há um enxame de jornalistas por toda a parte, esperando microfones e gravadores nas cataduras dos mais incautos, atropelando meio mundo para exercerem o seu Quarto Poder a troco de 500 euros a recibos verdes. E lá está o presidente da Câmara, engomadinho e limpinho como um bácoro de laço, recebendo, submisso e subserviente, o senhor ministro disto, o doutor ministro daquilo, mais o engenheiro ministro de acolá, todos circundando o mais ministro de todos os ministros, o nosso primeiro-ministro (pode ser o Sócrates, mas pode ser quem quiserem escolher para o papel).

Nesse dia, o mais ministro de todos os ministros anuncia a Vilar do Burro em Pé e a Portugal inteiro que, naquela parvalheira estupidificada, vão ser criados mais 300 postos de trabalho com a construção de uma fábrica de sanitas. Sim, o dobro daqueles que se perderam com o fecho da velha linha de produção de higiénicos penicos. E enquanto os ministros e gentes de renome se empanturram de rissóis, o povo da vila bate palmas e dá pulos de contente, rejubilando com os novos 300 empregos que aí vêm.

(…)

O problema, meus amigos, é que, quando se fecha uma fábrica, as pessoas que nela trabalhavam vão para a rua de um dia para o outro. No entanto, quando se anuncia uma nova fábrica, estamos a falar de um empreendimento que, na melhor das hipóteses, tem já o projecto aprovado. Pegando no exemplo de Vilar do Burro em Pé, os 150 empregos esfumaram-se de um dia para o outro, mas os 300 novos postos de trabalho prometidos pelo Governo, vão demorar muito, muito, muito tempo até serem uma realidade.

Certa vez, lembro-me de estar numa dessas cerimónias de colocação de primeira pedra, onde José Sócrates até dava pulos de contente com a criação de 15 mil novos postos de trabalho e não se fartava de passar manteiga aos espanhóis que iam investir em Portugal. O problema é que esses empregos iriam ser criados ao longo de… DEZ ANOS. Sim, leram bem: dez anos, 120 meses. Toda a encenação em torno de novos anúncios de investimento não passa disso mesmo: de tornar cenograficamente instantânea uma realidade que só será palpável muito tempo depois.

Mas Sócrates continua a apostar nessa coreografia como se não houvesse amanhã. Desta feita, como não tinha uma primeira pedra para colocar, anunciou ao país que Portugal estava na corrida para receber a fábrica europeia de baterias que irão alimentar a primeira geração a sério de carros eléctricos da Nissan. Anuncia-se uma possibilidade, apenas isso. Pode haver emprego, se a Renault-Nissan escolher Portugal para instalar a sua nova fábrica e depois de o projecto estar devidamente realizado e aprovado por todas as entidades competentes, havendo ainda que escolher um terreno para edificar a nova unidade de produção; quando as obras começarem, algumas pessoas ganharão emprego (maioritariamente, trabalhadores da construção civil), mas o grosso da coluna apenas chegará quando a fábrica começar a laborar… o que deve acontecer daqui a bastantes anos (demasiados, para quem espera e desespera por um emprego que lhe permita uma sobrevivência minimamente digna).

terça-feira, 30 de junho de 2009

A MANILHA VAI SECA (38): Dois estilos

Quem segue esta casa de jogo gerenciada pelo triste Dois de Paus que vos escreve, decerto já terá percebido que sou clara e totalmente a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo e clara e totalmente contra toda e qualquer forma de homofobia.

Talvez pelo facto de a religião escasso peso ter tido na minha educação, olho para o casamento não como um meio para procriar e fazer esse algo chamado constituir família, mas sim como um enlace onde a felicidade deve ser o valor fundamental. Por isso, não me faz qualquer confusão que dois homens ou duas mulheres decidam dar o nó. O que me faz confusão é que o Estado continue a negar esse direito a uma percentagem da população (estima-se que dez por cento dos portugueses sejam, de alguma forma, bissexuais ou homossexuais), que, na verdade, apenas deseja ser feliz – e, ainda por cima, estamos a falar de uma felicidade que em nada afecta os casamentos heterossexuais (como o meu, por exemplo).

Mas não é sobre o matrimónio entre pessoas do mesmo sexo que versa este post. Na verdade, introduzi este tema como forma de vos mostrar as diferenças de estilo entre Manuela Ferreira Leite e José Sócrates, depois de, em posts anteriores, ter analisado os pontos de convergência entre ambos.

Já sabemos que Sócrates e Ferreira Leite têm visões opostas sobre o tema. Mas a forma como demonstram essas diferenças leva-nos a uma outra diferença fulcral.

Passo a explicar.

Na sua primeira entrevista televisiva como presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite teceu uma série de comentários altamente homofóbicos, dizendo mesmo que estava a discriminar os casais compostos por pessoas do mesmo sexo porque estes eram diferentes (e, subentende-se, inferiores) dos casais de pessoas de sexo diferente. Para Miss Política de Verdade, o casamento serve para fazer meninos e ponto final. Não se fala em felicidade, compreensão, carinho, companheirismo e, sobretudo, em amor (tudo conceitos que deverão ser completamente estranhos à senhora).

Por seu turno, José Sócrates, no último congresso do PS, anunciou que o casamento entre pessoas do mesmo sexo iria ser uma realidade na próxima legislatura, sendo esta uma forma de seguir os passos da vizinha Espanha (pelo menos, neste campo) e de acabar com uma discriminação que não faz qualquer sentido numa sociedade evoluída, tolerante e integradora.

Dito assim, seria fácil pensar que estou totalmente de acordo com Sócrates e absolutamente em desacordo com a quase-septuagenária que lidera do PSD.

Desenganem-se.

Uma vez na vida, Manuela Ferreira Leite foi frontal e directa. Não há como ser enganado: a mulher é homofóbica e preconceituosa, revelando uma mentalidade conservadora e ultramontana ao extremo. Para mim, que não gosto de homofóbicos, preconceituosos, conservadores e ultramontanos, não há problema: não voto na senhora e ponto final. Mas que ninguém diga que foi enganado.

Já Sócrates revela-se muito mais oportunista e bem menos frontal. Meses antes do Congresso de Espinho, Sócrates e o PS chumbaram propostas do BE e d’«Os Verdes» para legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, alegando que tais projectos vinham embebidos num flagrante oportunismo político. Meses depois, é o PS quem fala num projecto semelhante aos que havia chumbado e criticado, que há de ser apresentado e posto a votação quando Sócrates bem o entender e quando lhe der mais jeito. Ou seja, a igualdade de direitos e a felicidade de muitos milhares de pessoas podem esperar mais um bocadinho, até uma altura em que for conveniente, do ponto de vista político, às hostes do Largo do Rato. Se, em altura alguma da próxima legislatura, este assunto for conveniente ao PS, o mesmo será metido na gaveta (provavelmente, a mesma onde o partido tem guardado, há largos anos, o socialismo). Além do mais, está totalmente fora de questão aprovar projectos de outros partidos sobre este assunto, mesmo que as propostas sejam idênticas à que o PS pretende lançar - se os homossexuais querem casar, que o façam segundo um projecto-lei apresentado apenas e exclusivamente pelos socialistas.

Como já aqui disse, a minha visão sobre este tema é totalmente oposta à de Manuela Ferreira Leite, a quem, mentalmente, chamei de “puta” para baixo quando ouvi as célebres declarações sobre o casamento homossexual. Todavia, aprecio a sinceridade da senhora. Quanto a Sócrates, torço o nariz ao oportunismo e cinismo que revestem as suas posições sobre o assunto.

São dois estilos, meus amigos…

quarta-feira, 24 de junho de 2009

A MANILHA VAI SECA (35): Vamos a jogo, meninos, vamos a jogo

Há alguns dias, alertei-vos para a necessidade de não se deixarem deslumbrar pelo novo Sócrates humilde que surgiu na última entrevista que deu à SIC. Na altura, disse-vos igualmente que o actual primeiro-ministro, depois de uns valentes dias a jogar à defesa (com o autocarro estacionado à porta da baliza) iria partir para o contra-ataque quanto antes.

Hoje, dia 24 de Junho, José Sócrates foi, pela última vez nesta legislatura, ao Parlamento, para participar no tradicional debate quinzenal com os deputados da nação. E, como manda a tradição, lá surgiram novos anúncios de novos apoios sociais, para tentar adoçar a boca ao eleitorado, que, no dia 7, mostrou estar demasiado amargurado com este Governo.

Assim sendo, segundo anunciou José Sócrates, haverá “um aumento extraordinário em dez por cento do valor de todas as bolsas de acção social escolar no ensino Superior”, sendo que “esta medida beneficia um em cada cinco estudantes, num total de 73 mil; e o aumento anual da bolsa poderá chegar aos 700 euros no caso dos estudantes mais carenciados que estejam deslocados da sua família”.

Parece-vos bem?

Mas há mais: “Os estudantes bolseiros da acção social que se encontrem em mobilidade internacional ao abrigo do programa Erasmus vêem aumentado em 50 por cento o valor da sua bolsa Erasmus, mantendo totalmente o direito à bolsa de acção social durante a estada no estrangeiro”.

O homem está generoso, não está?

E podemos continuar com “a redução em 50 por cento da assinatura mensal dos transportes urbanos, que hoje abrange os alunos até aos 18 anos, passará também a beneficiar os estudantes do Ensino Superior, qualquer que seja a instituição, pública ou privada. O passe será válido em mais de 120 operadores de transportes a nível nacional, a que acrescem os transportes de iniciativa municipal que a ele aderirem. Estamos perante uma medida que apoia as famílias em despesas essenciais, ao mesmo tempo que incentiva o uso dos transportes públicos”.

Há muito que os apoios sociais são um dos trunfos mais usados pelo PS. Durante toda a campanha para as Legislativas de 2002, Ferro Rodrigues fartou-se de falar no Rendimento Mínimo Garantido (actual Rendimento Social de Inserção) como uma das bandeiras dos Governos de António Guterres, dos quais, aliás, Ferro fez parte. José Sócrates poderá partir para a campanha eleitoral seguindo a mesma linha, mas com muito mais apoios concedidos (praticamente, podemos dizer que houve novos apoios anunciados a cada debate quinzenal na Assembleia da República).

Sócrates é um animal político e garanto-vos que, até às Legislativas, vai-se fartar de distribuir benesses como bombons. Esta táctica tem especial revelo quando Manuela Ferreira Leite opta pelo discurso de “não há dinheiro para nada, nada se faz, nada se dá”. Claro está, Ferreira Leite já acenou com a diminuição da despesa pública para poder reduzir impostos, mas, se querem saber a minha opinião, neste campo, Sócrates vai antecipar-se a Miss Política de Verdade…

sábado, 20 de junho de 2009

A MANILHA VAI SECA (32): Ainda sobre a insegurança de Sócrates (adenda ao post anterior)

Confesso que escrevi o post anterior de madrugada, numa altura em que o meu cérebro pouco prodigioso trabalhava já aos solavancos. Aliás, este vício noctívago meu é um mal de que padecem muitos textos, que acabam por apresentar erros e gralhas de palmatória (o sono é inimigo da perfeição).

Sucede que, no post anterior, não referi um dos aspectos mais marcantes da insegurança de Sócrates.

Quando entrou para a Assembleia da República, o actual primeiro-ministro era apenas um engenheiro técnico. Ou seja, era um humilde bacharel em engenharia, num hemiciclo onde licenciados, mestres e doutores predominam.

Homens como Jerónimo de Sousa (que não tem estudos superiores) ou Manuel Monteiro (que liderou o CDS numa época em que ainda não tinha concluído a licenciatura) jamais se importaram de integrar a elite dos 230 sem terem um diploma bonito para pendurar na parede. Mas Sócrates, mesmo tendo estudos superiores (o bacharelato é o mais pequeno grau académico), sentiu sempre essa insegurança de não ter a licenciatura. Por ser engenheiro técnico, era chamado pelos seus pares de “engenheiro”, quando, na verdade, não estava inscrito na Ordem - aliás, com tal bacharelato, não podia estar inscrito.

Isto explica o que terá levado José Sócrates, já membro do Governo de António Guterres, a tentar arranjar uma licenciatura em engenharia. A qualquer custo e pelas vias mais sinuosas. Conseguiu o diploma, é certo, mas a sua licenciatura tirada à pressa acabou por lhe custar demasiado caro em termos de reputação. Foi a primeira grande ferida na sua honra pessoal (se é que ele dá importância a isso), que deixou uma cicatriz profunda nos seus medos e inseguranças.

A partir deste episódio, Sócrates (apoiado pelo seu fiel Augusto Santos Silva) desencadeou um conjunto de perseguições aos jornalistas, responsabilizando-os, instintivamente, por uma mancha enorme na sua honra.

Conheço algumas pessoas que desempenham cargos de grande responsabilidade sem terem uma licenciatura. Em muitas delas, reconheço este tipo de comportamento, fruto de recalcamentos, estigmas (especialmente o de não ter a licenciatura) e de inseguranças escondidas nos locais mais recônditos da alma humana.

Certa vez, o antropólogo Pedro Prista disse, em plena aula, algo como isto: “A alma humana está cheia de tempestades, abismos e contradições”.

Sócrates, homem inteligente e vivo, está cheio de tempestades, abismos e contradições.

Mas não seremos todos nós um pouco como Sócrates?

A MANILHA VAI SECA (31): Não foi a vaidade, não foi a arrogância, foi a insegurança

Depois do desaire eleitoral de 7 de Junho, tornou-se um lugar-comum afirmar que foi a arrogância que perdeu José Sócrates.

Permitam-me que discorde: foi, isso sim, uma mescla de vaidade com muita insegurança.

Um dos maiores problemas deste PS absurdamente centrado na figura do seu líder é a incapacidade de criar espaço para outras figuras para além do secretário-geral. Sendo um homem extremamente vaidoso e algo egocêntrico, Sócrates quer ser o único a brilhar, mas, ao mesmo tempo, conhece como ninguém as suas próprias fragilidades. Não falo de eventuais rabos-de-palha (como a licenciatura da Universidade Independente), mas sim de fraquezas internas, de inseguranças que só ele conhece e que só ele consegue disfarçar como ninguém.

Sócrates é um homem inseguro.

E isso percebe-se em inúmeros detalhes.

O fecho desmesurado de urgências hospitalares, escolas e blocos de partos no interior do país faz-me lembrar que o nosso primeiro-ministro está registado como tendo nascido em Vilar de Maçada, no concelho transmontano de Alijó, apesar de, em rigor, ter vindo ao Mundo no Porto, na freguesia de Miragaia. Quando se vive em grandes cidades (especialmente em Lisboa), sei bem como as pessoas oriundas de pequenas terras do interior são estigmatizadas, como se, na verdade, fossem bichos raros. Só para vos citar um exemplo, tive professores que se referiam a um colega meu como “o madeirense”, quase como se falássemos de um estrangeiro no meio dos anónimos e obrigatórios lisboetas. Adivinho que, de alguma forma, Sócrates deverá ter sentido esse estigma nalgum momento da sua infância ou adolescência, facto que justifica uma certa raiva contra o interior… que, de repente, ficou quase sem maternidades.

Sócrates deve ter amaldiçoado os pais pelo facto de estes não o terem registado no Porto (onde, de facto, nasceu), embora acredite que, no âmago do seu ser, ele desejasse mesmo ser lisboeta - de preferência, de São Sebastião da Pedreira.

Estas inseguranças de Sócrates acabam por se reflectir em inúmeros outros aspectos e que começam logo na escolha do elenco ministerial deste Governo: não há uma única figura que lhe faça sombra. Na verdade, Sócrates parece ter algum prazer em escolher pessoas politicamente pouco aptas para cargos ministeriais, que, ao contrário do que algumas pessoas pensam, não são lugares puramente técnicos, mas sim políticos. Manuel Pinho, Mário Lino, Jaime Silva, Maria de Lurdes Rodrigues ou Augusto Santos Silva são cinco exemplos de pessoas que nunca deveriam ter assumido uma pasta ministerial, posto que, do ponto de vista comunicacional e de habilidade política, são verdadeiras nulidades (o que não invalida que não possam ter bons conhecimentos técnicos sobre as áreas que tutelam, embora isso seja uma exigência mais flagrante quando falamos de secretários de Estado).

Contudo, os nomes que acima citei não têm total responsabilidade nos insucessos que lhes são atribuídos. Isto porque Sócrates, através de um hábil jogo de luzes e sombras, reserva para si mesmo um dado papel na governação e, para os seus subordinados, outro papel completamente diferente.

Vamos a um exemplo.

Quando se fala de recuperação de escolas (uma das melhores apostas em termos de Educação), quem é que dá a cara? José Sócrates. Quando se fala da distribuição de Magalhães, que pretendem ser uma interessante arma de combate ao analfabetismo informático, quem é que dá a cara? José Sócrates.

Porém, quando se fala de um Estatuto do Aluno cheio de imbecilidades, quem é que dá a cara? Maria de Lurdes Rodrigues, a besta. Quando se fala da caótica avaliação dos professores, quem é que dá a cara? Maria de Lurdes Rodrigues, a que merece ser chamada de puta para baixo.

Assim se percebe que José Sócrates reclama para si as medidas simpáticas e deixa para os seus subordinados as tarefas ingratas, mesmo que tenha responsabilidades em todas as decisões. Reconheço que Sócrates é o melhor elemento do elenco governativo (não vale a pena escamotearem esta realidade), mas também sei perceber que ele faz tudo para parecer muito melhor do que realmente é.

Por isso, sempre que pensarem em José Sócrates como um arrogante animal político, lembrem-se: debaixo da pele de lobo, está um cordeiro amedrontado. O problema é que esta questão de peles e medos tem consequências para o País…

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A MANILHA VAI SECA (30): A primeira derrota eleitoral de José Sócrates (o homem que quis perder as Autárquicas e as Presidenciais para poder vencer)

Acham mesmo que José Sócrates perdeu todas as eleições desde as Legislativas de 2005?

Não. Na verdade, por vezes, Sócrates ganhou perdendo. Como ele engana tão bem, meus amigos.

Após conquistar a primeira maioria absoluta do PS em 2005, José Sócrates, aparentemente, tem tido uma série de desaires eleitorais. É certo que ganhou as Regionais dos Açores (que não têm expressão nacional, tal como as da Madeira) e as Intercalares em Lisboa (que também não devem ser extrapoladas para o resto do país). Mas, ao mesmo tempo, Sócrates terá perdido as Autárquicas de 2005 e as Presidenciais de 2006, ambas disputadas numa altura em que o Governo actual ainda estava em estado de graça.

Sucede que Sócrates, habilidoso animal político, é um homem nada linear nas suas apostas. E a sua grande aposta passava por obter o controle total do partido, enfraquecendo ao máximo das várias facções que se degladiam pelo poder. Manuela Ferreira Leite que aprenda alguma coisa com este senhor.

Nas Autárquicas, Sócrates lançou João Soares para a Câmara de Sintra (estamos a falar do concelho que, actualmente, é o mais populoso do país). Apesar de até ter feito uma boa campanha, Soares «filho» perdeu para a Coligação Mais Sintra (PSD/CDS-PP/PPM/MPT) de Fernando Seara, que, ainda por cima, conseguiu a maioria absoluta. Em Lisboa, a capital, avançou Manuela Maria Carrilho, que perdeu depois de uma campanha verdadeiramente desastrosa.

Sucede que João Soares foi adversário de José Sócrates nas directas do PS e era ainda um dos nomes mais fortes da corrente soarista, liderada pelo próprio pai, ex-dono e fundador do partido. Já Manuel Maria Carrilho foi sempre um outsider perigoso, que chegou a desafiar a liderança de António Guterres, tendo-se transformado num acérrimo crítico do guterrismo que outrora integrou.

Ou seja, com a derrota de Soares e Carrilho, Sócrates enfraqueceu a oposição interna. Mas faltava ainda tirar uma pedra do sapato, que, nos tempos finais do Cavaquismo, foi uma das grandes vozes críticas do PS de oposição de António Guterres. Falo-vos, claro está, de Mário Soares.

Ao optar por Soares, Sócrates pretendeu atirar o velho Buda do PS para uma derrota que iria enfraquecer definitivamente o poder do fundador no seio do partido. Após a derrota de João em Sintra, a derrota de Mário contra Cavaco foi o desfecho ideal para Sócrates… ou seria, se Manuel Alegre não tivesse ganho mais protagonismo do que seria expectável num homem que, supostamente, já teria passado o auge da sua carreira política. Na verdade, neste momento, apenas a facção de Alegre tem alguma voz dentro do PS, mas Sócrates sabe que pode sempre tentar silenciar o deputado-poeta com as promessas de uma candidatura presidencial contra Cavaco Silva em 2011.

Tudo isto para dizer que as Autárquicas e as Presidenciais foram um acto de bluff puro e duro por parte de José Sócrates, que nem pareceu muito incomodado com as derrotas. Pudera…

Em 2007, as Intercalares de Lisboa foram ganhas pelo PS, que assim fica com António Costa a ganhar calo para poder suceder, futuramente, a José Sócrates. Todavia, estamos a falar de uma figura que fica nitidamente em stand-by.

Por isso, a derrota nas Eleições Europeias foi o primeiro fiasco a sério de José Sócrates, que até se envolveu na campanha numa tentativa de segurar as pontas diante de uma prestação desastrada da Vital Moreira. No entanto, a escolha do professor de Coimbra foi uma opção do próprio Sócrates, que não via no Avô Cantigas de trazer por casa um adversário directo ao seu esplendor e poder. Esta opção de Sócrates acabou por se revelar um fiasco, já que não evitou que o PSD assumisse a dianteira, do mesmo modo que não conseguiu estancar o crescimento do BE; a juntar a tudo isto, CDU e CDS-PP aumentaram também as suas votações.

Os resultados de 7 de Junho deverão levar José Sócrates a alterar a sua estratégia. Com o poder consolidado dentro do PS, o senhor com nome de filósofo estuda agora a próxima jogada, sendo certo que, desta feita, será ele quem irá ser (quase) directamente escrutinado. Fico curioso por saber que cartas irá jogar…

A MANILHA VAI SECA (28): Sócrates, o grego

Lembram-se como é que a Grécia ganhou o Euro’2004? Preparem-se, porque José Sócrates está pronto para usar uma táctica semelhante nas Legislaivas’2009.

Depois da goleada sofrida nas Eleições Europeias, o secretário-geral do PS parece um homem novo, mais sereno, mais dialogante, mais calmo, menos arrogante. Puro engano, meus amigos, puro engano. Ele está a atirar-vos areia para os olhos, o que, de resto, é uma especialidade dele. Cada gesto de Sócrates tem sempre múltiplas leituras.

A entrevista do primeiro-ministro à SIC representa um Sócrates a jogar com três centrais, dois laterais e dois trincos. Ou seja, a jogar completamente à defesa, com o autocarro estacionado à porta da baliza; sobram, portanto, dois extremos e um ponta de lança, que, nestes últimos tempos, parecem ausentes do jogo. Por agora, joga-se para o empate e venha daí um ponto, até porque o PSD não está a jogar grande coisa e não desenvolve jogadas de ataque que façam suar a defesa ou que dêem trabalho ao guarda-redes.

Parecem. Quando chegar a altura certa, um dos extremos vai recuar no terreno, apanha a bola, desenvolve o contra-ataque rapidíssimo, cruza para o ponta de lança e… se as coisas correrem bem, o guarda-redes está batido.

Não percebi ainda se Sócrates vai lançar o seu contra-ataque em pleno mês de Agosto (altura em que, devido à falta de notícias com que se debatem todos os jornais e telejornais, qualquer novidade tem sempre mais espaço) ou já em Setembro, numa altura em que o país volta a acordar para a realidade, depois de umas semanas de barriga para o ar ao sol. Cada timing tem as suas vantagens e desvantagens, que, decerto, serão friamente ponderadas por um Sócrates que já não é rei e senhor do campo de jogo.

A única coisa que sei é que Sócrates vai, de certeza, anunciar medidas extraordinárias nos próximos meses. E não me surpreendia se fosse uma descida do IVA de 20 para 19 por cento, embora o actual primeiro-ministro seja homem para ir muito além disso numa tentativa desesperada de ganhar votos. Não me espantava nada que chegasse mesmo ao cúmulo de dar um subsídio de desemprego a todos os trabalhadores precários (ou seja, a recibos verdes) ou que estendesse a atribuição desta prestação social para além do prazo normal, numa medida que, decerto, iria atirar a Segurança Social para a ruptura, mas que, ao mesmo tempo, seria do agrado de muitos eleitores - em especial daqueles que, desesperados e como forma de protesto, votaram no BE nas Europeias.

Enfim, deixo à vossa imaginação como se processará o contra-ataque de Sócrates e do PS.

Depois, se Sócrates tiver sentido táctico, deverá aguentar o jogo até ir a penálties e explorar as enormes fragilidades do guarda-redes adversário. Como tal, deverá forçar Manuela Ferreira Leite para um debate a dois, que, se for rejeitado pela líder do PSD, deixará a nada simpática senhora na condição de covarde. Se Ferreira Leite aceitar o duelo, perderá logo no primeiro momento em que abrir a boca, posto que lhe faltam a capacidade discursiva, a linguagem gestual, a rapidez de raciocínio, a pujança vocal e a argúcia do seu adversário; em compensação, a líder do PSD tem o dom nato de, em poucas palavras, dizer as maiores alarvidades do Mundo (Lembram-se dos homossexuais? Das obras para ucranianos e cabo-verdianos?).

Por isso vos digo: gostem ou não do senhor, não dêem Sócrates por derrotado. Ele ainda tem pernas para correr até ao final dos 90 minutos.


(Ok, hoje troquei as cartas por futebol. Só para variar um pouco)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A MANILHA VAI SECA (25): A Dama de Espadas que quer comer o Ás de Copas

As Eleições Europeias podem ser entendidas, do ponto de vista nacional, como um cartão amarelo ao PS, ao Governo e, sobretudo, a José Sócrates. Mas desengane-se quem achar que Manuela Ferreira Leite iniciou agora a sua caminhada vitoriosa para as Legislativas.

Não estou a dizer que a senhora não vai ganhar as eleições. Nada disso. Mas não vai ser nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada fácil.

Há, sobretudo, um momento que será particularmente difícil para Manuela Ferreira Leite: quando for desafiada para um debate com José Sócrates. É claro que a líder do PSD pode optar por fugir a confrontos directos com adversários (e, se calhar, era o melhor que fazia), mas isso seria passar ao eleitorado uma mensagem de covardia e de incapacidade de enfrentar, olhos nos olhos, verdadeiros grandes problemas.

Por outro lado, se optar debater com José Sócrates, há que contar com os parquíssimos dotes de oratória da líder social-democrata, que, ainda por cima, terá pela frente um poderoso orador, um verdadeiro encantador de serpentes. Se houver um debate a cinco (com Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa e Paulo Portas metidos na molhada), Ferreira Leite nem sequer se conseguirá fazer ouvir (a sua voz não é possante) e sairá do embate como a clara e óbvia derrotada.

No dia-a-dia de campanha, a elitista Ferreira Leite terá de apertar a mão a gente suja, cumprimentar descamisados e dar dois beijinhos a peixeiras. Não, não a estou a ver a fazer isto e, se o fizer, não terá aquele desembaraço de Paulo Portas, Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã… e, claro está, do sempre temível José Sócrates.

Se optar por realizar apenas asseados comícios e polidas palestras, Ferreira Leite estará novamente em desvantagem. E acredito, sinceramente, que a líder do PSD se balde à popularucha Festa do Pontal (e, já agora, à de Chão de Lagoa, na Madeira), optando antes por uma cinzenta Universidade de Verão em Castelo de Vide, onde as elites do PSD se masturbam asseadamente e debatem entre si ideias para o futuro, sem se terem de misturar com o povo sujo e imundo, de farfalhudos bigodes e falhas dentárias, que tresanda a suor, sardinha assada e salada de tomate.

Mas há pior: quem acompanha os debates quinzenais de José Sócrates na Assembleia da República sabe que o nosso primeiro-ministro é mestre na arte de tirar um trunfo da manga. Se o debate é sobre educação, Sócrates anuncia um complemento subsidiário e social de solidariedade para as famílias carenciadas dos alunos mais carenciados, mesmo que o dito abono, na verdade, apenas se aplique a jovens do sexo masculino chamados Zacarias ou Zebedeu. Com estes trunfos de última hora e umas palavras bem estudadas (aquele homem deve falar com o reflexo no espelho), Sócrates tem conseguido aguentar brilhantemente as investidas da oposição, ainda que necessite de corrigir uma falha grave: os seus discursos, transbordantes de energia e positivismo, são inacreditavelmente repetitivos.

Ora, até às Legislativas, Sócrates vai ter tempo para tirar muitos trunfos da manga. Se tiver, por exemplo, de baixar o IVA de 20 para 19 por cento (“para ajudar as famílias carenciadas e as empresas através de um incentivo ao consumo, que ajudará a criar mais emprego”, dirá ele), não tenham duvidas que nada deterá Sócrates, ainda que estes bónus possam arruinar completamente as finanças públicas portuguesas.

Por isso, meus amigos, não comparem Europeias com Legislativas. Para um Valete de Espadas (Paulo Rangel) foi fácil derrotar o mísero Dois de Paus do PS (Vital Moreira). Mas, nas Legislativas, a Dama de Espadas do PSD (Ferreira Leite) vai ter de comer o Ás de Copas do PS (Sócrates), o que, convenhamos, não será tarefa fácil. Além do mais, Sócrates é homem para pôr na mesa uma carta fora do baralho, como… um ONZE DE COPAS.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A MANILHA VAI SECA (21): Vital, a vil ganância que perdeu Sócrates e a ilusão do PSD

O PS de José Sócrates transformou-se num partido dominado pela ganância do voto. Tal é o voraz apetite por votos que tudo vale para encantar eleitores incautos, porventura tomados por asnos pelas gentes que dirigem o quartel do Rato.

Socialista de nome, o PS transformou-se naquilo que, certa vez, denominei de «partido plasticina». Basicamente, a estratégia do partido de José Sócrates será, a partir de uma posição central, tentar moldar-se aos gostos de todos os eleitorados e potenciais votantes, bem como aos interesses internos e secretos que pululam lá para os lados do edifício cor-de-rosa que fica perto das Amoreiras.

Numa hora, o PS pertence a uma esquerda livre e moderna (estilo BE), apoia a legalização do aborto até às 20 semanas e já fala no casamento entre pessoas de outro sexo. Noutra hora, Vieira da Silva vem a público admitir que poderá ter de reduzir drasticamente a entrada de imigrantes em Portugal, dando razão a Paulo Portas e ao seu CDS-PP. A seguir, temos a nacionalização do BPN, num reviver dos velhos tempos do PREC e dos dias em que o PCP até achava que era a maior força política portuguesa. Ao lado, com o BPP, temos um Estado mínimo e neoliberal (semelhante a muitos sectores do PSD), que apenas legisla e faz cumprir as leis, mas que não interfere no poder auto-regulador da economia (e os clientes do BPP que se lixem, pois claro). No meio de tudo isto, temos inúmeras interferências na actuação dos media, quase fazendo lembrar os tempos do lápis azul e da União Nacional. Pelo meio, temos um Estado social (o sonho de vários sectores do PSD e do PS) que distribui subsídios e apoios para ajudar as famílias em dificuldades com a crise. Logo a seguir, regressa o neoliberalismo mais cru e a selvajaria de mercado, com banca e gasolineiras a fazerem o que lhes dá na real gana.

No meio desta plasticidade ideológica, veio a escolha do cabeça-de-lista para as Eleições Europeias. Ao invés de apostar numa figura do aparelho, José Sócrates optou antes por um académico de Coimbra outrora ligado ao PCP, mas hoje rendido aos ideais socialistas (supostamente, os do PS). Com esta jogada, Sócrates tentou manter o seu eleitorado (que se diz de esquerda, embora não faça a mais pequena ideia do que tal possa significar), ao mesmo tempo que aposta num homem que, pela sua proximidade à esquerda mais radical, poderia travar o avanço da CDU e do BE. Ainda por cima, aquele arzinho de Avô Cantigas de Vital Moreira despertava, inicialmente, uma simpatia automática pelo cabeça-de-lista rosa.

Sócrates foi ganancioso e, numa altura em que julgava o PSD moribundo (em Fevereiro, a contestação a Manuela Ferreira Leite era mais do que muita) e o CDS-PP morto, partiu à conquista dos votos das duas áreas que ainda não tinha devorado.

Mas a ambição perde muita gente.

Vital Moreira era tido como um orador brilhante nos seus tempos de PCP, mas essa chama perdeu-se com um certo afastamento da política. O douto senhor de Coimbra (que é muito menos douto do que o Doutor Mento de Lisboa) até tem uma certa inclinação para discutir assuntos de índole europeia e, em certas matérias, até consegue falar de temas de Eleições Europeias na campanha para as Eleições Europeias.

Contudo, Vital tem também uma tendência nata para o insulto fácil, para a crítica disparatada e para acusações bizarras, como a de ligar o caso BPN a todo o PSD, quando o mesmo envolve apenas alguns antigos governantes do partido. Aliás, a ligação do PSD ao BPN é uma estratégia suicida de Vital Moreira (o eleitorado não é estúpido e percebe a covardia de ligar este caso a todo um partido com largos milhares de militantes e votantes), que, ainda por cima, está a dividir o PS em dois, já que há quem se desmarque de tais acusações e há quem as apoie e incentive (por exemplo, o inenarrável Augusto Santos Silva, figura da qual Vital se deve distanciar a todos os níveis se quiser ter um resultado decente no dia 7).

A tudo isto junta-se ainda um discurso que mescla uma defesa exacerbada do PS e do Governo (por vezes, raiando os limites do absurdo) e uma dissonância de posições entre Vital e o partido que o apoia (por exemplo, na recondução de Durão Barroso). Pelo meio ficou o incidente do 1.º de Maio, que não afastou o eleitorado do PCP do PS, mas sim demonstrou que comunistas e simpatizantes não aceitam pôr a cruz no novo partido de Vital Moreira.

Muito mais haveria a dizer de Vital Moreira, que, apesar de um ou outro bom momento na campanha, foi um tiro no pé de José Sócrates, que, ganancioso, arrisca-se a perder tudo. Acima de tudo, o primeiro-ministro necessitava de uma Rei de Copas que, pese embora algumas opções do Governo, dissesse ao eleitorado: “Vejam, ainda somos um partido de esquerda”.

No final, saiu-lhe um Duque de Paus trauliteiro e quezilento (e muito pouco hábil do ponto de vista político), que, neste momento, já perdeu até a simpatia que tinha graças às parecenças físicas com o lendário Avô Cantigas.

Por isso, se querem saber a minha opinião, estas eleições vão marcar um novo fôlego para o PSD, que, mesmo sem um candidato do outro mundo, não cometeu, nesta campanha, erros de palmatória como os de Vital Moreira (e, já agora, de Ana Gomes). Não sei se o PSD conseguirá ultrapassar ou igualar o PS no dia 7, mas acredito que vai aproximar-se mais do que muita gente esperaria há alguns meses.

Todavia, esta aproximação do PS não deve ser entendida como um cartão vermelho ao Governo de José Sócrates, mas sim como um «chumbo» ao candidato Vital Moreira, o professor de Coimbra que, segundo algumas notícias, faz de tudo menos ser professor. Por conseguinte, que o PSD não se iluda com os resultados de dia 7, porque, em campanha pura e dura para as Legislativas, José Sócrates é um osso muito mais duro de roer do que o Avô Cantigas de segunda categoria que o secretário-geral do PS foi desenterrar para estas Europeias…

sábado, 16 de maio de 2009

A MANILHA VAI SECA (8): Um deles salta fora do baralho

Depois de uns quantos posts gigantescos a propósito da possibilidade de se formar um novo Bloco Central, vou retomar novamente este tema para vos elucidar sobre alguns detalhes que não ficaram totalmente claros.

Quando se imagina um Bloco Central, parte-se do princípio que será uma aliança entre José Sócrates e Manuela Ferreira Leite. Mas esse princípio pode ser uma base pantanosa para analisarmos a questão.

Se as Eleições Legislativas forem ganhas pelo PSD, certo é que José Sócrates pede a demissão do cargo de secretário-geral do PS. Com efeito, ninguém imaginaria Sócrates (ou qualquer outro primeiro-ministro, com excepção de Pedro Santana Lopes) a aceitar uma pasta ministerial depois de ter sido líder de um Governo maioritário.

Se as Eleições Legislativas forem ganhas pelo PS e se o PSD alcançar tal derrota depois de maus resultados nas Autárquicas, certo é que os barões cor-de-laranja irão pedir a cabeça de Manuela Ferreira Leite numa bandeja. Na verdade, há muito que certas vozes pedem a demissão da actual presidente do PSD, mesmo antes de estar ir a votos. Com duas derrotas consecutivas (ou mesmo com apenas uma), ninguém lhe irá perdoar o que quer que seja.

Por isso, as diferenças de feitio entre Sócrates e Ferreira Leite não necessitam de ser postas à prova num eventual Bloco Central, onde só caberá um deles. O outro passa a ser carta fora do baralho.