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segunda-feira, 8 de junho de 2009

A MANILHA VAI SECA (26): Quem tem medo do bloco mau?

(Já detectei uma gralha tenebrosa neste texto. A mesma foi corrigida. Peço desculpa. Devo ter desligado o cérebro por instantes)


Confesso que os resultados do Bloco de Esquerda nas Eleições Europeias não me surpreenderam minimamente. Espantei-me, isso sim, com as percentagens avançadas por muitas sondagens, que, apesar de reconhecerem um crescimento do BE, indicavam que o partido de Francisco Louçã se ficaria pelos dois eurodeputados e abaixo da margem simbólica dos dois dígitos.

Há muito que desconfiava solenemente destas sondagens, que, suspeito, poderão ter tido o dedo de gente ligada ao Bloco Central. E quem me deu essa indicação não foram pessoas ligadas a empresas de sondagens (que, até prova em contrário, continuam a ser credíveis, apesar de falíveis), mas sim o PS e o PSD. Havia no ar demasiados sintomas de que o BE poderia incomodar, e muito, os rabos gordos e acomodados do Bloco Central, que não querem entregar as suas teias de influências a gente fora do «sistema».

Há muito que percebi o incómodo de alguns posts (no Abrupto) e declarações de José Pacheco em relação a um Bloco de Esquerda apresentado como um papão que, se não fosse travado, iria conduzir Portugal à mais profunda ruína. Em blogues de gente ligada ou com simpatias pelo PSD, o mesmo sentimento, as mesmas palavras, a mesma ira contida e não disfarçada, a mesma diabolização. Em muitos destes espaços, o sentimento continuou ontem à noite.

Esta diabolização do BE serve, sobretudo, para escamotear a grande derrota do PSD nas Europeias: a incapacidade de roubar votos de descontentes com o PS. É, neste momento, um ponto fraco do PSD e as hostes sociais-democratas deveriam reflectir seriamente sobre esta matéria, ao invés de elegerem terceiros à categoria de vilões - aliás, a táctica da diabolização deu asneira da grossa quando Vital Moreira e o PS decidiram apostar nela em força.

Responsabilizarem o BE pela criação de uma situação de ingovernabilidade do país é um disparate sem pés nem cabeça e um desrespeito pela vontade do eleitorado. Mais pessoas (muitas delas, tradicionais eleitores do Bloco Central) votaram no BE porque vêem nele uma alternativa, uma oportunidade de mudança e um programa que lhes agrada. Desrespeitar isso é desrespeitar a vontade do principal órgão de soberania em Portugal: o eleitorado.

Quanto ao PS, os sinais são muito anteriores e tiveram um dos seus pontos altos na escolha de Vital Moreira para cabeça-de-lista nas Europeias. Um ex-comunista para tentar roubar votos à dita extrema-esquerda. Uma aposta destas (ao invés da opção por um moderado) mostra, silenciosamente, que o BE é uma ameaça real (ao domínio eleitoral recente do PS e dos partidos do Bloco Central). Depois, seguiram-se muitas críticas acesas ao Bloco, que mais me pareciam declarações de medo do que acusações com pés e cabeça.

Por fim, o lançamento de uma lei de levantamento do sigilo bancário em Conselho de Ministros e a aprovação, por parte do PS, de uma proposta semelhante apresentada pelo BE na Assembleia da República. Este episódio surge semanas após Sócrates ter anunciado, para a próxima legislatura, a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, que, como se sabe, é uma das bandeiras do Bloco.

Estes dois últimos exemplos mostravam, há alguns meses, um PS a tentar colar-se desesperadamente ao BE, para tentar ver se salvava uma eventual transferência de votos para as hostes de Francisco Louçã.

Suspeito que, internamente, PS e PSD dispunham, há muito tempo, de sondagens que apontavam para um crescimento fortíssimo e sustentado do BE. Ambos tentaram atirar areia para os olhos, mas, no final, o povo foi quem mais ordenou.

Agora, se querem recuperar os votos que fugiram para o BE, só posso dar um conselho às gentes do PS e PSD: TRABALHEM MAIS E MELHOR. Em democracia, o poder não é um direito conquistado à nascença por partido algum.

A MANILHA VAI SECA (24): O Valete de Espadas contra o Dois de Paus

De ilustre desconhecido (pelo menos, para quem não acompanha minimamente o que se passa nas sessões da Assembleia da República) a nova estrela da política portuguesa foi um pequeno passo. Há mesmo quem o aponte como o novo Ás de Espadas, o futuro senhor dos sociais-democratas, o estratega e lutador que guiará o país a uma era de plena prosperidade.

Como as coisas mudam.

Paulo Rangel foi apresentado ao eleitorado como um pobre Dois de Espadas, solução de recurso de uma líder partidária que não conseguia tirar da manga Ases e Manilhas de trunfo. Já Vital Moreira, ilustre ex-comunista e douto docente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, iluminava-nos a alma com o seu sorriso terno e estudado, devidamente rematado com uma fisionomia de Avô Cantigas, que nos remetia para a ideia de estarmos diante do verdadeiro Rei de Copas do PS.

Puro engano.

Em pouco tempo, o Rei de Copas do PS transfigurou-se num quezilento e trauliteiro Dois de Paus, que, rapidamente, tomou para si o seguinte discurso: “Nós, PS, somos bons e salvadores da pátria! Vós, os demais, sois merda!” Sucede que, só com os votos da militância, o PS não vai a lado algum. Na verdade, as campanhas eleitorais não servem para masturbar os militantes do PS (que, em princípio, têm o voto garantido), mas sim para tentar captar eleitores que até andam a votar noutros lados. Se chamamos esses eleitores de “merda” (ou de corruptos, trauliteiros e anti-europeistas, como fez Vital), é melhor não contarmos com a simpatia destas gentes.

Tudo isto para dizer que Vital Moreira, homem que esteve demasiados anos afastado da política, foi tudo menos inteligente nesta campanha. Vou mesmo dizê-lo: FOI BURRO! Com todas as letras.

Apesar de haver uma significativa parcela de votantes que terá decidido optar pelo PSD como forma de penalizar o Governo de José Sócrates, o que é certo é que o mau resultado do PS deve-se, e muito, à miserável campanha do seu Dois de Paus.

Quanto a Rangel, desenganem-se os que o deidificam por causa da vitória nas Europeias. Na verdade, o Valete de Espadas do PSD teve apenas de fazer a sua campanha tranquilamente e de, tacticamente, jogar à defesa (com dois laterais, três centrais e um par de trincos), evitando cometer erros graves e aproveitando os erros grosseiros do adversário. Este foi, isso sim, o grande mérito de Paulo Rangel.

Mas esta foi uma vitória de Valete, não de Ás.

Contudo, a julgar pela manutenção dos dois eurodeputados do CDS-PP e pelo reforço de votos na CDU e no BE (sobretudo neste último), dá para perceber que, afinal, havia muita gente furiosa com o PS, Vital Moreira e, como é óbvio, José Sócrates.

E é aqui que se percebe que, afinal, Paulo Rangel até pode ser considerado como um derrotado destas eleições, já que não conseguiu capitalizar mais votos de descontentes. Com as benesses que o PS deu, Rangel e Ferreira Leite poderiam ter feito ainda melhor…

… ou, se querem saber, poderiam ter feito MUITO melhor.

A baliza esteve quase sempre sem guarda-redes e a defesa parecia estar embriagada. Com adversários destes, ganhar por 1-0 é perder. Se acham mesmo que Paulo Rangel é a nova estrela da política portuguesa...

A MANILHA VAI SECA (23): Ah, pois, eu sabia mas não queria dizer…

Antes mesmo de Manuela Ferreira Leite ter anunciado quem seria o cabeça-de-lista do PSD para as Eleições Europeias, já choviam críticas de toda a parte. Quando Paulo Rangel foi anunciado, choveram ainda mais críticas, ao ponto de o pântano onde os sociais-democratas chafurdavam se ter transformado num fétido lago de merda.

Na época, inúmeros analistas políticos e jornalistas (e bloguistas, já agora) consideraram a escolha de Paulo Rangel para cabeça-de-lista como um disparate monumental da líder social-democrata, já que o até então líder da bancada parlamentar do PSD era uma figura desconhecida do grande público, sem a projecção de um Luís Marques Mendes ou de um Marcelo Rebelo de Sousa (nomes que chegaram a ser amplamente falados, se bem se recordam). Houve muito quem também criticasse o facto de Manuela Ferreira Leite ter optado por divulgar o cabeça-de-lista às Europeias muito depois dos seus principais adversários na corrida ao Parlamento Europeu.

Curiosamente, no dia em que Paulo Rangel foi anunciado, elogiei, numa coluna de opinião (não digo onde a publiquei), a opção política de Manuela Ferreira Leite. Apesar de não gostar minimamente da senhora, confesso que fiquei favoravelmente surpreendido com o tacto político de uma figura que, reconheço, até então julgava ser um calhau com olhos. Foi a partir deste momento que reconheci que estava a subestimar a senhora e comecei a dar mais crédito a Ferreira Leite, apesar de continuar a achá-la homofóbica, racista e nada transparente nas suas políticas supostamente de verdade.

O que me levou a elogiar Paulo Rangel quando quase ninguém o fazia? Várias coisas.

Em primeiro lugar, é preciso ter em linha de conta que, com Legislativas e Autárquicas no horizonte mais próximo, nenhum partido vai querer jogar Ases e Manilhas numa vaza que muitos portugueses nem sequer sabem para que serve. Por isso, a generalidade dos partidos opta antes por lançar Valetes e Damas, que, ainda assim, têm de fazer alguns bons e saborosos pontos. Paulo Rangel ainda não é um Ás do PSD, mas pareceu-me um excelente Valete, com a vantagem de ser bastante jovem e de não estar conotado (e queimado) com anteriores governos de Cavaco Silva ou Durão Barroso (apesar de ter sido secretário de Estado no efémero executivo de Pedro Santana Lopes). Em suma, era uma figura pouco gasta, que representava, ao mesmo tempo, renovação e juventude, algo que figurões como Luís Marques Mendes não poderiam apresentar. Além do mais, por ser um homem de Manuela Ferreira Leite, Rangel evitava que um eventual sucesso nas Europeias não ficasse totalmente dissociado da líder, como sucederia no caso de Marques Mendes ou Marcelo avançarem - na verdade, se estes dois últimos vencessem, muita gente acharia que eles seriam melhores líderes do que a própria Ferreira Leite, o que só iria agravar a instabilidade dentro do PSD. Por fim, lembro-me (e é pena não ter o texto comigo) de elogiar o timing do anúncio - por ser demasiado tardio, pôs toda a gente a falar da escolha de Paulo Rangel e deu visibilidade a um candidato que muito carecia dela.

Há coisa de dois meses (quando esta mesa ainda nem um projecto era), consegui ver tudo isto. Tenho pena que muitos dos que falam em Rangel como a nova estrela da política portuguesa (há quem diga que será o futuro líder do PSD) não tenham percebido as vantagens deste candidato em tempo devido, sendo que as mesmas poderiam ser descortinadas com um pouco de reflexão sobre o assunto.

Na verdade, essa necessidade de reflexão é que me leva a não comentar os resultados das Europeias demasiadamente em cima do apuramento dos resultados. Até porque, se reflectirmos bem, os resultados escondem muitas verdades ocultas…

domingo, 7 de junho de 2009

A MANILHA VAI SECA (22): Uma razão óbvia para votar nas Eleições Europeias e para não querer mal à União Europeia

O papel dos Estados Unidos enquanto principal potência política, económica e militar do planeta é algo relativamente recente e que pode ser definido em várias fases distintas.

Actualmente, os Estados Unidos são, para o bem e para o mal, o principal motor da economia mundial, sendo prova disso mesmo o facto de a crise do crédito de risco norte-americano ter arrastado todo o Mundo para uma recessão como não se via há largas décadas. Não obstante, a verdade é que os Estados Unidos só assumem o lugar de principal potencial mundial após o período que vai de 1989 a 1991, anos que marcam a rápida desintegração do Bloco Socialista e, no final, a estranha implosão da própria União Soviética.

Entre 1945 e 1991, o Mundo esteve bipolarizado entre Ocidente e Leste, com os Estados Unidos a assumirem um domínio mais ou menos expresso numa das «metades» e a União Soviética a transformar a sua «metade» num bizarro aglomerado de estados-satélite. Pelo meio, encontrávamos sempre uns quantos não-alinhados, mas, grosso modo, poderíamos dizer que existiam dois grandes blocos no planeta Terra.

Mas… e antes de 1945?

Bem, antes do término da II Guerra Mundial, a primazia mundial discutia-se, essencialmente, em solo europeu. Contudo, os conflitos armados de 1914-1919 e de 1939-1945 acabaram por arrasar, dividir e enfraquecer brutalmente o Velho Continente. De súbito, países como a França, a Grã-Bretanha ou mesmo a (então jovem) Alemanha teriam uma palavra a dizer em termos globais, sendo remetidos a um papel secundário por um newcomer - por uma antiga colónia, para ser ainda mais cru.

Por aqui se percebe que o que, realmente, enfraqueceu a Europa foram as guerras internas, sobretudo os conflitos mundiais. Para além da destruição e da perda de vidas, a Europa provou, neste período, não estar à altura de liderar o Mundo e é por isso que entrou em cena este agente do Novo Mundo, os EUA, que, em ambas as ocasiões, ajudou um dos lados da contenda a desfazer o impasse em que caíra a guerra.

No pós-guerra, as coisas mudaram radicalmente e, aos poucos, a Europa foi percebendo que teria de procurar uma saída para a posição subalterna em que se deixara colocar. Um primeiro passo nesse sentido foi dado em 1951, com a constituição da Comunidade Económica do Carvão e do Aço pelo Tratado de Paris; seis anos mais tarde, em 1957, o Tratado de Roma instituía a nossa conhecida Comunidade Económica Europeia (CEE), a qual, curiosamente, contava com seis países que estiveram em lados opostos na II Guerra Mundial: de um lado, as duas potências do Eixo, Itália e Alemanha (neste caso, apenas a sua metade ocidental, a RFA), e, do outro lado, França, Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo.

De súbito, países que lutaram em trincheiras opostas alguns anos antes, apertavam as mãos, chamavam-se «irmãos» e instituíam a paz como garante da prosperidade económica, financeira e social.

Por isso, sempre que criticarem a União Europeia, lembrem-se que este clube dos 27, com todos os seus muitos defeitos, deu-nos uma das mais preciosas dádivas que a espécie humana pode ter: a paz. Agora que os 27 são como irmãos (por vezes, algo quezilentos e ciumentos uns dos outros), não mais guerreiam entre si e não mais veremos sangue derramado dentro das fronteiras daquilo a que chamamos União Europeia.

Eu sei. A UE não é perfeita.

Também sei. Promete mais do que cumpre.

Sim, eu sei. Há irmãos mais velhos que mandam calar irmãos mais novos.

Mas há paz. Pensem nisso.

E, já agora, votem. Em quem quiserem. Desde que votem. Um voto é uma voz que diz: “Eu quero a paz na Europa, eu quero que as guerras de outras eras fiquem confinadas aos livros de História”. Eu voto. Não interessa em quem. Eu amo a paz.

E tu?

sexta-feira, 5 de junho de 2009

DOIS DE PAUS (2): Vital Moreira (again)

(Este post está em constante actualização por motivos óbvios)

Confessa-vos o Dr. Mento que só em casos muito excepcionais atribui a mais vil distinção que esta mesa de jogo pode atribuir a quem quer que seja. Porém, este Dois de Paus não foi por mim atribuído, mas sim por…

…por uma data de gente que acha que pode mandar umas postas naquela coisa chamada blogosfera, onde, por acaso, todos nós nos encontramos neste momento.

Ok, eu confesso: concordo com o Dois de Paus para Vital Moreira. Mas esta mesa de jogo até nem foi das que mais cartas de Paus deu ao Avô Cantigas que se diz professor, mas que não faz grande questão em dar aulas ou em pôr o rabinho no Conselho Científico da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Até vos lembro que, nalgumas ocasiões, elogiei o dito senhor de alvos bigodes.

Bem, deixemo-nos de conversas e vamos ao que interessa. Leiam só algumas frases retiradas de uns quantos blogues (vai na volta, do blogue de alguém que me está a ler neste momento) e digam-se lá se o Dois de Paus não é bem atribuído.

- “A vergonha é muito grande. O candidato basófias afinal cumpre inteiramente a máxima de "a montanha pariu um rato'. como diria o Rei D. Juan Carlos "Por quê no te callas, Vital?". (Pau Para Toda a Obra)

- “(…)mais uma sessão de esclarecimento sobre esta inovação intelectual honestíssima «BPN ou 'roubalheira' do PSD», coisa desbragada de se dizer!, tudo embrulhado no celofane daquele pensamento único, daquela linguagem rasca que o notabilizou para a posteridade. Este Vitral Moreira quebradiço estilhaça com pouco. E vai lavar em cacos o PS.” (PALAVROSSAVRVS REX)

- “Como se não bastasse, José Sócrates cometeu um grave erro de estratégia eleitoral, ao escolher para cabeça de lista às europeias um ex-comunista e ex-estalinista, um Professor de Coimbra que prometia grande elevação no debate (lembram-se?) mas acabou todos os dias a atirar lama sobre partidos e adversários, a fim de tentar esconder a sua inépcia e os inúmeros telhados de vidro do PS…” (31 da Armada)

- “É vergonhoso para Vital e é vergonhoso para a democracia. E os socialistas sabem bem o que é ver o partido responsabilizado ou associado a crimes ou possíveis crimes de militantes e dirigentes seus: Casa Pia, Freeport ou o Caso da Valor Alternativo, da qual são sócios Dias Loureiro e Jorge Coelho, e que, curiosamente, não tem sido propriamente tema de conversa.” (Corta-fitas)

- “Vital Moreira deu um tiro no pé. Insiste em não perceber que deu um tiro no pé e continua com o dedo no gatilho e com a pistola apontada ao pé.” (Delito de Opinião)

- “Mas alguém percebe o desempenho anquilosado e desajustado da campanha eleitoral do PS. Falam a várias vozes e os argumentos são contraditórios. VM desce a um nível que nunca se esperaria de um constitucionalista com o seu currículo. Cada vez menos os militantes se revêem no representante bastardo que lhes impuseram.” (A RODA)

- “(…) facto de dentro de pouco tempo a campanha chegar ao fim e podermos vê-lo pelas costas (ah! se fosse verdade!...) quando finalmente rumar ao Parlamento Europeu, é pequena consolação” (“Cantigueiro”)

- “Vital Moreira (PS) foi completamente desastrado, não conseguindo sequer ser simpático. Sorriso completamente atoleimado, entrando por caminhos que não domina, sem rei nem roque, limitou-se a ser "his master voice" (a voz do dono), que é como quem diz a voz de Sócrates. Paulo Rangel (PSD) aproveitou, e bem, as palermices e a completa ignorância e inaptidão de Vital Moreira. Não teve muito trabalho para ganhar votos. Foi Vital Moreira quem os perdeu.” (.Blog)

- “Vital Moreira achou por bem prolongar a sua vergonhosa insistência no “caso BPN”, afirmando num comício do PS que o PSD se tem de “dissociar daquela situação” sob pena de os eleitores perguntarem “que medo tem o PSD para não se dissociar do caso BPN”. Curiosa teoria: segundo este especialista em Direito, enquanto uma pessoa ou instituição não se “dissocia” de algum acto ou comportamento menos respeitável, então deveremos ser levados a pensar que há razões para pensarmos que eles estão “associados” a eles. Por essa ordem de ideias, o PSD não é apenas responsável pelas “tranpolinices” de “Oliveira e Costa e tutti quanti”: Manuela Ferreira Leite, que eu saiba, não se “dissociou” do Holocausto, e não tardará que os cidadãos se perguntem se ela não será nazi;” (O Insurgente)

- “Em vez da explicação que o mínimo respeito pelo seu eleitorado exigiria, continua a teoria da cabala.” (O país do Burro)

- “No seu Diário de Candidatura, Vital Moreira escreve: "A Marinha Grande nunca me desaponta.". Tendo em conta que, em 1986, Vital Moreira, salvo erro, ainda pertencia ao PCP, alguém que lhe pergunte se este reiterado não desapontamento inclui o happening de 1986 ou se se estava a referir a outra coisa qualquer - à qualidade do vidro ou isso. Se as gaffes (e esta é claramente uma apreciação subjectiva) do candidato tivessem reflexo directo nas sondagens, ou seja, se alguém ligasse ao que Vital Moreira diz, o PS já estava atrás do Bloco.” (jugular)

- “Depois de ouvir o senhor Moreira falar na roubalheira e pedir ao PSD que se demarcasse, não é que destacados socialistas também por lá andaram? Bom, como o homem transpira coerência, logo à noite já vai pedir ao PS que se demarque desta roubalheira.” (Fliscorno)

- "Do lado do PS a surpresa foi o candidato. Quando foi anunciado, pensei que Sócrates tinha escolhido um trunfo. Afinal a campanha demonstrou que Vital Moreira é uma carta fora do baralho. Sairá rapidamente do palco no próprio dia das eleições." (4R – Quarta República)

- "Uma pessoa liga a televisão nestes dias e prepara-se para o pior. O pior é obviamente encontrar Vital Moreira acompanhado de Ana Gomes numa rua qualquer do país. Os eleitores do PS são seres humanos e, portanto, também devem sentir algo assim. Porque o que Vital Moreira diz – esqueçamos Ana Gomes – só a custo se distingue do mais rasteiro populismo." (Papa Myzena)

- "Vital Moreira continua infatigável no seu papel , aquilo a que Edward Said chamou de “elasticidade servil para com o seu campo”. Vital não esquece que é o pretexto de esquerda na campanha socialista. Como o seu secretário geral segrega ideologia de direita com a naturalidade com que a saliva se lhe acumula nos cantos da boca, a protestada pertença à esquerda de Vital soa forçada naquela exibição de efeitos especiais, loas ao poder e fatiota de Beverley Hills. Então Vital inventou uma designação para a outra esquerda, a que recorre sempre que as câmaras lhe dedicam algum espaço: chama-lhe radicais." (A NATUREZA DO MAL)


Enfim, são apenas alguns exemplos retirados meio ao acaso, mas que confirmam uma impressão que já tinha: sucedem-se as críticas a Vital Moreira (especialmente pela associação torpe e mesquinha de todo o PSD ao caso BPN, ignorando que se poderia fazer o mesmo em relação ao PS e a outros casos cabeludos) e escasseiam os elogios. Por isso, o Dois de Paus é bem metido. E se houvesse um Três de Paus, o prémio ia direitinho para José Sócrates pela escolha desastrada e desastrosa do seu cabeça-de-lista.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A MANILHA VAI SECA (21): Vital, a vil ganância que perdeu Sócrates e a ilusão do PSD

O PS de José Sócrates transformou-se num partido dominado pela ganância do voto. Tal é o voraz apetite por votos que tudo vale para encantar eleitores incautos, porventura tomados por asnos pelas gentes que dirigem o quartel do Rato.

Socialista de nome, o PS transformou-se naquilo que, certa vez, denominei de «partido plasticina». Basicamente, a estratégia do partido de José Sócrates será, a partir de uma posição central, tentar moldar-se aos gostos de todos os eleitorados e potenciais votantes, bem como aos interesses internos e secretos que pululam lá para os lados do edifício cor-de-rosa que fica perto das Amoreiras.

Numa hora, o PS pertence a uma esquerda livre e moderna (estilo BE), apoia a legalização do aborto até às 20 semanas e já fala no casamento entre pessoas de outro sexo. Noutra hora, Vieira da Silva vem a público admitir que poderá ter de reduzir drasticamente a entrada de imigrantes em Portugal, dando razão a Paulo Portas e ao seu CDS-PP. A seguir, temos a nacionalização do BPN, num reviver dos velhos tempos do PREC e dos dias em que o PCP até achava que era a maior força política portuguesa. Ao lado, com o BPP, temos um Estado mínimo e neoliberal (semelhante a muitos sectores do PSD), que apenas legisla e faz cumprir as leis, mas que não interfere no poder auto-regulador da economia (e os clientes do BPP que se lixem, pois claro). No meio de tudo isto, temos inúmeras interferências na actuação dos media, quase fazendo lembrar os tempos do lápis azul e da União Nacional. Pelo meio, temos um Estado social (o sonho de vários sectores do PSD e do PS) que distribui subsídios e apoios para ajudar as famílias em dificuldades com a crise. Logo a seguir, regressa o neoliberalismo mais cru e a selvajaria de mercado, com banca e gasolineiras a fazerem o que lhes dá na real gana.

No meio desta plasticidade ideológica, veio a escolha do cabeça-de-lista para as Eleições Europeias. Ao invés de apostar numa figura do aparelho, José Sócrates optou antes por um académico de Coimbra outrora ligado ao PCP, mas hoje rendido aos ideais socialistas (supostamente, os do PS). Com esta jogada, Sócrates tentou manter o seu eleitorado (que se diz de esquerda, embora não faça a mais pequena ideia do que tal possa significar), ao mesmo tempo que aposta num homem que, pela sua proximidade à esquerda mais radical, poderia travar o avanço da CDU e do BE. Ainda por cima, aquele arzinho de Avô Cantigas de Vital Moreira despertava, inicialmente, uma simpatia automática pelo cabeça-de-lista rosa.

Sócrates foi ganancioso e, numa altura em que julgava o PSD moribundo (em Fevereiro, a contestação a Manuela Ferreira Leite era mais do que muita) e o CDS-PP morto, partiu à conquista dos votos das duas áreas que ainda não tinha devorado.

Mas a ambição perde muita gente.

Vital Moreira era tido como um orador brilhante nos seus tempos de PCP, mas essa chama perdeu-se com um certo afastamento da política. O douto senhor de Coimbra (que é muito menos douto do que o Doutor Mento de Lisboa) até tem uma certa inclinação para discutir assuntos de índole europeia e, em certas matérias, até consegue falar de temas de Eleições Europeias na campanha para as Eleições Europeias.

Contudo, Vital tem também uma tendência nata para o insulto fácil, para a crítica disparatada e para acusações bizarras, como a de ligar o caso BPN a todo o PSD, quando o mesmo envolve apenas alguns antigos governantes do partido. Aliás, a ligação do PSD ao BPN é uma estratégia suicida de Vital Moreira (o eleitorado não é estúpido e percebe a covardia de ligar este caso a todo um partido com largos milhares de militantes e votantes), que, ainda por cima, está a dividir o PS em dois, já que há quem se desmarque de tais acusações e há quem as apoie e incentive (por exemplo, o inenarrável Augusto Santos Silva, figura da qual Vital se deve distanciar a todos os níveis se quiser ter um resultado decente no dia 7).

A tudo isto junta-se ainda um discurso que mescla uma defesa exacerbada do PS e do Governo (por vezes, raiando os limites do absurdo) e uma dissonância de posições entre Vital e o partido que o apoia (por exemplo, na recondução de Durão Barroso). Pelo meio ficou o incidente do 1.º de Maio, que não afastou o eleitorado do PCP do PS, mas sim demonstrou que comunistas e simpatizantes não aceitam pôr a cruz no novo partido de Vital Moreira.

Muito mais haveria a dizer de Vital Moreira, que, apesar de um ou outro bom momento na campanha, foi um tiro no pé de José Sócrates, que, ganancioso, arrisca-se a perder tudo. Acima de tudo, o primeiro-ministro necessitava de uma Rei de Copas que, pese embora algumas opções do Governo, dissesse ao eleitorado: “Vejam, ainda somos um partido de esquerda”.

No final, saiu-lhe um Duque de Paus trauliteiro e quezilento (e muito pouco hábil do ponto de vista político), que, neste momento, já perdeu até a simpatia que tinha graças às parecenças físicas com o lendário Avô Cantigas.

Por isso, se querem saber a minha opinião, estas eleições vão marcar um novo fôlego para o PSD, que, mesmo sem um candidato do outro mundo, não cometeu, nesta campanha, erros de palmatória como os de Vital Moreira (e, já agora, de Ana Gomes). Não sei se o PSD conseguirá ultrapassar ou igualar o PS no dia 7, mas acredito que vai aproximar-se mais do que muita gente esperaria há alguns meses.

Todavia, esta aproximação do PS não deve ser entendida como um cartão vermelho ao Governo de José Sócrates, mas sim como um «chumbo» ao candidato Vital Moreira, o professor de Coimbra que, segundo algumas notícias, faz de tudo menos ser professor. Por conseguinte, que o PSD não se iluda com os resultados de dia 7, porque, em campanha pura e dura para as Legislativas, José Sócrates é um osso muito mais duro de roer do que o Avô Cantigas de segunda categoria que o secretário-geral do PS foi desenterrar para estas Europeias…

A MANILHA VAI SECA (20): Paulo Rangel e as eleições… são para quê mesmo?

No mesmo comício de Viseu onde Manuela Ferreira Leite falou de impostos (ver post abaixo), o cabeça-de-lista social-democrata às Eleições Europeias, Paulo Rangel, afirmou, alto e bom som, que o PSD “é o único partido que está em condições de derrotar o PS” e de “dar um cartão amarelo ao engenheiro Sócrates”. “Nós temos de o derrotar e não há mais nenhum voto, não há mais nenhum partido em condições de derrotar o PS”, sublinhou ainda a nova estrela «laranja», deixando um pedido a cada eleitor: “Ir ao fundo da sua alma portuguesa encontrar as forças, a resistência, a energia para retomar um sonho para Portugal. Faço aqui um apelo ao voto, um apelo dramático, porque é um apelo nacional, é um imperativo nacional, um dever de consciência. É o mínimo e é também o máximo que podemos fazer pelo nosso país”.

Toc, toc, toc!

Está alguém em casa?

Paulo, o que disseste está muito certo e é muito bonito, mas… sabes, TU és candidato às Eleições Europeias e não às Legislativas. E é de Eleições Europeias que se vai falar no dia 7. Eu sei, os portugueses estão-se nas tintas para as Europeias e nem sequer sabem onde fica Estrasburgo. Muitos, vai na volta, até acham que os eurodeputados vão para Bruxelas, do mesmo modo que as meninas boas vão para o céu (e as más para qualquer sítio).

Mas custava muito fazer um esforço para falar da União Europeia e do Parlamento Europeu? Ou será que tu, Paulo, e o teu partido já renunciaram de vez às Europeias e entraram logo em campanha pra as Legislativas?

quarta-feira, 27 de maio de 2009

A MANILHA VAI SECA (14): E não é que ele volta a ter razão?

Já aqui havia dado toda a razão do Mundo a Vital Moreira e volto a fazê-lo novamente.

Se descerem alguns posts, vão encontrar um texto onde falo do facto do PSD e CDS-PP estarem integrados na mesma família política europeia. Isto significa, como bem alertou o cabeça-de-lista do PS, que, uma vez chegados a Estrasburgo, os eurodeputados do PSD e CDS-PP sentam-se na bancada do PPE (partido Popular Europeu), a família que junta forças políticas de matriz conservadora e democrata-cristã (ou seja, partidos que têm tudo a ver com o CDS-PP e muito pouco com o PSD, que finge ser uma coisa que não é para pertencer à maior bancada do Parlamento Europeu).

Mas Vital Moreira não se ficou por aqui. Agora, veio a público lembrar que um fenómeno idêntico sucede com o PCP e o BE, dois partidos que, em Estrasburgo, integram o Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia. Ou seja, em Portugal, PCP e BE apresentam duas visões bem diferentes (e, por vezes, antagónicas) sobre o que deve ser aquilo que eles dizem ser a esquerda, mas, no Parlamento Europeu, tais diferenças esbatem-se e os eurodeputados de ambos os partidos sentam-se lado a lado.

Mas a confusão não se fica por aqui. O Partido Ecologista «Os Verdes», que concorre sempre coligado com o PCP (dando origem à CDU), não integra o Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia, mas sim uma outra família política: o Grupo dos Verdes.

Ou seja, ao votar na CDU, o eleitor está, na verdade, a eleger eurodeputados para duas famílias políticas diferentes… sendo uma delas a mesma de um partido rival, o BE.

Confuso?

É, não é?

Neste aspecto particular, saúdo a coerência do PS, que alinha com o PSE, o Partido Socialista Europeu, família política à qual pertence, de facto. Vital Moreira tem consciência deste trunfo e está a usá-lo para desbaratar o jogo dos seus adversários. Bem jogado, sim senhor.

Nota: Um par de elogios a Vital Moreira não significa que esteja a fazer campanha pelo senhor ou pelo PS. Nem sequer significa que vá votar no Avô Cantigas e nos seus amigos cor-de-rosa. Contudo, “a César o que é de César”: estes elogios são merecidos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A MANILHA VAI SECA (13): Estrasburgo e o meu querido mês de Junho

Uma das maiores falhas da União Europeia é a inexistência de uma lei eleitoral única para as Eleições Europeias, que, salvo umas quantas normas, continuam a realizar-se ao abrigo das legislações eleitorais vigentes em cada um dos 27 estados-membros. Uma das poucas normas comuns diz respeito justamente ao facto de as eleições terem de se realizar entre a quinta-feira e o domingo de uma mesma semana.

Isto significa que, apesar de a legislação eleitoral portuguesa conferir ao Presidente da República o poder (e a obrigação) de marcar a data para as Eleições Europeias (desde que o faça com 60 dias de antecedência), na prática, Cavaco Silva só tinha como alternativa o dia 7 de Junho.

Sucede que este domingo antecede uma semana com dois feriados (10, quarta-feira e 11, quinta-feira), que, decerto, será aproveitada por muitos para uma semana de repouso, justamente num dos meses mais agradáveis do ano. Na verdade, com apenas três dias de férias, será possível gozar nove dias de descanso, o que não deixa de ser um excelente negócio para muitos trabalhadores portugueses.

Esta semana mágica começará na tarde/noite de sexta-feira, dia 5, e só terminará ao cair do dia 14, domingo. Isto significa que as Eleições Europeias, que registam sempre níveis de abstenção brutais em toda a Europa, vão calhar a meio desta semana sacrossanta.

“Espero que a campanha decorra com serenidade, que seja uma campanha esclarecedora e que mobilize os portugueses para que, no dia 7 de Junho, não fiquem em casa, não vão de férias, não aproveitem os feriados que vêm a seguir e compareçam nos locais de voto e exerçam o seu direito cívico”. Quem tais palavras proferiu chama-se Aníbal António Cavaco Silva e é um ilustre economista e político português, que, nascido em Boliqueime ao 15.º dia do mês de Julho do ano de 1939, guindou a sua bem-sucedida carreira pública até subir ao mais alto degrau que um cidadão luso pode almejar: a Presidência da República.

Pois é, meu caro Aníbal, bem te podes queixar da má sorte de teres de marcar eleições para uma semana tão repleta de tão saborosos feriados (o 13 de Junho, em Lisboa, não conta, porque calha a um sábado). Ainda por cima, a semana de doces dias de lazer tem lugar naquele mês em que as tépidas águas do mar bailam por entre areais dourados, que, com o seu chamamento mágico, fazem cair nas suas garras (ou areias) centos e mais centos de eleitores.

Contudo, a verdade é que a realização da semana das Eleições Europeias é decidida em Estrasburgo, uma cidade sem praias, nem mar. Poder-se-ia argumentar que o Parlamento Europeu não pode tomar em atenção todas as especificidades locais de todos os 27 estados-membros e que os ilustres eurodeputados não podem estar a marcar as eleições noutra data por causa de Portugal, das suas praias e dos seus calores amenos de Junho.

Na verdade, há quem argumente que o Parlamento Europeu se está a cagar para Portugal. Mas se em Portugal e nas suas especificidades cagam, que os eurodeputados não contem com a merda do voto dos portugueses.

A MANILHA VAI SECA (12): PSD «vestido» de conservador para ser do PPE

Há coisa de um mês, publiquei em papel (mas não neste espaço) um artigo de opinião no qual chamava a atenção para uma questão que acabou por ser levantada por Vital Moreira.

Diz o ilustre socialista nas horas vagas e cabeça-de-lista do PS às Eleições Europeias que o PSD e o CDS-PP “estão reunidos no PPE, onde aliás não se distinguem”. Por isso, argumentou o douto académico de Coimbra, “em Portugal é a mesma coisa votar PSD ou CDS, porque no Parlamento Europeu há apenas PPE”.

Dou toda a razão do Mundo a Vital Moreira, que alertou o eleitorado para uma questão deveras pertinente: os eurodeputados são eleitos através das listas dos partidos nacionais, mas, uma vez chegados a Estrasburgo, sentam-se nas bancadas das grandes famílias partidárias europeias. E é aqui que começa a confusão.

O PS integra a bancada do PSE, o Partido Socialista Europeu, a segunda maior família política de Estrasburgo. Até aqui, tudo bem.

Contudo, o Parlamento Europeu é dominado pelo PPE (Partido Popular Europeu), que une, essencialmente, forças políticas europeias de matriz conservadora ou democrata-cristã, como, por exemplo, o PP espanhol ou o Conservative Party inglês. Se acham que o PPE seria, por definição, o espaço político de acolhimento do CDS-PP, fiquem a saber que o partido de Paulo Portas só há muito pouco tempo aderiu a esta família política, onde, durante largos anos, a representação portuguesa esteve a cargo do PSD… que não é democrata-cristão, nem conservador.

Confuso?

Para mim é.

Nas próximas Eleições Europeias, o PSD poderá, finalmente, aproximar-se novamente do PS, mas será justamente no sufrágio em que o partido de Manuela Ferreira Leite se tem de «mascarar» de CDS-PP para entrar na maior família política europeia. De facto, o PSD é um partido estranho e uma das maiores singularidades da política portuguesa, mas este é um tema para um próximo (e longo) post. Por agora, com esta questão, deixo-vos só um aperitivo…

domingo, 24 de maio de 2009

A MANILHA VAI SECA (11): Eles, europeus

“No dia 7 de Junho, vamos mesmo votar para quê?”

A pergunta foi-me dirigida por uma amiga na passada sexta-feira, a meio de uma amena cavaqueira. Curiosamente, já outras pessoas me tinham feito a mesma questão.

Há cartazes e outdoors por toda a parte. Há notícias e debates nos jornais, nas rádios, nas televisões. Há comícios e iniciativas políticas por toda a parte. Ninguém liga. De súbito, Portugal é tomado por uma estranha letargia que faz com que toda a elite política cá do burgo se tivesse transformado em algo tão visível como um Dez de Paus num jogo de Sueca.

Eleições Europeias.

Diz-vos alguma coisa?

Se calhar, o problema não será exactamente esse. Se calhar, deveria colocar a questão noutros termos: Europa, diz-vos alguma coisa?

Sabemos que somos europeus porque tal nos foi ensinado na escola. Geograficamente, faz sentido. Além do mais, sabemos que não somos africanos, nem asiáticos. Ou seja, devemos ser europeus. E acabou por aí. O “Nós, Europeus” de Vital Moreira e do PS é muito bonito, dá um ar sofisticado à coisa, mas nada diz à esmagadora maioria dos portugueses. Na verdade, nada diz à esmagadora maioria da classe política portuguesa, que parece mais interessada em discutir assuntos de índole interna (já com as Legislativas em mira) do que em debater as verdadeiras questões da União Europeia, as quais não se esgotam na adesão da Turquia ou no Tratado de Lisboa. Há matérias relacionadas com trabalho, direitos humanos, migrações, ambiente, economia, finanças e muitos outros temas que deveriam fazer parte dos debates e das conversas do dia-a-dia…

Isto se os portugueses fossem, de facto, europeus.

Uma das questões mais analisadas quando se olha para a tabela da Liga Sagres é ver quem consegue o acesso às competições europeias. “Ir à Europa”, como vulgarmente se diz. Dito assim, parece que os clubes portugueses jogam num campeonato extra-europeu, um pouco como sucede com Israel.

Quando José Manuel Durão Barroso abdicou do cargo de primeiro-ministro de Portugal para presidir à Comissão Europeia, muitos proferiram a sentença: “Fugiu para a Europa”. Não só não fugiu, como, tecnicamente, nunca deixou de estar no Velho Continente. Mas, na prática, Lisboa e Bruxelas pertencem a continentes diferentes.

Há, em tudo isto, um resquício do “Orgulhosamente Sós” do Estado Novo. Mas há também uma forma de sentir de um povo, que imagina a Europa como sendo composta por países como a Alemanha, França, Grã-Bretanha, Bélgica, Suécia, Dinamarca, Finlândia ou os Países Baixos. Há um povo que sente que, entre Portugal e Espanha, há um fosso de desenvolvimento (que começa nas próprias mentalidades) demasiado grande para poder considerar que ambos os países pertencem ao mesmo continente. E se tão grande é a distância de Lisboa para Madrid, o que não dizer do caminho para Paris, Londres ou Berlim. Tomamos como referência os mais desenvolvidos países do Velho Continente e sentimo-nos pequeninos, insignificantes, distantes… e diferentes dos europeus.

É um estado de alma.

Por isso, o Dr. Mento não necessita de ver as cartas que saíram a cada um para saber como vai acabar este jogo: Com uma abstenção superior a 60 por cento.

Querem apostar?

quinta-feira, 30 de abril de 2009

A MANILHA VAI SECA (1): Vital Moreira, o europeu

Quando José Sócrates apresentou Vital Moreira como cabeça-de-lista do PS às Eleições Europeias, muito boa gente interpretou esta opção política como uma jogada de Copas, em que o primeiro-ministro tentava apelar ao coração de toda a esquerda portuguesa.

Contudo, com o passar do tempo, o Rei de Copas de Sócrates começa mais a parecer um duque de um naipe qualquer, que o próprio ainda não percebeu qual é ao certo. De comunista ferrenho (de proletário bigode e tudo), Vital Moreira passou a socialista em part-time (ou seja, mais socialista do que a maior parte dos militantes e dirigentes do Partido Socialista) e, um dia destes, ainda o vemos a meter a cruzinha no partido do Dr. Paulo Portas.

Num debate promovido pela JS na Faculdade de Economia do Porto, Vital Moreira considerou o PS “o partido mais europeísta” de Portugal, recordando que foi Mário Soares, então primeiro-ministro do I Governo Constitucional, quem, pela primeira vez, em 1976, defendeu a integração de Portugal na CEE. Vital Moreira relembrou igualmente que a proposta «A Europa connosco» não foi apoiada por qualquer outro partido… inclusivamente pelo próprio PCP, partido em cuja bancada parlamentar havia um deputado chamado Vital Moreira.

Ou seja, Vital Moreira defende agora o partido mais europeísta de Portugal e diz que o PS é o partido mais europeísta de Portugal porque ele, que não era do partido mais europeísta de Portugal, sabia já em 1976 que o PS era o partido mais europeísta de Portugal. E critica os do seu antigo partido (que nunca foi o mais europeísta de Portugal) por continuarem a ser dos menos europeístas de Portugal, quando ele, Vital Moreira, é agora o mais europeísta dos europeístas de Portugal.

Confuso, não?

Já vi gente renunciar a ideias que defendeu no passado e até acho que tal pode ser saudável, uma vez que as pessoas mudam na medida em que o Mundo à sua volta também muda. Mas Vital Moreira não mudou - transfigurou-se no oposto daquilo que foi em tempos e critica acerrimamente os que ficaram agarrados àquilo que ele deixou para trás. Vital Moreira, com a mesma garra com que já atacou a União Europeia, vem agora defende-la e atacar os que a atacam. Qual será a próxima dama que irá defender? A suspensão da democracia por seis meses (ou mais) para que se possam realizar umas quantas reformas na sociedade portuguesa?

Não sei porquê, e até posso estar redondamente enganado, mas não consigo confiar num gajo destes…

Nota adicional (edição do post): Já sei porque é que não consigo confiar em Vital Moreira. No meu subconsciente, lembro-me de um tal Pina Moura, homem com um percurso político algo semelhante e que... pois, sabem o resultado da passagem dele pelos dois Governos de António Guterres, não sabem? Mesmo assim, continuo a dizer: espero sinceramente estar muito enganado.