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quinta-feira, 18 de junho de 2009

A MANILHA VAI SECA (27): Jogaste a Manilha e o teu parceiro não tinha o Ás (ou os 10 pontos gentilmente ofertados por Paulo Rangel ao CDS)

Se recuarem alguns posts, verão que, apesar de elogiar o tacto político de Manuela Ferreira Leite na escolha do cabeça-de-lista do PSD para as Eleições Europeias, não deixo de apresentar algumas reservas quanto à figura de Paulo Rangel.

Apesar de reconhecer algumas qualidades ao dito senhor, não imagino Rangel como a nova estrela do PSD ou da política portuguesa. Se querem mesmo saber, lembro-me, há algum tempo, de uma entrevista que este senhor deu onde menosprezava ao máximo dos direitos dos animais, o que, confesso, me despertou uma certa antipatia pelo sujeitinho. Na verdade, reconheci logo no estilo de Rangel algo que me fez lembrar o pior de Manuela Ferreira Leite: a capacidade de criar milhares (ou milhões) de inimigos com um par de frases. Ferreira Leite conseguiu conquistar o ódio de imigrantes e homossexuais, Rangel ganhou o asco dos defensores dos animais. Se eu fosse dirigente do PSD, desfazia os fracos crânios de ambos a golpes de bengala.

Durante a campanha para as Europeias, Rangel até se portou razoavelmente bem e evitou tenazmente meter o pezinho na argola, coisa que o seu principal rival, o douto Vital Moreira em Coimbra doutorado, se fartou de fazer. Porém, agora que as eleições estão ganhas, Rangel decidiu tirar a mordaça e soltou logo uma daquelas alarvidades que me fazem colocar enormes pontos de interrogação em relação às capacidades políticas deste cavalheiro.

Ao sugerir que o caminho mais provável para o PSD será uma coligação com o CDS-PP, Paulo Rangel está a admitir publicamente que o seu partido não vai conseguir a maioria absoluta, o que é uma boa maneira de desmoralizar as hostes laranja (que, depois de 7 de Junho, andavam com a moral nos píncaros do Universo). Ao mesmo tempo, Rangel dá ao CDS-PP um importante trunfo eleitoral, com Paulo Portas a poder dizer aos seus: “Vejam, vamos voltar para o Governo! Não façam voto útil no PSD para derrubar o Sócrates, votem logo em nós!”

Recordo-vos que, em 2002, Portas usou esse mesmo trunfo como forma de captar mais eleitorado, ainda que Durão Barroso nada tivesse dito acerca de eventuais coligações com quem quer que fosse. Na verdade, em 2002, Portas abordou o tema de uma coligação com o PSD para obrigar Barroso… a coligar-se com o CDS-PP, se não quisesse ficar totalmente isolado num Parlamento hostil. Agora, em 2009, Portas nem se precisa dar a esse trabalho, porque um ex-militante do seu partido já o fez por si.

Além do mais, há uma fatia do eleitorado do PSD que não suporta o CDS-PP e/ou Paulo Portas e que poderá muito bem optar por dar o seu voto a outro partido. Por exemplo, ao PS...

Paulo Rangel será o próximo líder do PSD? Não. Não lhe falta comer muita papa Maizena. Falta-lhe, isso sim, uma mordaça na boca, para não dizer mais disparates.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A MANILHA VAI SECA (12): PSD «vestido» de conservador para ser do PPE

Há coisa de um mês, publiquei em papel (mas não neste espaço) um artigo de opinião no qual chamava a atenção para uma questão que acabou por ser levantada por Vital Moreira.

Diz o ilustre socialista nas horas vagas e cabeça-de-lista do PS às Eleições Europeias que o PSD e o CDS-PP “estão reunidos no PPE, onde aliás não se distinguem”. Por isso, argumentou o douto académico de Coimbra, “em Portugal é a mesma coisa votar PSD ou CDS, porque no Parlamento Europeu há apenas PPE”.

Dou toda a razão do Mundo a Vital Moreira, que alertou o eleitorado para uma questão deveras pertinente: os eurodeputados são eleitos através das listas dos partidos nacionais, mas, uma vez chegados a Estrasburgo, sentam-se nas bancadas das grandes famílias partidárias europeias. E é aqui que começa a confusão.

O PS integra a bancada do PSE, o Partido Socialista Europeu, a segunda maior família política de Estrasburgo. Até aqui, tudo bem.

Contudo, o Parlamento Europeu é dominado pelo PPE (Partido Popular Europeu), que une, essencialmente, forças políticas europeias de matriz conservadora ou democrata-cristã, como, por exemplo, o PP espanhol ou o Conservative Party inglês. Se acham que o PPE seria, por definição, o espaço político de acolhimento do CDS-PP, fiquem a saber que o partido de Paulo Portas só há muito pouco tempo aderiu a esta família política, onde, durante largos anos, a representação portuguesa esteve a cargo do PSD… que não é democrata-cristão, nem conservador.

Confuso?

Para mim é.

Nas próximas Eleições Europeias, o PSD poderá, finalmente, aproximar-se novamente do PS, mas será justamente no sufrágio em que o partido de Manuela Ferreira Leite se tem de «mascarar» de CDS-PP para entrar na maior família política europeia. De facto, o PSD é um partido estranho e uma das maiores singularidades da política portuguesa, mas este é um tema para um próximo (e longo) post. Por agora, com esta questão, deixo-vos só um aperitivo…

quinta-feira, 14 de maio de 2009

JOKER (3): Sócrates em busca de noiva

(Hoje, combato o estado depressivo e confuso em que me encontro com humor e sátira)

José Sócrates está a pensar em arranjar uma noiva. Sim, eu sei. Há aquela moça, a Fernanda, que é jornalista e até é jeitosa (embora não seja propriamente uma Dama de Copas). Mas o que o nosso primeiro deseja é uma noiva para o seu PS, que, daqui a alguns meses, pode precisar de uma companhia para ir às touradas em São Bento, onde touros de cinco ganadarias inimigas investem furiosamente com as suas hastes contra os ilustres forcados do Aposento da Rosa.

José Sócrates quer uma noiva para o seu PS. Não interessa que a noiva seja bonita ou feia, interessa é que faça o PS feliz.

Vai daí, o nosso primeiro veste-se de lavadinho, tira o Ás de Copas da manga e vai tentar seduzir os pais de quatro ilustres noivas.

PRIMEIRA NOIVA: PCP
José Sócrates até tem algumas simpatias por esta moça canhota. O jovem PS também é canhoto, ao que dizem, embora escreva e assine (projectos) com a outra mão. Mas parece que houve alguns problemas entre amigos da rapariga e do jovem PS, que, no último feriado (o 1.º de Maio), andaram à bulha no meio de Lisboa. E dizem as más-línguas que não é a primeira vez que andam à pancada, embora os amigos da jovem PCP sejam sempre os primeiros a partir para a ignorância.
Esta miúda é complicada de génio e tem a mania que não há cartas marcadas e que os baralhos são de toda a gente. Se a contrariam, vai logo para a rua protestar e olhem que ela tem muitos amigos - alguns deles, da pior ralé que se conhece.
O problema é o pai da nova. Jerónimo, ilustre membro da família De Sousa, é um Rei de Paus difícil de quebrar, que não se deixa seduzir por cartas de Ouros. Vai daí, quando o nosso Sócrates vai para pedir a mão da moça, irrompe o furibundo Jerónimo bramindo: “Vai-te embora daqui, mais as tuas malfeitorias! Nunca houve Às de trunfo que tantas vazas cortasse às gentes que trabalham para manter a mesa de jogo a funcionar!”
Palavras não eram ditas e o nosso Sócrates é corrido da casa canhota a chumbos de caçadeira.
“Além do mais, a minha PCP já é casada com um rapaz muito jeitoso e todo ecologista, que separa as embalagens do cartão todos os dias”, disse Jerónimo com os seus botões.




SEGUNDA NOIVA: BE
É uma moça de fino trato, como o próprio Sócrates. E também é canhota. Dizem que tem umas amigas bem giras e até há uma delas, uma Joana não-sei-das-quantas, que já andou a fazer olhinhos ao Soares (o tal velhote, rijo que nem cornos, que diz ser o pai biológico do jovem PS). É uma pequena culta e sabichona, que, se calhar, peca por saber demais e por ser sempre do contra.
O problema é o pai da moça. Agora é doutor catedrático e julga que é o maior da freguesia dele. Fala bem, o homem, mas o nosso primeiro diz que ele diz muitos disparates. O que eu sei é que o Sócrates tem medo do doutor economista, é o que é.
José Sócrates ainda se aproximou da casa da BE das amigas boas, mas desistiu logo da ideia. O pai, o professor Francisco, leva cada vez mais toiros para São Bento e diz-se que, mais ano, menos ano, leva também forcados, cavalos e cavaleiros. Qualquer dia, é ele o primeiro cá do burgo, dá as cartas que lhe convém e manda logo nacionalizar as mesas de jogo que dêem muito dinheiro. E quase que aposto que mudava as regras do jogo para poder casar cartas do mesmo naipe sem haver renúncia.
Não, esta não. Antes burro que me carregue do que cavalo que me derrube.



TERCEIRA NOIVA: CDS-PP
Outra rapariga de bons modos. Embora, em casa dela, volta e meia, andem todos à estalada. Dizem que CDS-PP é católica e devota, que não gosta de poucas-vergonhas, nem de cartas (sobretudo pretas) que venham de outras mesas. E não podemos esquecer que defende, com unhas e dentes, as velhas cartas de Espadas que ficaram marcadas nuns jogos que correram muito mal lá para as bandas de África. José Sócrates não gosta lá muito das ideias da pequena, mas enfim…
O problema é o pai da noiva. O Paulo (que tem um irmão muito amigo da BE das amigas boas) é um homem estranho. Apesar do fino trato e das palavras polidas, trata por tu todas as peixeiras do burgo e não se passa um dia em que não vá fazer as compras da casa no primeiro mercado que lhe surja no caminho. O Paulo gosta de ver a sua filha bem casada (já fez uns quantos enlaces, mas correram todos mal), porquanto que a troco de um bom dote em cartas de Ouros.
José Sócrates ainda pensou que valia a pena arriscar nesta rapariga, mas a moça está tão magrinha e doente, que, qualquer dia, desaparece. Não, o nosso primeiro quer que o jovem PS se case com uma moça que lhe ofereça um ombro amigo, que o apoie nos momentos difíceis.
Não, esta não. Ainda morre antes de chegar ao altar.


QUARTA NOIVA: PSD
José Sócrates estremeceu antes de ir bater à porta desta moça, que mora ali para os lados da Lapa. É uma rapariga grande e espadaúda, tal como o jovem PS, com quem, em tempos, chegou a ter um namorico de um par de anos. Mas esta PSD dá-se com demasiada gente da nobreza, todos eles barões, todos eles avarentos, quezilentos, malvados e sequiosos de cartas de todos os naipes. No meio desta nobreza, entram também uns rufias mal-afamados, como o malcriado do Alberto da Madeira ou o pintas do Pedro Lopes, D. Juan de trazer por casa e Calimero de segunda. “Nesta casa, Espadas é sempre o trunfo”, pensa o nosso José Sócrates.
Quem tem o Ás e a tutela da rapariga não é um homem, mas sim uma senhora, mãe da pequena. Uma senhora? Bem, dizem as más-línguas que a doutora Manuela tem um gato preto, faz poções com asas de morcego e, em vez de andar de carro, anda de vassoura. Dizem que faz magia com as contas da casa, mas o nosso primeiro diz que não passam de truques de ilusionismo barato.
Só que a PSD é uma jovem que não tem pejo em adaptar-se às circunstâncias. Se é para ser uma lady na mesa e uma puta na cama, que venham daí dez cartas. No fundo, é a verdadeira cara-metade do nosso PS, embora nenhum deles goste de admitir quanto gosta do outro.
Todavia, a mãe da noiva já veio fazer exigências: “
Para casares com a minha filha, jovem PS, vais ter de te livrar desses maricas e desses pretos com quem te dás. E vais ter de deixar de andar a brincar aos aviões e aos comboios. A minha filha só brinca às empresas, com umas casinhas piquenas”.
O nosso primeiro, homem que não necessita de yoga para dobrar bem a espinha, pensa, pensa, pensa e lança uma contra-proposta: “Olha, deixemos estar os comboios e os aviões de brincar, que ajudam muitos meninos que não têm nada no Natal. Quanto aos maricas e aos pretos, se é isso que queres, mando-os todos para o quarto escuro do Tarrafal e meto lá também os bandidos dos jornalistas, que têm a mania de me estar sempre a ver o jogo. Temos acordo?”

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A MANILHA VAI SECA (6): Paulo Portas, a formiga e a verdade

Digo e repito: há muitas maneiras de se dizer a verdade e outras tantas de não se dizer a verdade. E as verdades são como os chapéus: há muitas.

Isto a propósito de Paulo Portas.

No encerramento das Jornadas Parlamentares do CDS-PP, que tiveram lugar em Aveiro, o líder centrista tocou num assunto interessante: o trabalho legislativo desenvolvido pelas várias bancadas com assento parlamentar. Há muito quem tenha uma ideia vaga das muitas iniciativas que, ao longo de uma legislatura, são apresentadas pelas várias forças políticas, embora seja certo que muitas das propostas que vão a plenário acabem sempre por ser chumbadas (facto quase garantido quando há uma maioria absoluta de um dos partidos).

Ora, o argumento de Paulo Portas para convencer o eleitorado a votar no CDS-PP nas Eleições Europeias passa justamente por essas iniciativas. E Portas, sem qualquer pejo, fez questão de salientar que, em termos de oposição ao Governo, o seu partido fez claramente mais do que o PSD (partido que, tal como o CDS-PP, integra a grande família do Partido Popular Europeu, que domina a maior parte dos assentos em Estrasburgo).

E diz-nos o ilustre Paulo: “É preciso censurar quem governou mal e premiar quem se opôs melhor. Nas pequenas e médias empresas, CDS apresentou 87 iniciativas [no Parlamento], o PSD 74. Na área da Segurança, o CDS apresentou 30 iniciativas, o PSD 13. Nas pensões, o CDS apresentou 20 iniciativas, o PSD sete. Fomos a formiguinha que mais trabalhou”.

Agora que a formiguinha já tem catarro, vejamos o outro lado da verdade:

1. Paulo Portas quer convencer o eleitorado a votar nas Eleições Europeias com o trabalho realizado na Assembleia da República, cujos 230 membros são escolhidos pelo povo, através de sufrágio universal. Nas Eleições Legislativas. Há uma pequena diferença.

2. O mestre-de-cerimónias de todas as feiras e mercados compara o número de iniciativas legislativas do seu partido com o PSD, que é o maior partido da oposição. O maior, mas não o único. E todos nós sabemos que o PCP, o BE e «Os Verdes» também são formiguinhas muito trabalhadoras neste aspecto. Só que Paulo Portas não fala neles. Só fala no PSD. Estranho, não?

3. Paulo Portas considera que o CDS-PP foi o partido que mais oposição fez ao Governo e, para exemplificar, mostra quantas iniciativas legislativas apresentou. Sucede que os deputados da nação são eleitos para fazer e votar leis que sirvam o povo. Digo e repito: leis que sirvam o povo. O que Portas nos diz é que, afinal, o CDS-PP não serve o País, trabalha apenas para aqueles que não gostam do PS e/ou do Governo. E o povo, pá?

4. Por fim, temos um problema clássico. Paulo Portas fala em quantidade de iniciativas legislativas, mas ignora por completo a questão da qualidade. A julgar pelo problema enunciado no ponto 3, adivinha-se porquê.