segunda-feira, 8 de junho de 2009

O EDITOR VAI A JOGO (8): Antes de começar a falar de Europeias

Aproveitando o facto de as Eleições Europeias terem coincidido com o 50.º post (este é já o 51.º) desta mesa de jogo de má fama, aproveitei a deixa para remodelar as secções deste blog, que, ao mesmo tempo, surgem agora em caixa alta (como fui jornalista até há escassas semanas, fica-me bem dizer “caixa alta” ao invés de “em maiúsculas”).

Por isso, não se espantem se aparecerem muitas manilhas secas, já que esta secção passa a englobar todos os textos nos quais o nosso Dr. Mento (referido pelo próprio como uma entidade na terceira pessoa do singular) se dedica a dissecar, esventrar, analisar e escarafunchar (adoro esta palavra) os meandros da vida política portuguesa, onde, por acaso, até se joga o futuro de todos nós.

domingo, 7 de junho de 2009

A MANILHA VAI SECA (22): Uma razão óbvia para votar nas Eleições Europeias e para não querer mal à União Europeia

O papel dos Estados Unidos enquanto principal potência política, económica e militar do planeta é algo relativamente recente e que pode ser definido em várias fases distintas.

Actualmente, os Estados Unidos são, para o bem e para o mal, o principal motor da economia mundial, sendo prova disso mesmo o facto de a crise do crédito de risco norte-americano ter arrastado todo o Mundo para uma recessão como não se via há largas décadas. Não obstante, a verdade é que os Estados Unidos só assumem o lugar de principal potencial mundial após o período que vai de 1989 a 1991, anos que marcam a rápida desintegração do Bloco Socialista e, no final, a estranha implosão da própria União Soviética.

Entre 1945 e 1991, o Mundo esteve bipolarizado entre Ocidente e Leste, com os Estados Unidos a assumirem um domínio mais ou menos expresso numa das «metades» e a União Soviética a transformar a sua «metade» num bizarro aglomerado de estados-satélite. Pelo meio, encontrávamos sempre uns quantos não-alinhados, mas, grosso modo, poderíamos dizer que existiam dois grandes blocos no planeta Terra.

Mas… e antes de 1945?

Bem, antes do término da II Guerra Mundial, a primazia mundial discutia-se, essencialmente, em solo europeu. Contudo, os conflitos armados de 1914-1919 e de 1939-1945 acabaram por arrasar, dividir e enfraquecer brutalmente o Velho Continente. De súbito, países como a França, a Grã-Bretanha ou mesmo a (então jovem) Alemanha teriam uma palavra a dizer em termos globais, sendo remetidos a um papel secundário por um newcomer - por uma antiga colónia, para ser ainda mais cru.

Por aqui se percebe que o que, realmente, enfraqueceu a Europa foram as guerras internas, sobretudo os conflitos mundiais. Para além da destruição e da perda de vidas, a Europa provou, neste período, não estar à altura de liderar o Mundo e é por isso que entrou em cena este agente do Novo Mundo, os EUA, que, em ambas as ocasiões, ajudou um dos lados da contenda a desfazer o impasse em que caíra a guerra.

No pós-guerra, as coisas mudaram radicalmente e, aos poucos, a Europa foi percebendo que teria de procurar uma saída para a posição subalterna em que se deixara colocar. Um primeiro passo nesse sentido foi dado em 1951, com a constituição da Comunidade Económica do Carvão e do Aço pelo Tratado de Paris; seis anos mais tarde, em 1957, o Tratado de Roma instituía a nossa conhecida Comunidade Económica Europeia (CEE), a qual, curiosamente, contava com seis países que estiveram em lados opostos na II Guerra Mundial: de um lado, as duas potências do Eixo, Itália e Alemanha (neste caso, apenas a sua metade ocidental, a RFA), e, do outro lado, França, Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo.

De súbito, países que lutaram em trincheiras opostas alguns anos antes, apertavam as mãos, chamavam-se «irmãos» e instituíam a paz como garante da prosperidade económica, financeira e social.

Por isso, sempre que criticarem a União Europeia, lembrem-se que este clube dos 27, com todos os seus muitos defeitos, deu-nos uma das mais preciosas dádivas que a espécie humana pode ter: a paz. Agora que os 27 são como irmãos (por vezes, algo quezilentos e ciumentos uns dos outros), não mais guerreiam entre si e não mais veremos sangue derramado dentro das fronteiras daquilo a que chamamos União Europeia.

Eu sei. A UE não é perfeita.

Também sei. Promete mais do que cumpre.

Sim, eu sei. Há irmãos mais velhos que mandam calar irmãos mais novos.

Mas há paz. Pensem nisso.

E, já agora, votem. Em quem quiserem. Desde que votem. Um voto é uma voz que diz: “Eu quero a paz na Europa, eu quero que as guerras de outras eras fiquem confinadas aos livros de História”. Eu voto. Não interessa em quem. Eu amo a paz.

E tu?

sexta-feira, 5 de junho de 2009

DOIS DE PAUS (2): Vital Moreira (again)

(Este post está em constante actualização por motivos óbvios)

Confessa-vos o Dr. Mento que só em casos muito excepcionais atribui a mais vil distinção que esta mesa de jogo pode atribuir a quem quer que seja. Porém, este Dois de Paus não foi por mim atribuído, mas sim por…

…por uma data de gente que acha que pode mandar umas postas naquela coisa chamada blogosfera, onde, por acaso, todos nós nos encontramos neste momento.

Ok, eu confesso: concordo com o Dois de Paus para Vital Moreira. Mas esta mesa de jogo até nem foi das que mais cartas de Paus deu ao Avô Cantigas que se diz professor, mas que não faz grande questão em dar aulas ou em pôr o rabinho no Conselho Científico da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Até vos lembro que, nalgumas ocasiões, elogiei o dito senhor de alvos bigodes.

Bem, deixemo-nos de conversas e vamos ao que interessa. Leiam só algumas frases retiradas de uns quantos blogues (vai na volta, do blogue de alguém que me está a ler neste momento) e digam-se lá se o Dois de Paus não é bem atribuído.

- “A vergonha é muito grande. O candidato basófias afinal cumpre inteiramente a máxima de "a montanha pariu um rato'. como diria o Rei D. Juan Carlos "Por quê no te callas, Vital?". (Pau Para Toda a Obra)

- “(…)mais uma sessão de esclarecimento sobre esta inovação intelectual honestíssima «BPN ou 'roubalheira' do PSD», coisa desbragada de se dizer!, tudo embrulhado no celofane daquele pensamento único, daquela linguagem rasca que o notabilizou para a posteridade. Este Vitral Moreira quebradiço estilhaça com pouco. E vai lavar em cacos o PS.” (PALAVROSSAVRVS REX)

- “Como se não bastasse, José Sócrates cometeu um grave erro de estratégia eleitoral, ao escolher para cabeça de lista às europeias um ex-comunista e ex-estalinista, um Professor de Coimbra que prometia grande elevação no debate (lembram-se?) mas acabou todos os dias a atirar lama sobre partidos e adversários, a fim de tentar esconder a sua inépcia e os inúmeros telhados de vidro do PS…” (31 da Armada)

- “É vergonhoso para Vital e é vergonhoso para a democracia. E os socialistas sabem bem o que é ver o partido responsabilizado ou associado a crimes ou possíveis crimes de militantes e dirigentes seus: Casa Pia, Freeport ou o Caso da Valor Alternativo, da qual são sócios Dias Loureiro e Jorge Coelho, e que, curiosamente, não tem sido propriamente tema de conversa.” (Corta-fitas)

- “Vital Moreira deu um tiro no pé. Insiste em não perceber que deu um tiro no pé e continua com o dedo no gatilho e com a pistola apontada ao pé.” (Delito de Opinião)

- “Mas alguém percebe o desempenho anquilosado e desajustado da campanha eleitoral do PS. Falam a várias vozes e os argumentos são contraditórios. VM desce a um nível que nunca se esperaria de um constitucionalista com o seu currículo. Cada vez menos os militantes se revêem no representante bastardo que lhes impuseram.” (A RODA)

- “(…) facto de dentro de pouco tempo a campanha chegar ao fim e podermos vê-lo pelas costas (ah! se fosse verdade!...) quando finalmente rumar ao Parlamento Europeu, é pequena consolação” (“Cantigueiro”)

- “Vital Moreira (PS) foi completamente desastrado, não conseguindo sequer ser simpático. Sorriso completamente atoleimado, entrando por caminhos que não domina, sem rei nem roque, limitou-se a ser "his master voice" (a voz do dono), que é como quem diz a voz de Sócrates. Paulo Rangel (PSD) aproveitou, e bem, as palermices e a completa ignorância e inaptidão de Vital Moreira. Não teve muito trabalho para ganhar votos. Foi Vital Moreira quem os perdeu.” (.Blog)

- “Vital Moreira achou por bem prolongar a sua vergonhosa insistência no “caso BPN”, afirmando num comício do PS que o PSD se tem de “dissociar daquela situação” sob pena de os eleitores perguntarem “que medo tem o PSD para não se dissociar do caso BPN”. Curiosa teoria: segundo este especialista em Direito, enquanto uma pessoa ou instituição não se “dissocia” de algum acto ou comportamento menos respeitável, então deveremos ser levados a pensar que há razões para pensarmos que eles estão “associados” a eles. Por essa ordem de ideias, o PSD não é apenas responsável pelas “tranpolinices” de “Oliveira e Costa e tutti quanti”: Manuela Ferreira Leite, que eu saiba, não se “dissociou” do Holocausto, e não tardará que os cidadãos se perguntem se ela não será nazi;” (O Insurgente)

- “Em vez da explicação que o mínimo respeito pelo seu eleitorado exigiria, continua a teoria da cabala.” (O país do Burro)

- “No seu Diário de Candidatura, Vital Moreira escreve: "A Marinha Grande nunca me desaponta.". Tendo em conta que, em 1986, Vital Moreira, salvo erro, ainda pertencia ao PCP, alguém que lhe pergunte se este reiterado não desapontamento inclui o happening de 1986 ou se se estava a referir a outra coisa qualquer - à qualidade do vidro ou isso. Se as gaffes (e esta é claramente uma apreciação subjectiva) do candidato tivessem reflexo directo nas sondagens, ou seja, se alguém ligasse ao que Vital Moreira diz, o PS já estava atrás do Bloco.” (jugular)

- “Depois de ouvir o senhor Moreira falar na roubalheira e pedir ao PSD que se demarcasse, não é que destacados socialistas também por lá andaram? Bom, como o homem transpira coerência, logo à noite já vai pedir ao PS que se demarque desta roubalheira.” (Fliscorno)

- "Do lado do PS a surpresa foi o candidato. Quando foi anunciado, pensei que Sócrates tinha escolhido um trunfo. Afinal a campanha demonstrou que Vital Moreira é uma carta fora do baralho. Sairá rapidamente do palco no próprio dia das eleições." (4R – Quarta República)

- "Uma pessoa liga a televisão nestes dias e prepara-se para o pior. O pior é obviamente encontrar Vital Moreira acompanhado de Ana Gomes numa rua qualquer do país. Os eleitores do PS são seres humanos e, portanto, também devem sentir algo assim. Porque o que Vital Moreira diz – esqueçamos Ana Gomes – só a custo se distingue do mais rasteiro populismo." (Papa Myzena)

- "Vital Moreira continua infatigável no seu papel , aquilo a que Edward Said chamou de “elasticidade servil para com o seu campo”. Vital não esquece que é o pretexto de esquerda na campanha socialista. Como o seu secretário geral segrega ideologia de direita com a naturalidade com que a saliva se lhe acumula nos cantos da boca, a protestada pertença à esquerda de Vital soa forçada naquela exibição de efeitos especiais, loas ao poder e fatiota de Beverley Hills. Então Vital inventou uma designação para a outra esquerda, a que recorre sempre que as câmaras lhe dedicam algum espaço: chama-lhe radicais." (A NATUREZA DO MAL)


Enfim, são apenas alguns exemplos retirados meio ao acaso, mas que confirmam uma impressão que já tinha: sucedem-se as críticas a Vital Moreira (especialmente pela associação torpe e mesquinha de todo o PSD ao caso BPN, ignorando que se poderia fazer o mesmo em relação ao PS e a outros casos cabeludos) e escasseiam os elogios. Por isso, o Dois de Paus é bem metido. E se houvesse um Três de Paus, o prémio ia direitinho para José Sócrates pela escolha desastrada e desastrosa do seu cabeça-de-lista.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A MANILHA VAI SECA (21): Vital, a vil ganância que perdeu Sócrates e a ilusão do PSD

O PS de José Sócrates transformou-se num partido dominado pela ganância do voto. Tal é o voraz apetite por votos que tudo vale para encantar eleitores incautos, porventura tomados por asnos pelas gentes que dirigem o quartel do Rato.

Socialista de nome, o PS transformou-se naquilo que, certa vez, denominei de «partido plasticina». Basicamente, a estratégia do partido de José Sócrates será, a partir de uma posição central, tentar moldar-se aos gostos de todos os eleitorados e potenciais votantes, bem como aos interesses internos e secretos que pululam lá para os lados do edifício cor-de-rosa que fica perto das Amoreiras.

Numa hora, o PS pertence a uma esquerda livre e moderna (estilo BE), apoia a legalização do aborto até às 20 semanas e já fala no casamento entre pessoas de outro sexo. Noutra hora, Vieira da Silva vem a público admitir que poderá ter de reduzir drasticamente a entrada de imigrantes em Portugal, dando razão a Paulo Portas e ao seu CDS-PP. A seguir, temos a nacionalização do BPN, num reviver dos velhos tempos do PREC e dos dias em que o PCP até achava que era a maior força política portuguesa. Ao lado, com o BPP, temos um Estado mínimo e neoliberal (semelhante a muitos sectores do PSD), que apenas legisla e faz cumprir as leis, mas que não interfere no poder auto-regulador da economia (e os clientes do BPP que se lixem, pois claro). No meio de tudo isto, temos inúmeras interferências na actuação dos media, quase fazendo lembrar os tempos do lápis azul e da União Nacional. Pelo meio, temos um Estado social (o sonho de vários sectores do PSD e do PS) que distribui subsídios e apoios para ajudar as famílias em dificuldades com a crise. Logo a seguir, regressa o neoliberalismo mais cru e a selvajaria de mercado, com banca e gasolineiras a fazerem o que lhes dá na real gana.

No meio desta plasticidade ideológica, veio a escolha do cabeça-de-lista para as Eleições Europeias. Ao invés de apostar numa figura do aparelho, José Sócrates optou antes por um académico de Coimbra outrora ligado ao PCP, mas hoje rendido aos ideais socialistas (supostamente, os do PS). Com esta jogada, Sócrates tentou manter o seu eleitorado (que se diz de esquerda, embora não faça a mais pequena ideia do que tal possa significar), ao mesmo tempo que aposta num homem que, pela sua proximidade à esquerda mais radical, poderia travar o avanço da CDU e do BE. Ainda por cima, aquele arzinho de Avô Cantigas de Vital Moreira despertava, inicialmente, uma simpatia automática pelo cabeça-de-lista rosa.

Sócrates foi ganancioso e, numa altura em que julgava o PSD moribundo (em Fevereiro, a contestação a Manuela Ferreira Leite era mais do que muita) e o CDS-PP morto, partiu à conquista dos votos das duas áreas que ainda não tinha devorado.

Mas a ambição perde muita gente.

Vital Moreira era tido como um orador brilhante nos seus tempos de PCP, mas essa chama perdeu-se com um certo afastamento da política. O douto senhor de Coimbra (que é muito menos douto do que o Doutor Mento de Lisboa) até tem uma certa inclinação para discutir assuntos de índole europeia e, em certas matérias, até consegue falar de temas de Eleições Europeias na campanha para as Eleições Europeias.

Contudo, Vital tem também uma tendência nata para o insulto fácil, para a crítica disparatada e para acusações bizarras, como a de ligar o caso BPN a todo o PSD, quando o mesmo envolve apenas alguns antigos governantes do partido. Aliás, a ligação do PSD ao BPN é uma estratégia suicida de Vital Moreira (o eleitorado não é estúpido e percebe a covardia de ligar este caso a todo um partido com largos milhares de militantes e votantes), que, ainda por cima, está a dividir o PS em dois, já que há quem se desmarque de tais acusações e há quem as apoie e incentive (por exemplo, o inenarrável Augusto Santos Silva, figura da qual Vital se deve distanciar a todos os níveis se quiser ter um resultado decente no dia 7).

A tudo isto junta-se ainda um discurso que mescla uma defesa exacerbada do PS e do Governo (por vezes, raiando os limites do absurdo) e uma dissonância de posições entre Vital e o partido que o apoia (por exemplo, na recondução de Durão Barroso). Pelo meio ficou o incidente do 1.º de Maio, que não afastou o eleitorado do PCP do PS, mas sim demonstrou que comunistas e simpatizantes não aceitam pôr a cruz no novo partido de Vital Moreira.

Muito mais haveria a dizer de Vital Moreira, que, apesar de um ou outro bom momento na campanha, foi um tiro no pé de José Sócrates, que, ganancioso, arrisca-se a perder tudo. Acima de tudo, o primeiro-ministro necessitava de uma Rei de Copas que, pese embora algumas opções do Governo, dissesse ao eleitorado: “Vejam, ainda somos um partido de esquerda”.

No final, saiu-lhe um Duque de Paus trauliteiro e quezilento (e muito pouco hábil do ponto de vista político), que, neste momento, já perdeu até a simpatia que tinha graças às parecenças físicas com o lendário Avô Cantigas.

Por isso, se querem saber a minha opinião, estas eleições vão marcar um novo fôlego para o PSD, que, mesmo sem um candidato do outro mundo, não cometeu, nesta campanha, erros de palmatória como os de Vital Moreira (e, já agora, de Ana Gomes). Não sei se o PSD conseguirá ultrapassar ou igualar o PS no dia 7, mas acredito que vai aproximar-se mais do que muita gente esperaria há alguns meses.

Todavia, esta aproximação do PS não deve ser entendida como um cartão vermelho ao Governo de José Sócrates, mas sim como um «chumbo» ao candidato Vital Moreira, o professor de Coimbra que, segundo algumas notícias, faz de tudo menos ser professor. Por conseguinte, que o PSD não se iluda com os resultados de dia 7, porque, em campanha pura e dura para as Legislativas, José Sócrates é um osso muito mais duro de roer do que o Avô Cantigas de segunda categoria que o secretário-geral do PS foi desenterrar para estas Europeias…

A MANILHA VAI SECA (20): Paulo Rangel e as eleições… são para quê mesmo?

No mesmo comício de Viseu onde Manuela Ferreira Leite falou de impostos (ver post abaixo), o cabeça-de-lista social-democrata às Eleições Europeias, Paulo Rangel, afirmou, alto e bom som, que o PSD “é o único partido que está em condições de derrotar o PS” e de “dar um cartão amarelo ao engenheiro Sócrates”. “Nós temos de o derrotar e não há mais nenhum voto, não há mais nenhum partido em condições de derrotar o PS”, sublinhou ainda a nova estrela «laranja», deixando um pedido a cada eleitor: “Ir ao fundo da sua alma portuguesa encontrar as forças, a resistência, a energia para retomar um sonho para Portugal. Faço aqui um apelo ao voto, um apelo dramático, porque é um apelo nacional, é um imperativo nacional, um dever de consciência. É o mínimo e é também o máximo que podemos fazer pelo nosso país”.

Toc, toc, toc!

Está alguém em casa?

Paulo, o que disseste está muito certo e é muito bonito, mas… sabes, TU és candidato às Eleições Europeias e não às Legislativas. E é de Eleições Europeias que se vai falar no dia 7. Eu sei, os portugueses estão-se nas tintas para as Europeias e nem sequer sabem onde fica Estrasburgo. Muitos, vai na volta, até acham que os eurodeputados vão para Bruxelas, do mesmo modo que as meninas boas vão para o céu (e as más para qualquer sítio).

Mas custava muito fazer um esforço para falar da União Europeia e do Parlamento Europeu? Ou será que tu, Paulo, e o teu partido já renunciaram de vez às Europeias e entraram logo em campanha pra as Legislativas?

A MANILHA VAI SECA (19): A verdade de Miss Política de Verdade?

Confesso que sou tomado por violentos estremecimentos sempre que um líder partidário fala em impostos durante uma campanha eleitoral. Em 2002, Durão Barroso falou em “choque fiscal” e, mal se apanhou na liderança do Governo, tratou logo de subir o IVA, usando como desculpa o défice das finanças públicas. Depois, em 2005, José Sócrates prometeu que não ia subir os impostos, mas, uma vez instalado na cadeira do poder, aumentou logo o IVA tendo como justificação o défice das finanças públicas.

Num comício em Viseu, Manuela Ferreira Leite falou de impostos e tratou habilidosamente de cair no mesmo erro dos dois cavalheiros acima citados. Afinal, estamos a falar de, nem mais, nem menos, do que Miss Política de Verdade.

Ora, diz a douta senhora (mas não tão douta como o vosso Doutor Mento) que “a única política concreta que este Governo socialista soube fazer em Portugal foi aumentar os impostos, não fez mais nada”.“Para nós, sociais-democratas, é exactamente o contrário. Nós queremos seguir uma política que conduza à possibilidade de baixar os impostos”, acrescentou ainda a líder «laranja», antes de fazer a ressalva: “Eu não estou a prometer que vou baixar impostos, porque faço uma politica de verdade e do primeiro ao último dia não farei nenhuma promessa que julgo que não vou poder cumprir”.

Para finalizar: “Mas uma coisa é certa: seguirei a política com o objectivo de poder baixar os impostos e quando tiver essa possibilidade é isso mesmo que eu faço”.

Hum…

Gostei do “quando tiver essa possibilidade é isso mesmo que eu faço”.

Não sei se sabem, mas José Sócrates baixou impostos. Baixou o IVA. Mas apenas quando teve “essa possibilidade”. Em 2005, mal chegou ao poder, subiu o IVA de 19 para 21 por cento (na altura, não teve outra possibilidade); três anos depois, com três eleições em mira, baixou de 21 para 20 por cento, quando teve essa possibilidade.

Sabem, o défice das finanças públicas está outra vez descontrolado e não vai cumprir as metas do Plano de Estabilidade e Crescimento. Pois, tal e qual como em 2002 e em 2005.

“Nós queremos seguir uma política que conduza à possibilidade de baixar os impostos”, diz a dita e douta senhora. E, provavelmente, não mente - apenas não diz como é que será essa política que conduz à possibilidade de baixar impostos. Vai na volta, para baixar impostos (por alturas das próximas Legislativas), vai ser necessário, primeiramente, subi-los…


Nota: Só espero estar redondamente enganado. Mesmo.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A MANILHA VAI SECA (18): Nunes Correia, o ministro invisível

Todos os governos têm sempre um ou dois ministros, que, por algum motivo, são incapazes de se destacar, seja pela positiva, seja pela negativa, ou por ambos. No executivo de José Sócrates, o ministro-fantasma é, sem dúvida alguma, Francisco Nunes Correia, titular da pasta do Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional (nome pomposo).

Nunes Correia foi até à Praia da Arrifana, na Costa Vicentina, onde foi confrontado com um documento, assinado por vários proprietários de escolas de surf, que citavam um despacho do Parque Natural da Costa Vicentina e do Sudoeste Alentejano a ordenar a retirada das instalações das citadas escolas no espaço de dez dias. Curiosamente, Nunes Correia não fazia a mínima ideia da existência deste despacho e, em declarações aos jornalistas, várias vezes disse que o surf é uma mais-valia para a região e que quer a modalidade em força na Costa Vicentina.

Concordo perfeitamente com Nunes Correia, até porque já fui praticante e tenho a perfeita consciência de que se trata, a quase todos os níveis, de uma mais-valia. Se não houvesse, aqui e ali, umas quantas ovelhas negras que acham que a praia é só deles(as), diria mesmo que o surf é uma daquelas modalidades que só tem vantagens (experimentem a sensação de pairar em cima da água e digam-me como é).

Na verdade, o surf até poderia ser melhor aproveitado por vários organismos, designadamente as associações do Programa Escolhas, que poderiam levar mais jovens em situação de risco até à praia para que estes possam ter a possibilidade de descobrir todo um mundo novo e toda uma filosofia de vida que nada têm a ver com a realidade dos bairros ditos problemáticos e dos seus grupos de rua. Se aliarmos a prática do surf à do yoga (que pratico actualmente), os resultados podem ser fantásticos.

Contudo, o que é verdade é que o Parque Natural da Costa Vicentina e do Sudoeste Alentejano está-se nas tintas para o surf, para as escolas e para os surfistas. Mas o que mais surpreende (ou não) é que este organismo também faz o que bem entende à revelia de um ministério ao qual julga não ser necessário prestar quaisquer esclarecimentos.

Agora, vamos ver se Nunes Correia é mesmo homenzinho com eles no sítio e se vai dar um murro na mesa, obrigando a uma solução de consenso que não prejudique nem o ordenamento do território numa das zonas mais bonitas do Algarve, nem as escolas de surf e respectivos praticantes da modalidade.

Se, pelo contrário, Nunes Correia optar por sacudir a água do capote, bem podemos ficar com a certeza que, afinal, toda a gente manda nele. Até mesmo um organismo que deveria dizer “Sim, senhor ministro”.

CARTAS SEM NAIPE (1): Um pouco de Ícaro

Em todos nós há um pouco de Ícaro.

De afronta em afronta, a espécie humana foi enfurecendo os deuses. Num instante, eles, humanos, mais mão eram do que meros animais como os demais. No momento seguinte, criaturas deidificadas pelo engenho e arte, pelo saber e por uma ânsia de superação.

Durante séculos, o aperfeiçoamento da técnica elevou a espécie humana a patamares que os seus antepassados jamais haviam sonhado. Mas muitos séculos foram consumidos até que o sonho de Ícaro e Dédalo em fuga passasse da lenda para a realidade.

Sabemos que as asas de penas coladas com cera de Dédalo são tão lendárias como o destino do seu imprevidente filho, Ícaro, que, fascinado pela beleza do sol, viu as suas asas destruídas e a sua vida terminada numa queda sobre o mar. Porém, a história ficou, a mensagem passou e o sonho não esmoreceu. E é por isso que homens como os irmãos Wright ou Santos Dumont não são lendas, mas sim humanos de carne e osso que materializaram as asas de Dédalo em enormes pássaros de metal, novos senhores dos céus, capazes de elevar a espécie humana à divina condição.

Mas nem sempre somos Dédalo e nem sempre somos capazes de chegar à Sicília da nossa libertação. Por vezes, somos Ícaro. Por vezes, pagamos o tributo de sangue pela audácia de viajarmos pelas nuvens, qual Hermes calçando as suas sandálias aladas.

Por vezes, há voos 447.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A MANILHA VAI SECA (17): Tens uma fábrica de cigarreiras?

Por ocasião do Dia Mundial Sem Tabaco (assinalado a 31 de Maio), a Organização Mundial de Saúde voltou a insistir na ideia de colocar imagens chocantes nos maços de cigarros para ajudar os fumadores a libertarem-se do vício - uma ideia também defendida, aliás, pela Confederação Portuguesa de Prevenção do Tabagismo

Não sei se alguém na OMS é dono de uma fábrica de cigarreiras, mas é essa a impressão com que fico. Colocar imagens de doentes com cancro de pulmão nos maços de tabaco é um convite a todos os fumadores para comprarem cigarreiras, onde poderão colocar os seus «pauzinhos da morte» sem terem de olhar para umas caixas feiosas e com imagens chocantes (que deixam de o ser passado o natural período de habituação).

Apesar de ser fumador, respeito muito a OMS e concordo com as campanhas de prevenção contra o tabagismo, um vício saboroso (é, não digam que não), mas que faz muitíssimo mal à saúde e à carteira. Mas essa ideia das imagens chocantes, muito sinceramente, não pega. A não ser para quem for dono de uma fábrica de cigarreiras.

Nota politicamente correcta: Não fumem.

A MANILHA VAI SECA (16): Ainda a propósito de Jardim

(A praia estava boa e o meu computador também está)

Para não aborrecer demasiado quem passa por aqui e se dá ao trabalho de ler o que escrevo, no post anterior, optei por não me estender demasiado no texto. Sei que uma das regras básicas do jornalismo on-line é justamente a capacidade de síntese, mas também devia saber que este blog não é um jornal on-line e que aquilo que ficar por dizer pode levar a mal-entendidos. Especialmente quando se fala de Alberto João Jardim…

Jardim é uma figura longe de qualquer consenso, especialmente quando fazemos uma análise demasiado superficial ao homem que lidera os destinos da Madeira há coisa de três décadas. Porém, quanto mais percebemos e entendemos quem é este senhor, mais difícil se torna fazer juízos de valor, até porque Alberto João Jardim pode ser, ao mesmo tempo, desprezível e fantástico. Mas a dissecação do presidente do Governo Regional da Madeira é algo a merecer um futuro post, que, desde já, promete ser longo.

Quanto ao diploma aprovado pela Assembleia Legislativa, tenho a plena consciência de que se trata de uma medida puramente eleitoralista. Curiosamente, do ponto de vista eleitoralista, a medida não beneficia Alberto João Jardim (que cumpre o seu derradeiro mandato) ou o PSD-Madeira (ainda falta muito para as próximas Regionais), mas mais o PSD nacional (dada a proximidade da iniciativa com as Eleições Europeias, que, no entanto, nada têm a ver directamente com o diploma aprovado).

O facto de esta medida ter sido lançada apenas agora, a pouco tempo das Eleições Europeias, também é deveras curioso. Por norma, muitas empresas (especialmente as multinacionais) optam por apurar as contas do seu exercício segundo o conceito mais comum de ano fiscal, que abarca os três últimos trimestres de um ano civil mais o primeiro trimestre do ano seguinte. Isto significa que muitas empresas só apuram, de facto, os seus lucros a (ou até) 31 de Março.

Ora, dado que, para impedir os despedimentos, é imperioso que uma empresa tenha tido um milhão de euros de lucros no ano anterior, esta medida, tal como está, só podia ser lançada no segundo trimestre deste ano, de molde a evitar que muitas empresas tratassem de arranjar esquemas contabilísticos (despesas fictícias, por exemplo) para ficar abaixo do tal patamar de um milhão de euros.

Por aqui se percebe que, de facto, o timing do lançamento deste diploma não poderia ser outro. A alternativa seria lança-lo depois das Legislativas e das Autárquicas, mas uma espera de cinco meses poderia fazer com que a medida pecasse por ser demasiado tardia.

A questão levantada pela Maria Faia é também bastante pertinente: O diploma não deixa de autorizar o despedimento “por causas subjectivas, em que é relevante uma actuação culposa do trabalhador”. Sucede que esta parte remete indirectamente para o que está escrito no Código do Trabalho, documento, que, como já se sabe, é frequentemente desrespeitado por muitos empregadores. Mas, justiça seja feita, tal não é culpa do PSD-Madeira, mas sim das autoridades que fiscalizam o cumprimento do Código do Trabalho (designadamente a ACT) e da lentidão e/ou inoperância dos tribunais do trabalho em julgar casos ilegais de despedimento por justa causa ou de falsas rescisões por mútuo acordo.

Por fim, queria esclarecer também um pequeno aspecto: em nenhum momento eu disse que concordava ou discordava da iniciativa legislativa do PSD-Madeira. Disse apenas que o diploma parecia ter sido criado pelo PCP ou pelo BE, que, como se sabe, não votaram a favor da iniciativa. Se acham que a esta proibição de despedimentos é pura demagogia, sirvam o adjectivo ao PSD-Madeira, mas também a muitos outros partidos que há muito defendem algo parecido.

As demagogias são como as verdades, que, por acaso, são como os chapéus: há muitas.

sábado, 30 de maio de 2009

A MANILHA VAI SECA (15): Avante, camarada Jardim

(Se os meus computadores estivessem em ordem, este texto teria saído ontem, mas, mesmo assim, ainda vai a tempo de entrar em jogo)

“As empresas que apresentem, no último exercício fiscal, resultado líquido positivo superior a um milhão de euros, não poderão proceder à cessação de contratos de trabalho com recurso ao despedimento colectivo ou ao despedimento por extinção de posto de trabalho”.

Esta frase figura numa proposta aprovada na Assembleia Legislativa da Madeira. O diploma em causa considera igualmente que “o despedimento que ocorra em desconformidade com o estabelecido no artigo anterior é considerado ilícito, tendo os efeitos previstos no Código do Trabalho, para a ilicitude do despedimento colectivo e extinção de posto de trabalho” e que a suspensão da cessação do contrato de trabalho nas empresas nas condições acima citadas irá vigorar até 31 de Dezembro do próximo ano.

Não obstante, a proposta frisa ainda que a suspensão não abrange os despedimentos denominados “por causas subjectivas, em que é relevante uma actuação culposa do trabalhador, nem a rescisão por iniciativa deste e a cessação por acordo das partes, enquanto manifestação do princípio da autonomia da vontade das mesmas”.

Não, a proposta não é do PCP, embora pareça. E nem tão pouco do BE.

É do PSD-Madeira.

Isso mesmo, o partido de Alberto João Jardim.

A justificação?

A mesma de sempre: A CRISE.

Se, por acaso, julgam que o PCP e o BE bateram palmas, desenganem-se: os bloquistas (e o MPT), cautelosos, optaram por se abster, apesar de encherem Lisboa com cartazes a dizer “quem tem lucros não pode despedir”; já os comunistas (juntamente com o PS e o CDS-PP locais) votaram contra a proposta.

Só se espanta com este chumbo dos comunistas quem não conhece, de facto, a forma de funcionar do PCP. Se a proposta fosse do PCP (e podia perfeitamente sê-lo) e tivesse sido chumbada pelo PSD, os sociais-democratas da Madeira seriam chamados de “fascistas” para baixo. Sendo o PSD um partido que não está vinculado a uma das Internacionais marxistas, para o PCP passa, automaticamente, a ser um partido do demónio (embora o PSD não esteja ligado à II Internacional porque o PS de Mário Soares vetou a entrada do partido fundado por Francisco Sá Carneiro).

Certa vez, numa reunião de Câmara (não vou revelar a edilidade), assisti a um episódio deste género: o (único) vereador do PSD apresentou uma proposta com pés e cabeça, mas os vereadores do PCP votaram contra, apesar de estarem de acordo com a ideia; no final, o PCP acabou por obrigar o PSD a fazer uma ridícula mudança no texto da proposta para poderem votar a favor de uma ideia com a qual sempre concordaram, mas que quiseram chumbar apenas por ter sido apresentada por quem foi.

Alberto João Jardim é um populista puro e lançou esta medida para «dar graxa» ao eleitorado. No fundo, José Sócrates, quando vai à Assembleia da República anunciar novos subsídios para estes e para aqueles, faz exactamente o mesmo, embora lhe falte coragem para uma proposta destas.

Quanto ao PCP e ao BE, bem que ambos gostariam de ser os autores do diploma que não aprovaram e que, no caso dos comunistas, até rejeitaram.

A política é um lugar estranho.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O EDITOR VAI A JOGO (7): Fora de jogo

Não, não desisti de manter esta mesa de jogo de má fama (embora a frequência da mesma seja de altíssimo nível).

Sucede que o meu computador titular apanhou com um Joker preto e ficou totalmente fora de jogo. Claro que uma formatação ao disco vai pô-lo novamente de cartas na mão, mas estas operações costumam ser altamente delicadas, já que tudo se perde e nada fica ao nosso gosto durante uns quantos dias. No fundo, neste momento, estou a jogar ao Apanha 40.

se ainda consigo vir aqui fazer este post é graças a um pc portátil que em boa hora me emprestaram, mas que nem sequer tem o Word instalado (pelo menos, ainda não o descobri). Sim, porque até o meu portátil de reserva está a dar as últimas, o que não é uma boa jogada quando o computador titular está numa de fazer renúncia.

Seja como for, continuo aqui e ando atento às vossas mesas de jogo.


O sempre vosso,


Dr. Mento

quarta-feira, 27 de maio de 2009

CHARLIE E A FÁBRICA DE CARTAS (2): A felicidade como arma para combater a crise

Crise, felicidade e Jenson Button num mesmo post?

Não, não, não, o Dr. Mento (ainda) não ensandeceu de vez.

Pelo menos, por enquanto.

Tudo faz sentido e todas as peças podem encaixar-se.

O percurso do inglês Jenson Button no mundial de Fórmula 1 é, na verdade, o exemplo perfeito de como um empregado feliz pode ajudar a sua empresa a conseguir tudo aquilo que almeja: mais produção, mais resultados, mais lucros, mais quota de mercado. Porém, esta história mostra-nos também que, para um empregado poder estar a 200 por cento numa empresa, esta necessita, primeiramente, de mostrar qualidades àqueles que emprega. Para muitos empresários, é o empregado quem deve mostrar aquilo que vale, mas Button mostra-nos precisamente o contrário.

Há muitos anos que acompanho o mundial de F1 e, mentalmente, já havia classificado Jenson Button como mais um “good, but not good enough” (“bom, mas não bom o suficiente” [para ser campeão, entenda-se]”.

Enganei-me.

Lembro-me perfeitamente do bom ano de estreia na Williams, em 2000 e do facto de, aos 20 anos, se ter tornado no mais jovem piloto de sempre a pontuar num Grande Prémio de F1 (o recorde manteve-se intacto até 2007). Como o contrato de Button com a Williams era válido apenas por um ano (a equipa de Sir Frank queria apenas aquecer o lugar para o colombiano Juan-Pablo Montoya, então visto como o próximo génio do automobilismo internacional), o jovem inglês encontrou um volante na Benetton, que então realizava a sua temporada de despedida após ter sido comprada pela Renault. Com um carro difícil nas mãos, Button teve uma temporada miserável e quase foi despedido, mas acabou por ser mantido em 2002, ano que assinalou o regresso da equipa Renault à F1. Em 2002, Button melhorou de forma, mas nada que justificasse as expectativas geradas pela imprensa britânica após a temporada de 2000.

Em 2003, Jenson Button muda-se para a BAR-Honda, onde encontra um ex-campeão do Mundo, Jacques Villeneuve, como companheiro de equipa. Button não só ofuscou completamente Villeneuve, como conquistou os favores do patrão da BAR, David Richards. Em 2004, ano de domínio completo da Ferrari, a BAR acabou por ser guindada à segunda posição do mundial de construtores, muito graças às excelentes exibições de Jenson Button, que, curiosamente, só conseguiu subir a um pódio na sua quinta época na categoria máxima. Em 2005, apesar de vários contratempos (nomeadamente a suspensão da BAR por duas corridas devido a uma falcatrua encontrada no depósito de combustível), Button tem uma nova temporada de bom nível.

Em 2006, a BAR é comprada pela Honda, que assim voltava a ter uma equipa a tempo inteiro na F1. Com um carro bastante bom, Button vence o Grande Prémio da Hungria e tem uma segunda parte de temporada de altíssimo nível. Porém, em 2007 e 2008, a Honda produz monolugares de fraquíssima qualidade e os resultados de Button ressentem-se disso mesmo - em dois anos, o melhor que conseguiu foi um quinto posto. Mas, para 2009, as expectativas eram bem superiores, já que o monolugar havia sido concebido sob a direcção técnica do inglês Ross Brawn, um dos grandes responsáveis pelos títulos de Michael Schumacher na Benetton (1994 e 1995) e na Ferrari (de 2000 a 2004).

Entretanto, vem a crise financeira mundial, geradora de uma outra crise, desta feita no sector automóvel. Diante de quedas de vendas absolutamente abismais (especialmente no mercado norte-americano), a Honda decide desfazer-se da sua equipa de F1 e, após um processo negocial bastante delicado, opta por um management buyout - ou seja, a equipa é trespassada aos anteriores gestores, com a Honda a assegurar apenas uma parte do orçamento para a temporada. Como todos sabem, foi assim que nasceu a Brawn GP, liderada pelo «mago» Ross Brawn, que chegou ao primeiro Grande Prémio do ano com um carro muito bem-nascido, apesar de pouquíssimo testado.

Com um excelente carro nas mãos e uma equipa inteiramente do seu lado, Jenson Button é agora um homem feliz. Como a felicidade nunca é demais, decidiu fazer também de Ross Brawn um homem feliz, vencendo cinco das seis corridas até agora disputadas. Com um estilo de pilotagem limpo, Button é daqueles pilotos que apenas dá tudo por tudo nos momentos em que tem que dar, o que explica, por exemplo, algumas pole-positions de última hora - ou seja, com Button a conquistar o melhor tempo na terceira qualificação (a que define os dez primeiros lugares da grelha), quando não havia sido o mais rápido nas duas primeiras mangas.

Button está feliz, está a pilotar de forma soberba e autoritária e é um seríssimo candidato a vencer o mundial deste ano. Na verdade, há quem diga que já tem o título no bolso.

Acarinhado e estimado por Ross Brawn, Jenson Button é um empregado produtivo e altamente rentável. Curiosamente, quando passou pela Benetton e pela Renault, este jovem inglês era fortemente criticado pelo seu «chefe», o italiano Flávio Briatore, o que acabou por ter naturais reflexos nos resultados conquistados. Briatore e Button nunca fizeram uma boa dupla patrão-empregado.

Jenson Button não é o piloto mais completo da actual F1, faltando-lhe, por exemplo, aquela capacidade de trabalho que se via num Michael Schumacher. Não é capaz de milagres como os de um Ayrton Senna e não baterá os recordes de juventude de Lewis Hamilton ou de Sebastien Vettel. Também não faz ultrapassagens loucas e inacreditáveis como as de Gilles e Jacques Villeneuve (pai e filho) ou as de Juan Pablo Montoya.

Contudo, é um bom piloto, detentor de um estilo limpo à Jackie Stewart ou à Alain Prost. Precisa de ser acarinhado para estar motivado e precisa que a equipa trabalhe bem para ele poder trabalhar bem. Precisa estar feliz para poder espalhar a felicidade à sua volta.

Muitos patrões não compreendem o valor da felicidade daqueles que empregam. Se percebessem, seriam muito mais ricos… e campeões, como, decerto, Ross Brawn vai ser este ano.

A MANILHA VAI SECA (14): E não é que ele volta a ter razão?

Já aqui havia dado toda a razão do Mundo a Vital Moreira e volto a fazê-lo novamente.

Se descerem alguns posts, vão encontrar um texto onde falo do facto do PSD e CDS-PP estarem integrados na mesma família política europeia. Isto significa, como bem alertou o cabeça-de-lista do PS, que, uma vez chegados a Estrasburgo, os eurodeputados do PSD e CDS-PP sentam-se na bancada do PPE (partido Popular Europeu), a família que junta forças políticas de matriz conservadora e democrata-cristã (ou seja, partidos que têm tudo a ver com o CDS-PP e muito pouco com o PSD, que finge ser uma coisa que não é para pertencer à maior bancada do Parlamento Europeu).

Mas Vital Moreira não se ficou por aqui. Agora, veio a público lembrar que um fenómeno idêntico sucede com o PCP e o BE, dois partidos que, em Estrasburgo, integram o Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia. Ou seja, em Portugal, PCP e BE apresentam duas visões bem diferentes (e, por vezes, antagónicas) sobre o que deve ser aquilo que eles dizem ser a esquerda, mas, no Parlamento Europeu, tais diferenças esbatem-se e os eurodeputados de ambos os partidos sentam-se lado a lado.

Mas a confusão não se fica por aqui. O Partido Ecologista «Os Verdes», que concorre sempre coligado com o PCP (dando origem à CDU), não integra o Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia, mas sim uma outra família política: o Grupo dos Verdes.

Ou seja, ao votar na CDU, o eleitor está, na verdade, a eleger eurodeputados para duas famílias políticas diferentes… sendo uma delas a mesma de um partido rival, o BE.

Confuso?

É, não é?

Neste aspecto particular, saúdo a coerência do PS, que alinha com o PSE, o Partido Socialista Europeu, família política à qual pertence, de facto. Vital Moreira tem consciência deste trunfo e está a usá-lo para desbaratar o jogo dos seus adversários. Bem jogado, sim senhor.

Nota: Um par de elogios a Vital Moreira não significa que esteja a fazer campanha pelo senhor ou pelo PS. Nem sequer significa que vá votar no Avô Cantigas e nos seus amigos cor-de-rosa. Contudo, “a César o que é de César”: estes elogios são merecidos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

ÁS DE TRUNFO (1): Brittney

(Só tenho pena que a primeira atribuição da maior distinção deste blog não tenha direito a fotografia)

A um amigo nada negamos. Um amigo nada nos nega.

Há amigos que caminham apenas nas patas traseiras (vulgo pernas). Há amigos que caminham apoiados nas quatro patas. Mas, quando são amigos, são-no sempre, para toda a vida e incondicionalmente, de todas as formas.

Sobre a amizade, conto-vos aqui uma história que apanhei na Lusa.

Há cerca de duas semanas, o norte-americano Scott Seymour, residente em Grand Rapids, levou a sua cadela buldogue ao veterinário, que descobriu que Brittney, de nove anos, tinha vários tumores malignos, podendo não sobreviver a uma cirurgia. De imediato, o dono excluiu o recurso a tratamentos de quimioterapia, por considerá-los muito duros para a cadela, e também o abate, optando antes por lhe administrar medicação para aliviar as dores até a morte suceder naturalmente, o que poderá ocorrer dentro de alguns dias.

Com este gesto, Scott Seymour salvou a própria vida.

No domingo, Brittney, acordou-o com o seu latido a tempo de os dois escaparem da casa onde moravam, que se encontrava já em chamas. O incêndio acabou por destruir a habitação, mas, graças a Brittney, Scott escapou são e salvo… e com vida, após se ter recusado a terminar a vida da sua amiga.

Provas de amizade como estas dizem-nos que vale a pena viver.

E que todos se lembrem da Brittney, agora que está prestes a começar a época negra do abandono de animais. Quem abandona, pode estar a condenar um animal à morte… mas pode também estar assinar a própria sentença de morte.

Pensem nisso.

A MANILHA VAI SECA (13): Estrasburgo e o meu querido mês de Junho

Uma das maiores falhas da União Europeia é a inexistência de uma lei eleitoral única para as Eleições Europeias, que, salvo umas quantas normas, continuam a realizar-se ao abrigo das legislações eleitorais vigentes em cada um dos 27 estados-membros. Uma das poucas normas comuns diz respeito justamente ao facto de as eleições terem de se realizar entre a quinta-feira e o domingo de uma mesma semana.

Isto significa que, apesar de a legislação eleitoral portuguesa conferir ao Presidente da República o poder (e a obrigação) de marcar a data para as Eleições Europeias (desde que o faça com 60 dias de antecedência), na prática, Cavaco Silva só tinha como alternativa o dia 7 de Junho.

Sucede que este domingo antecede uma semana com dois feriados (10, quarta-feira e 11, quinta-feira), que, decerto, será aproveitada por muitos para uma semana de repouso, justamente num dos meses mais agradáveis do ano. Na verdade, com apenas três dias de férias, será possível gozar nove dias de descanso, o que não deixa de ser um excelente negócio para muitos trabalhadores portugueses.

Esta semana mágica começará na tarde/noite de sexta-feira, dia 5, e só terminará ao cair do dia 14, domingo. Isto significa que as Eleições Europeias, que registam sempre níveis de abstenção brutais em toda a Europa, vão calhar a meio desta semana sacrossanta.

“Espero que a campanha decorra com serenidade, que seja uma campanha esclarecedora e que mobilize os portugueses para que, no dia 7 de Junho, não fiquem em casa, não vão de férias, não aproveitem os feriados que vêm a seguir e compareçam nos locais de voto e exerçam o seu direito cívico”. Quem tais palavras proferiu chama-se Aníbal António Cavaco Silva e é um ilustre economista e político português, que, nascido em Boliqueime ao 15.º dia do mês de Julho do ano de 1939, guindou a sua bem-sucedida carreira pública até subir ao mais alto degrau que um cidadão luso pode almejar: a Presidência da República.

Pois é, meu caro Aníbal, bem te podes queixar da má sorte de teres de marcar eleições para uma semana tão repleta de tão saborosos feriados (o 13 de Junho, em Lisboa, não conta, porque calha a um sábado). Ainda por cima, a semana de doces dias de lazer tem lugar naquele mês em que as tépidas águas do mar bailam por entre areais dourados, que, com o seu chamamento mágico, fazem cair nas suas garras (ou areias) centos e mais centos de eleitores.

Contudo, a verdade é que a realização da semana das Eleições Europeias é decidida em Estrasburgo, uma cidade sem praias, nem mar. Poder-se-ia argumentar que o Parlamento Europeu não pode tomar em atenção todas as especificidades locais de todos os 27 estados-membros e que os ilustres eurodeputados não podem estar a marcar as eleições noutra data por causa de Portugal, das suas praias e dos seus calores amenos de Junho.

Na verdade, há quem argumente que o Parlamento Europeu se está a cagar para Portugal. Mas se em Portugal e nas suas especificidades cagam, que os eurodeputados não contem com a merda do voto dos portugueses.

ROYAL STRAIGHT FLUSH (2): A morte da solteirona

Ler a obra de Jane Austen representa uma viagem até um dos maiores medos femininos da Inglaterra pré-vitoriana: o de ficar solteirona. Sim, porque naqueles anos (Jane Austen viveu entre 1775 e 1817), o destino único da mulher era o casamento e toda a jovem que atingisse a barreira dos 30 anos sem «dar o nó», ganhava imediatamente o rótulo de «solteirona».

Na classe operária, tal estigma não seria particularmente doloroso (na Grã-Bretanha da Revolução Industrial, o operariado tinha grandes semelhanças a uma massa escravizada, como, mais tarde, denunciou Karl Marx), mas, da pequena burguesia para cima, ser-se solteirona era ser-se uma mulher sem préstimos, sem qualidades, sem qualquer razão para viver. Na verdade, a mulher era vista, neste contexto, como uma boa forma de o «pai de família» poder protagonizar um trajecto de ascensão social (se a filha casasse com alguém de uma classe superior) ou como modo de poder injectar algum dinheiro na arruinada casa (são muitos os exemplos de casas da pequena nobreza que, ao atingirem a ruína, optavam por um enlace de um filho com uma pequena oriunda de uma burguesia endinheirada, embora desprovida de brasão).

Curiosamente, este pensamento vingou numa época em que o romantismo colocou o amor em primeiro plano. Contudo, para muitas jovens, esta exaltação do romantismo existia tão-somente na literatura da época, que acabava por se tornar numa espécie de escape da dura realidade (e isto explica o sucesso de muitos autores da época).

A Era Vitoriana (que podemos balizar entre 1837 e 1901) acentuou ainda mais este tipo de pensamento, que, regra geral, se manteve bastante vivo até ao século XX na Europa ocidental.

É difícil estabelecer uma cronologia para a «morte» das solteironas, mas o que é certo é que este estigma foi desaparecendo à medida que a mulher foi começando a entrar para o ensino superior e a conquistar o seu espaço no mundo laboral. De início, o processo começou com as jovens oriundas das classes mais elevadas, que mais facilmente tinham acesso a uma faculdade, mas, ao longo dos anos, esta libertação foi ganhando um cunho interclassista. Quando chegamos a finais dos anos 80 e ao início da década de 90, vemos os estabelecimentos de ensino superior repletos de jovens raparigas, que, no simples gesto de acederem ao mais alto grau de ensino, pareciam dizer ao Mundo que o casamento não era o único destino que lhes estava reservado.

Bem sei que, ainda hoje, não há uma real paridade entre homens e mulheres. Bem sei que o caminho para a igualdade não chegou ao fim. Mas sei também que, pelo meio, as mulheres tiveram a maior conquista que poderiam algum dia imaginar: a palavra «solteirona» foi banida do vocabulário do dia-a-dia sem que muitos e muitas se apercebessem de tal. Foi banida num contexto de crise do casamento, mas, sobretudo, num momento em que a sociedade ocidental passou a ver o matrimónio de uma forma completamente diferente, em que a felicidade de ambos os lados é aquilo que realmente interessa.

Hoje, uma mulher pode ser solteira depois dos 30 anos e pode até manter-se assim por toda a vida. Hoje, uma mulher ter o direito de ser o que é e o que quiser ser e não apenas um estado civil.

Estes pequenos detalhes, como o facto de a palavra «solteirona» se ter tornado obsoleta, mostram que, afinal, a sociedade pode evoluir. E muito mais caminhará até que possamos, de facto, falar em liberdade.

Nota: A foto é de Jane Austen, que faleceu aos 42 anos, sem nunca ter casado. Aos olhos da época, morreu solteirona.

A MANILHA VAI SECA (12): PSD «vestido» de conservador para ser do PPE

Há coisa de um mês, publiquei em papel (mas não neste espaço) um artigo de opinião no qual chamava a atenção para uma questão que acabou por ser levantada por Vital Moreira.

Diz o ilustre socialista nas horas vagas e cabeça-de-lista do PS às Eleições Europeias que o PSD e o CDS-PP “estão reunidos no PPE, onde aliás não se distinguem”. Por isso, argumentou o douto académico de Coimbra, “em Portugal é a mesma coisa votar PSD ou CDS, porque no Parlamento Europeu há apenas PPE”.

Dou toda a razão do Mundo a Vital Moreira, que alertou o eleitorado para uma questão deveras pertinente: os eurodeputados são eleitos através das listas dos partidos nacionais, mas, uma vez chegados a Estrasburgo, sentam-se nas bancadas das grandes famílias partidárias europeias. E é aqui que começa a confusão.

O PS integra a bancada do PSE, o Partido Socialista Europeu, a segunda maior família política de Estrasburgo. Até aqui, tudo bem.

Contudo, o Parlamento Europeu é dominado pelo PPE (Partido Popular Europeu), que une, essencialmente, forças políticas europeias de matriz conservadora ou democrata-cristã, como, por exemplo, o PP espanhol ou o Conservative Party inglês. Se acham que o PPE seria, por definição, o espaço político de acolhimento do CDS-PP, fiquem a saber que o partido de Paulo Portas só há muito pouco tempo aderiu a esta família política, onde, durante largos anos, a representação portuguesa esteve a cargo do PSD… que não é democrata-cristão, nem conservador.

Confuso?

Para mim é.

Nas próximas Eleições Europeias, o PSD poderá, finalmente, aproximar-se novamente do PS, mas será justamente no sufrágio em que o partido de Manuela Ferreira Leite se tem de «mascarar» de CDS-PP para entrar na maior família política europeia. De facto, o PSD é um partido estranho e uma das maiores singularidades da política portuguesa, mas este é um tema para um próximo (e longo) post. Por agora, com esta questão, deixo-vos só um aperitivo…

segunda-feira, 25 de maio de 2009

VALETE DE COPAS (2): Duas semanas depois

Passaram quase duas semanas desde o dia em que, de forma pacífica e traumática, coloquei um ponto final na minha ligação a uma certa empresa. Estranhamente, sinto-me apenas um pouco melhor. Apenas um pouco, agora que findou o terror. Temo que reais e efectivas melhorias no meu estado de espírito possam demorar ainda algum tempo. Os horrores laborais deste último ano foram maiores do que eu poderia imaginar e temo que as sequelas possam manter-se por muito tempo.

Há momentos em que me sinto incapaz para escrever o que quer que seja. É mau demais para quem ganhou a vida a escrever. A inspiração foge-me por entre os dedos, por entre os poros de uma mente cansada, sem ânimo. Não sei onde quero estar ou se quero estar algures.

Nada sei.

A não ser que ainda sinto em mim vestígios de meses que não deveriam ter existido.

Por favor, não deixem que vos façam o que me fizeram. A vossa saúde mental não tem preço, nem mesmo o de um ordenado ao fim do mês… que, no meu caso, raras vezes era pago. Devia ter cortado o mal pela raiz há muito tempo…

domingo, 24 de maio de 2009

A MANILHA VAI SECA (11): Eles, europeus

“No dia 7 de Junho, vamos mesmo votar para quê?”

A pergunta foi-me dirigida por uma amiga na passada sexta-feira, a meio de uma amena cavaqueira. Curiosamente, já outras pessoas me tinham feito a mesma questão.

Há cartazes e outdoors por toda a parte. Há notícias e debates nos jornais, nas rádios, nas televisões. Há comícios e iniciativas políticas por toda a parte. Ninguém liga. De súbito, Portugal é tomado por uma estranha letargia que faz com que toda a elite política cá do burgo se tivesse transformado em algo tão visível como um Dez de Paus num jogo de Sueca.

Eleições Europeias.

Diz-vos alguma coisa?

Se calhar, o problema não será exactamente esse. Se calhar, deveria colocar a questão noutros termos: Europa, diz-vos alguma coisa?

Sabemos que somos europeus porque tal nos foi ensinado na escola. Geograficamente, faz sentido. Além do mais, sabemos que não somos africanos, nem asiáticos. Ou seja, devemos ser europeus. E acabou por aí. O “Nós, Europeus” de Vital Moreira e do PS é muito bonito, dá um ar sofisticado à coisa, mas nada diz à esmagadora maioria dos portugueses. Na verdade, nada diz à esmagadora maioria da classe política portuguesa, que parece mais interessada em discutir assuntos de índole interna (já com as Legislativas em mira) do que em debater as verdadeiras questões da União Europeia, as quais não se esgotam na adesão da Turquia ou no Tratado de Lisboa. Há matérias relacionadas com trabalho, direitos humanos, migrações, ambiente, economia, finanças e muitos outros temas que deveriam fazer parte dos debates e das conversas do dia-a-dia…

Isto se os portugueses fossem, de facto, europeus.

Uma das questões mais analisadas quando se olha para a tabela da Liga Sagres é ver quem consegue o acesso às competições europeias. “Ir à Europa”, como vulgarmente se diz. Dito assim, parece que os clubes portugueses jogam num campeonato extra-europeu, um pouco como sucede com Israel.

Quando José Manuel Durão Barroso abdicou do cargo de primeiro-ministro de Portugal para presidir à Comissão Europeia, muitos proferiram a sentença: “Fugiu para a Europa”. Não só não fugiu, como, tecnicamente, nunca deixou de estar no Velho Continente. Mas, na prática, Lisboa e Bruxelas pertencem a continentes diferentes.

Há, em tudo isto, um resquício do “Orgulhosamente Sós” do Estado Novo. Mas há também uma forma de sentir de um povo, que imagina a Europa como sendo composta por países como a Alemanha, França, Grã-Bretanha, Bélgica, Suécia, Dinamarca, Finlândia ou os Países Baixos. Há um povo que sente que, entre Portugal e Espanha, há um fosso de desenvolvimento (que começa nas próprias mentalidades) demasiado grande para poder considerar que ambos os países pertencem ao mesmo continente. E se tão grande é a distância de Lisboa para Madrid, o que não dizer do caminho para Paris, Londres ou Berlim. Tomamos como referência os mais desenvolvidos países do Velho Continente e sentimo-nos pequeninos, insignificantes, distantes… e diferentes dos europeus.

É um estado de alma.

Por isso, o Dr. Mento não necessita de ver as cartas que saíram a cada um para saber como vai acabar este jogo: Com uma abstenção superior a 60 por cento.

Querem apostar?