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sábado, 8 de agosto de 2009

CARTAS SEM NAIPE (3): Os humoristas não deviam morrer

Se há coisa que me custa realmente é ouvir anunciar a morte de um humorista.

É como se, de súbito, milhões de sorrisos se calassem.

O riso, esse dom tão humano e tão genial, representa um vislumbre do que pode ser a felicidade, ainda que de forma efémera.

Os humoristas dão-nos essa felicidade, esse prazer pelo qual vale a pena viver, apesar de tudo.

Não está certo.

Os humoristas jamais deviam morrer, posto que associar uma pessoa que nos faz rir ao verter de lágrimas de tristeza é algo que não pode, de forma alguma, fazer sentido.

Não, num Mundo justo, os humoristas viveriam para sempre.

Seriam eternos.

Bem, alguns são eternos.

Raul Solnado é um deles.

Ouvi dizer que ele partiu, mas sei que, no fundo, ele estará cá para sempre.

E está.

A fazer-nos rir.

Obrigado por tudo, Raul.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

CARTAS SEM NAIPE (2): Fim de ciclo, fim de moda, fim de revivalismo, fim de tudo, FIM!

Confesso que nunca fui apreciador da música do senhor (mesmo!), apesar de lhe reconhecer qualidades como bailarino e showman e de saber perfeitamente que o Thriller (a faixa título do álbum mais vendido do senhor) revolucionou a forma de fazer videoclips. Nunca lhe apreciei a personalidade extravagante, nem o vedetismo e sempre me perguntei porque conseguia vender tanto quando, para mim, o cavalheiro não era nada de especial musicalmente. Sempre foi essa a minha opinião, respeito quem pensar de forma diferente (provavelmente, a maior parte das pessoas), mas não é pelo facto de ele ter partido do mundo dos vivos que vou vê-lo de forma diferente.

Para o bem e para o mal, era daquelas figuras que esteve sempre presente na vida de quem passou pelos anos 80 (especialmente, quem era jovem nesta década louca e de gostos estranhos).

Não senti pela morte de Michael Jackson o mesmo que senti, por exemplo, quando, há alguns anos, cheguei a Portugal de lua-de-mel e soube que Quothon (aliás, Tomas Forsberg) tinha morrido aos 39, também ele vítima de um coração que se recusou a colaborar. Mas não coloco Jackson e Quorton no mesmo patamar: o segundo era, para mim, uma referência musical e um dos ídolos de juventude (sentimento que não morreu quando percebi que, ao contrário das lendas, não tocava todos os instrumentos nos seus álbuns); já o primeiro era uma referência colectiva, cuja presença nos anos 80 foi tão marcante e constante que até me esqueci que, afinal, o homem já tinha 50 anos.

A actual década, que está quase a findar, aprendeu a recordar, apreciar e quase idolatrar as loucuras dos anos 80, depois de a década de 90 ter considerado a sua antecessora como uma fase de mau gosto e parola, ao mesmo tempo que quase venerava os anos 70; na próxima década, quase que aposto que vamos voltar a ouvir Nirvana a toda a hora e a usar aquelas camisas de flanela à Kurt Cobain. A tournée de regresso de Michael Jackson seria uma espécie de despedida do revivalismo dos 80's na forma de despedida (musicial) de um dos maiores íncones pop da década, mas quis o destino que milhões de fãs (nos quais não me incluo) ficassem sem esse gostinho. A vida e as modas não passam de ciclos e Michael Jackson há muito que deixara de ser uma moda. Agora, deixou também de pertencer ao mundo dos vivos. Que descanse em paz.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

CARTAS SEM NAIPE (1): Um pouco de Ícaro

Em todos nós há um pouco de Ícaro.

De afronta em afronta, a espécie humana foi enfurecendo os deuses. Num instante, eles, humanos, mais mão eram do que meros animais como os demais. No momento seguinte, criaturas deidificadas pelo engenho e arte, pelo saber e por uma ânsia de superação.

Durante séculos, o aperfeiçoamento da técnica elevou a espécie humana a patamares que os seus antepassados jamais haviam sonhado. Mas muitos séculos foram consumidos até que o sonho de Ícaro e Dédalo em fuga passasse da lenda para a realidade.

Sabemos que as asas de penas coladas com cera de Dédalo são tão lendárias como o destino do seu imprevidente filho, Ícaro, que, fascinado pela beleza do sol, viu as suas asas destruídas e a sua vida terminada numa queda sobre o mar. Porém, a história ficou, a mensagem passou e o sonho não esmoreceu. E é por isso que homens como os irmãos Wright ou Santos Dumont não são lendas, mas sim humanos de carne e osso que materializaram as asas de Dédalo em enormes pássaros de metal, novos senhores dos céus, capazes de elevar a espécie humana à divina condição.

Mas nem sempre somos Dédalo e nem sempre somos capazes de chegar à Sicília da nossa libertação. Por vezes, somos Ícaro. Por vezes, pagamos o tributo de sangue pela audácia de viajarmos pelas nuvens, qual Hermes calçando as suas sandálias aladas.

Por vezes, há voos 447.