segunda-feira, 20 de julho de 2009

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (4): Preconceito (I)

“Ninguém é preconceituoso. Excepto em relação a todos os que não são como nós.”

Dr. Mento

domingo, 19 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (60): Costa não pode ser como Sampaio?

A aliança entre António Costa e Helena Roseta para as Eleições Autárquicas em Lisboa pôs muita gente a falar sobre as eventuais consequências políticas deste acordo, até porque a vereador do movimento Cidadãos Por Lisboa garantiu o segundo lugar na lista do PS, ainda que tendo estatuto de independente.

Antes mesmo do anúncio oficial, houve logo quem suspeitasse que, caso Costa avançasse para uma candidatura à liderança do PS, deixaria Roseta como edil de Lisboa. Na conferência de imprensa de apresentação do acordo, Helena Roseta abordou esse tema, o qual já figurava no memorando do acordo entre PS e Cidadãos por Lisboa: “As substituições ocasionais dos eleitos serão feitas de modo a garantir que o eleito de uma força política é sempre substituído por outro da mesma força política. Para efeitos do nº 2 do artigo14º da lei eleitoral autárquica (substituição definitiva do Presidente da Câmara “em caso de morte ou doença que determine impossibilidade física ou psíquica, de perda de mandato ou de opção por função incompatível”), o primeiro independente indicado pelo movimento CPL assegurará que a substituição recaia no seguinte da lista, indicado pelo PS”.

Acho muito bem que estas questões sejam esclarecidas - por escrito e publicamente - para não haver quaisquer dúvidas. Mas, tirando isso, deu-se demasiada importância a esta questão e Pedro Santana Lopes foi logo o primeiro a fazê-lo. Santana entende que esta discussão tem a ver com o pressuposto de que José Sócrates vai perder as Legislativas e sair da liderança do PS, a qual será disputada por António Costa. Para o menino-guerreiro, tudo isto é uma gigantesca desconsideração em relação a Sócrates e aos próprios lisboetas.

O problema é que Santana só tem razão em parte. Neste momento, existe a possibilidade de o PS perder as Legislativas, certo? Se os socialistas forem derrotados a 27 de Setembro, Sócrates pedirá automaticamente a sua demissão do cargo de secretário-geral do PS, o que faz sentido quando a primeira figura de um Governo vê o seu programa e acções governativas derrotados nas urnas (só Santana é que não entende isso, mas isso são contas do peculiar rosário do senhor). Ora, se Sócrates se demitir, António Costa posiciona-se como uma boa escolha para ocupar a liderança dos socialistas e, quanto a isso, parece haver um certo consenso.

Só que o cargo de secretário-geral do PS não é incompatível com o de presidente da Câmara Municipal de Lisboa - Jorge Sampaio acumulou os dois cargos e não veio mal algum ao Mundo por causa disso. Mesmo no PSD, o anterior líder, Luís Filipe Menezes, era líder do partido e, ao mesmo tempo, governava o terceiro concelho mais populoso do país.

Daí que a questão da eventual saída de Costa da Câmara para a liderança do PS seja, na verdade, uma falsa questão. Mesmo.

A MANILHA VAI SECA (59): Querem continuar a ser pobres?

Um dos truques políticos mais curiosos é uma espécie de chantagem que certos políticos fazem com o eleitorado, sendo que, neste capítulo, José Sócrates é mestre na arte de ameaçar subtilmente o eleitorado.

Por isso, no encerramento do Fórum Novas Fronteiras 2009-2013, no Porto, o secretário-geral do PS anunciou que o programa eleitoral dos socialistas vai incluir um novo subsídio para as famílias, sendo que a nova prestação social (que, obviamente, já não é para esta legislatura) irá beneficiar os casais que trabalham e têm filhos, mas cujo rendimento per capita do agregado familiar é inferior ao limiar da pobreza.

No discurso em que fez este anúncio, Sócrates abordou inúmeras vezes as políticas sociais desenvolvidas por este Governo. De súbito, fez-me lembrar o seu antecessor (e colega de Governo), Eduardo Ferro Rodrigues, que, nas legislativas de 2002, não parava de enaltecer as medidas sociais do Executivo de António Guterres. Se Ferro falasse do novo aeroporto de Lisboa, chamar-lhe-ia “aeroporto social” - aliás, ele próprio liderou o Ministério do Equipamento Social, uma designação à socialista para a pasta das Obras Públicas. Claro que Sócrates não falou em “aeroporto social”, mas andou pela mesma linha, ao lembrar a criação do complemento social para idosos e do abono pré-natal e os aumentos do salário mínimo nacional, do abono de família e da acção social escolar.

Só que as palavras de Sócrates são como uma espécie de ameaça escondida ao eleitorado. Não vou discutir se estas medidas sociais são boas ou más, até porque iniciativas deste género são sempre como as moedas: Têm dois lados. Basta ver uma das grandes criações de Guterres, o Rendimento Mínimo Garantido.

Basicamente, o que o primeiro-ministro quer dizer é algo como: “Se votarem em nós, o Governo vem, dá subsídios e ajuda os pobrezinhos. Se votarem no PSD, vêm os mauzões da direita e tira-nos isso tudo, para deixarem as criancinhas a passar fome”. Sócrates nunca diz quem paga esses subsídios (não interessa se são justos ou injustos), porque, se o fizesse, uma parte do eleitorado fugiria a sete pés do PS. A verdade, quando a há, fica sempre pela metade.

Esta estratégia de acenar com os papões da direita costuma produzir bons frutos para a esquerda (e até para o PS), ao ponto de, para alguns sectores menos informados da população, o Governo de Durão Barroso ter ficado conhecido como o carrasco do Rendimento Mínimo Garantido, quando o que fez foi, na verdade, mudar-lhe o nome e alterar um pouco as condições de acesso à dita prestação.

Quando a campanha eleitoral começar mesmo a sério, vamos voltar a ouvir falar nos papões da direita, nos mauzões que querem um Estado mínimo que se está a cagar para toda a gente, menos para uma pequena clique que transacciona favores e dinheiros de forma mais ou menos legal, mas sempre imoral. Muitos dos que se dizem de esquerda (e há tantos assim no PS) adoram este tipo de discurso maniqueísta e, muitas vezes, recheado de inverdades.

Querem um exemplo? Na segunda volta das presidenciais de 1986, muita gente no PCP pôs a correr os mais incríveis boatos do que aconteceria a Portugal se Freitas do Amaral ganhasse as eleições, havendo quem dissesse que iríamos voltar aos tempos de Mr. Salazar. E foi assim que muita gente, mesmo não gostando de Mário Soares, lá entregou o seu voto vitorioso ao fundador do PS. 19 anos depois, o mesmo Freitas do Amaral que era pior do que Salazar acabou num Governo do partido do Soares que salvou o país do fascismo.

O tempo é um excelente conselheiro, meus amigos.

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (3): Sofrimento

“O valor exacto do limite de sofrimento do ser humano é exactamente o mesmo valor da sua capacidade de auto-destruição”.

Dr. Mento

sábado, 18 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (58): O impacto de Chão da Lagoa

Há quem lhe chame ditador, vigarista, malcriado, boçal e o diabo a sete, mas não falta quem lhe gabe a obra feita e a determinação. O que é verdade é que ninguém fica indiferente a Alberto João Jardim, o enfant terrible da política portuguesa, que, volta e meia, faz declarações de pôr os cabelos em pé a um santo. Na festa anual do PSD/Madeira, em Chão da Lagoa, costumam surgir discursos dos mais incríveis que há memória em Portugal, alguns deles ofensivos para os continentais, para todos os portugueses e, por vezes, até para os madeirenses.

Só que Jardim tem a importância que tem porque todos dão às suas palavras demasiada importância. Por mim, já deixei de dar para esse peditório e vejo o discurso de Chão da Lagoa como um dos melhores momentos de stand-up comedy do ano. Ainda por cima, Jardim, quando fala, nunca está sóbrio, o que torna a coisa ainda mais divertida e surpreendente (e o homem consegue ser dos poucos bêbados que não é chato e não diz que ama toda a gente).

Mas… sendo assim, porque é que se dá tanta importância às palavras de um barrigudo mal-encarado com uma tosga daquelas?

Meus amigos, este ano, a festa de Chão da Lagoa realiza-se a 26 de Julho.

Estão bem a ver a data? É em pleno Verão, altura em que, nas redacções de todo o país, o pessoal se contorce para arranjar notícias de jeito que possam fazer as primeiras páginas. Se houver muitos incêndios, dá para encher páginas com isso, mas, se chover um bocadinho em pleno Agosto, a coisa fica preta. É que até a porcaria da Assembleia da República está de férias (ou seja, não há cornos, nem deputados remetidos para o caralho) e não há debates para animar a malta. Se os conselhos de ministros que se forem realizando não tiverem nada de jeito, pior ainda. Como não dá para ter reportagens bombásticas todos os dias, a realização de uma primeira página nesta época torna-se uma tarefa algo penosa.

É neste contexto que surge Chão da Lagoa. Jardim aproveita um certo vazio de coisas novas no mundo da política para dizer o que lhe der na real gana. E di-lo mesmo com o intuito de chocar, para ganhar protagonismo, para ser manchete. Se o dia em questão for particularmente morto em termos noticiosos, Jardim tem umas quantas primeiras páginas garantidas com um par de bujardas contra este e contra aquele e contra tudo o que mexe.

É simples, demasiado simples. E, em rigor, pouco importante.

A MANILHA VAI SECA (57): PS, oportunismo e realidade

Já várias referi que considero o interesse de José Sócrates pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo como uma estratégia puramente eleitoralista, marcada por um cinismo que me choca. Afinal, o PS chumbou os projectos do BE e do PEV para legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo (acusando ambos os partidos de oportunismo político) e, logo em seguida, Sócrates anunciou justamente que o matrimónio entre homossexuais seria uma realidade na próxima legislatura. Ou seja, Sócrates quis usar os homossexuais como forma de piscar o olho a uma série de socialistas descontes, que, cada vez mais, vão pôr a cruzinha no BE (desde sempre, o partido mais genuíno na defesa dos LGBT). E convém sublinhar que, em Portugal, cerca de dez por cento da população será homo ou bissexual, o que, na hora de contar os votos, pode dar um jeito do caneco.

O que é verdade é que este Governo se está nas tintas para os homossexuais, ao ponto de o Ministério da Saúde proibir estes de poderem dar sangue. Mas só os homossexuais masculinos, para a discriminação ser mesmo a sério. Afinal, já não bastavam todas as discriminações que os homossexuais já sofriam. Agora têm mais esta: São considerados um grupo de risco, apesar de a SIDA estar a alastrar, curiosamente, entre heterossexuais. Neste particular, não deixa de ser interessante verificar que os bissexuais (mesmo masculinos) e as lésbicas não constituem grupos de risco. Ou seja, quem tiver relações sexuais com mulheres, mesmo que também tenha com homens, está na boa. Fazer sexo só com homens é que não, que isso faz mal.

No fundo, o que se passa é que Ana Jorge, a titular da pasta da Saúde, é, na verdade, tão homofóbica como Manuela Ferreira Leite, que, como se sabe, é uma homofóbica declarada. Ora, se o PS nos oferece um Governo com posturas homofóbicas e se isso choca alguém (a mim choca-me), mais vale votar no PSD… ou no BE.

Em tempos, achei que José Sócrates iria fazer uma ponta final de mandato verdadeiramente enérgica, de molde a vencer as Legislativas ou, pelo menos, para tentar vender cara a derrota. Só que Sócrates é uma coisa, os seus ministros são outra, apesar de caber ao líder do Governo a escolha da sua equipa. Ao optar por gente pouco qualificada do ponto de vista político, Sócrates conseguiu brilhar como o número um do Governo, mas agora arrisca-se a deitar tudo a perder. É que, depois dos cornos de Manuel Pinho, esta homofobia declarada de Ana Jorge é mesmo boa para deitar votos no lixo… ou nos dois principais adversários na corrida de 27 de Setembro.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (56): Alvo muito bem definido

A estratégia não é nova. Tem qualquer coisa como dez anos de vida.

Ao longo de uma década de existência, o Bloco de Esquerda tem sobrevivido graças aos descontentes com o rumo que o PS tem vindo a tomar. Foi assim em 1999, quando, nas Legislativas, os dois deputados eleitos pelo BE roubaram a esperada maioria absoluta ao PS de António Guterres, o qual ainda aparentava ser um pouco mais socialista do que o PS de José Sócrates.

Mais do que uma soma de três forças políticas (UDP, PSR e Política XXI) com uns quantos intelectuais de esquerda, o BE começa, cada vez mais, a querer ser o PS que muitos socialistas gostavam de ter, mas não têm. Apesar de, em muitos aspectos, o BE ainda se assemelhar aos velhos partidos de esquerda radical (designadamente ao PCP), a estratégia do partido de Francisco Louçã passa, antes de tudo o mais, por ir esvaziando este PS onde o socialismo repousa numa gaveta secreta do Largo do Rato. E uma simples parcela de um discurso de Louçã em Lisboa revela-nos bem que os descontentes com o PS são um alvo mais do que definido: “É preciso esquerda, uma esquerda solidária, socialista, que saiba o que quer e que lute pelo que quer”.

“Uma esquerda solidária, socialista”. Gostei do pormenor do “socialista”. É como se Louçã dissesse sem dizer: “Socialistas, olhai para o Bloco de Esquerda, o verdadeiro partido socialista”.

É verdade que o BE poderia captar votos do PCP, partido que, ao longo dos anos, tem resistido à mudança de forma absolutamente heróica e sem mexer uma vírgula nos seus ideais. E digo heróica porque o Mundo mudou - e muito - mas o PCP consegue manter-se bem vivo, mesmo algo anacrónico. Só que Louçã sabe que o eleitor tradicional do PCP não é muito dado a mudanças e, entre os eleitores ferrenhos dos comunistas, há gente a quem fará muita confusão que pessoas do mesmo sexo possam casar-se ou que os animais (especialmente os touros) possam ter direitos.

Não quero com isto afirmar que o BE é mesmo um novo PS, até porque as linhas programáticas de ambos os partidos estão demasiadamente afastadas (o PS, até na sua própria génese, é demasiado parecido com o PSD para poder ser confundido com o Bloco). Mas Francisco Louçã, hábil, sabe que é ali, entre os descontentes do PS, que estão os votos.

É a política, meus amigos.

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (2): A verdade (I)

“Há muitas maneiras de se dizer a verdade e outras tantas maneiras de não se dizer a verdade.”

Dr. Mento

A MANILHA VAI SECA (55): A poncha que leva fel em vez de mel

Alberto João Jardim cumpre, presentemente, o seu derradeiro (será?) mandato à frente do Governo Regional da Madeira. Como tal, estamos a falar de uma figura que, em termos de carreira política, já nada tem a ganhar ou a perder, após, no ano passado, ter equacionado uma candidatura à liderança do PSD, que, como logo percebeu, nunca seria vencedora.

Diabolizado por uns, idolatrado por outros, Jardim é uma das mais estranhas criaturas que algum dia ocupou um lugar de topo na vida política portuguesa. E isso explica um conjunto recente de atitudes de Mr. Madeira, que, fingindo ser um solícito social-democrata sempre pronto para ajudar o partido, decidiu, isso sim, fazer a vida negra aos seus companheiros. Basicamente, Jardim anda numa de “estou-me a cagar para isto tudo” e, no âmago do seu ser, sentiu chegada a hora de uma pequena vingança contra Manuela Ferreira Leite, a mulher que lidera o PSD nacional e que venceu umas eleições que ele nunca conseguiria ganhar.

Todos sabem que Alberto João Jardim odeia comunistas e que, se pudesse, mandaria matar todos os militantes do PCP. Todos sabem que Alberto João Jardim gostaria de fazer da Madeira alguma coisa como um jovem, que vai morar para a sua própria casa e faz vida de independente, jamais autorizado que os pais se metam na sua vida, mesmo quando são os progenitores a pagar todas as contas.

Até aqui, Jardim conteve-se nas suas palavras. Nunca pediu que a Constituição proibisse o comunismo ou que o representante da República Portuguesa na Madeira deixasse de existir. Mas agora, o velho folião está-se a cagar para o que possam pensar e diz o que bem lhe dá na gana, ao ponto de defender o comboio de alta velocidade, quando se sabe que Manuela Ferreira Leite diz que esse é um projecto para abandonar.

As referências à suposta abolição do comunismo foram cirurgicamente escolhidas por Jardim, que (alegadamente) dá enormes provas de falta de tacto democrático… justamente no partido onde a líder, numa gafe descomunal, referiu a suspensão da democracia por seis meses em Portugal (sei o sentido das palavras da senhora na altura e sei que não era isto que ela queria dizer, mas foi esta a impressão que passou para a opinião pública). Ao mesmo tempo, numa altura em que o PSD esconde os velhos sinais de desunião depois da vitória nas Europeias (os sabujos do costume já sentem o cheiro a tacho), vem Jardim desdizer o que diz Ferreira Leite, fazendo ressurgir o fantasma do partido onde todos enfiam facas nas costas uns dos outros.

Trocando tudo isto por miúdos, Jardim está a ser um grande filho-da-puta. E até tremo ao pensar que discurso o velho gordo e feio fará em Chão da Lagoa, quando tiver Manuela Ferreira Leite ao seu lado. É que, por acaso, quando discursa na festa do PSD/Madeira, Jardim nunca está sóbrio. Longe, disso.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (1): Pessoas e moedas

"As pessoas são como as moedas, têm uma cara e uma coroa. Mas, por norma, mostram-nos, em primeiro lugar, a face mais bonita e só depois o reverso da mesma."

Dr. Mento

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (54): Vai uma poncha à pescador, Manuela?

Ainda me consigo surpreender.

Em tempos, critiquei a postura das elites do PSD, que, por se acharem elites, evitavam ao máximo o contacto directo com o povo desdentado e suado, de gentes que exibem farfalhudos bigodes e bocas com falta de uns quantos dentes. Entre aqueles que julgam pertencer a uma elite dentro do PSD (e a uma elite dentro do próprio país) temos a própria líder do partido, Manuela Ferreira Leite.

No ano passado, Miss Política de Verdade optou por não marcar presença da tradicional Festa do Pontal, que, no coração de um Algarve que concentra quase todo o Portugal de Agosto, costumava marcar a reentré política do PSD em clima de festejo popular. Em vez de se misturar com o povo que cheira a sardinhas e a suor, Ferreira Leite escondeu-se na higiénica Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide, onde as elites do PSD debatem os problemas e as soluções para o país bem longe do povo que o habita. Nada contra a existência de um fórum onde um dos maiores partidos debate o que pretende para Portugal, mas tudo contra uma postura de “nós somos a elite, nós somos bons, nós não nos misturamos com a gentalha”.

Só que isto foi em 2008 e 2009 é ano de muitas eleições. Vai daí, Ferreira Leite decide que, para poder ganhar as simpatias do eleitorado, tem de mudar urgentemente aquela imagem de pessoa distante, sisuda, altiva e pouco acostumada aos contactos com as gentes do povão. José Sócrates, Paulo Portas, Jerónimo de Sousa e Francisco Louça não têm quaisquer problemas em apertar a mão aos descamisados e não se furtam mesmo a dois dedos de conversa com alguns populares que encontram no caminho.

Não sei se Ferreira Leite já se sente mais à vontade nos contactos com a população ou se esta imagem é algo artificial, mas sinto que, da parte da líder do PSD, há uma vontade clara de vencer as Legislativas em Setembro. Por isso, Miss Política de Verdade vai marcar presença em Chão da Lagoa, a popularucha festa do PSD-Madeira onde, todos os anos, Alberto João Jardim, tolhido pelos desígnios de Baco, de umas quantas ponchas e algumas nikitas, vocifera as maiores barbaridades contra o Governo (seja ele qual for), contra Lisboa e contra os portugueses de Portugal Continental. Jardim sente-se bem entre o povo e não tem quaisquer problemas em beber uns canecos no meio das gentes que cheiram a sardinha assada. Ferreira Leite vai ter de se habituar e, se calhar, até vai ter que mandar abaixo uma poncha à pescador diante da maior participação de sempre em Chão da Lagoa (o secretário-geral dos sociais-democratas madeirenses estima que estejam lá 40 mil pessoas, o que se traduz num público superior ao de muitos festivais de Verão).

Não tenho a certeza se Ferreira Leite vai estar também na Festa do Pontal, mas, por esta altura, já nada me surpreende. É junto do povo que muitos vão ganhando votos e Paulo Portas sabe, melhor do que ninguém, como é que isso se faz.

ESPADAS QUE PICAM (15): A instrumentalização da boa-fé dos resistentes

Numa empresa em queda livre, há quem entenda que todos os expedientes são válidos para manter o barco à tona. Um dos expedientes mais comuns é, infelizmente, o dos salários em atraso, uma solução que gera inúmeros problemas ao trabalhador, que, para além de não ter como cumprir as suas obrigações mensais (as contas da água, da luz, dos seguros, dos empréstimos para a casa e carro, entre outros), vê-se numa situação em que continua a ter de arcar com as despesas normais para ir trabalhar (transportes, combustíveis ou refeições, por exemplo), mas sem ver um chavo por um período de tempo indeterminado.

Como é óbvio, o Código do Trabalho prevê este tipo de situações e determina que, “quando a falta de pagamento pontual da retribuição se prolongue por período de 60 dias sobre a data do vencimento, o trabalhador, independentemente de ter comunicado a suspensão do contrato de trabalho, pode resolver o contrato”. De acordo com a Lei 35/2004 de 29 de Julho (Regulamentação do Código do Trabalho), o trabalhador nesta situação tem direito, entre outras coisas, à respectiva indemnização e ao subsídio de desemprego.

Até aqui, nada de mais. Se o trabalhador tem três meses de salários em atraso (os tais 60 de atraso sobre a data de vencimento), rescinde unilateralmente o seu contrato e vai à sua vida, sem perder os direitos que teria se fosse a entidade patronal a rescindir.

O problema é que, em casos como este, há sempre aqueles que optam por ficar a aguentar o barco, mesmo tendo a lei do seu lado (conheço vários casos assim, sendo que eu próprio já me encontrei, a dada altura, numa situação destas).

As razões que levam alguns trabalhadores a continuar a trabalhar mesmo sem ordenados são muitas. Em primeiro lugar, conheço quem sinta pavor perante a mudança, diante desse desconhecido que é a condição de desempregado. Mas há também quem fique por não querer ficar desocupado em casa, mesmo com algum dinheiro no bolso (do subsídio de desemprego, entenda-se). Haverá quem rejeite a rescisão pela vergonha social de perder o emprego, que, cada vez mais, se confunde com o próprio indivíduo em si. Há os que se mantêm para finalizar um estágio, totalmente obrigatório em certas categorias profissionais. Mas, sobretudo, os que ficam, fazem-no sempre tendo em mente a esperança de que se trata apenas de uma fase passageira e que as coisas poderão melhorar no futuro.

Esta boa-fé (e esperança) dos resistentes é, muitas vezes, instrumentalizada pelo patronato, que, em tempos de crise, vê aqui uma janela de oportunidades para poder reduzir despesas (com os ordenados que deixaram de ser pagos) e continuar a ter o trabalho feito, o qual, em princípio, gerará sempre algum lucro. Quando tal acontece, os atrasos de um mês passam a atrasos de dois meses e, rapidamente, crescem para três, quatro, cinco, seis meses. Nestas alturas, há até empresas que conseguem apresentar serviços a preços inacreditavelmente competitivos, já que a mão-de-obra não tem, na prática, qualquer custo com remunerações (embora os trabalhadores acreditem que sim).

Sei, por experiência própria, qual o desfecho destas histórias de atrasos sucessivos no pagamento de remunerações: No final (provavelmente, no momento em que for decretada a falência ou fecho da empresa), os trabalhadores perceberão que foram ludibriados e ficarão a arder com largas somas em dinheiro. E assim há alguns que se aproveitam da boa-fé de outros, para, em nome da crise, fazerem mais algum lucro.

Enquanto as entidades fiscalizadoras não tiverem mão pesada para situações como a que acabei de descrever, continuaremos a assistir a sucessivos atropelos aos direitos dos trabalhadores e ao próprio Código do Trabalho. E, uma vez mais, faço questão de frisar: As fugas ao Código do Trabalho, mais do que meras questões laborais, constituem também um problema de cidadania, de liberdades e direitos dos cidadãos.

domingo, 12 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (53): Outro que se posiciona

Até ao dia 7 de Junho, a ideia de uma derrota do PS nas Eleições Legislativas deste ano parecia uma possibilidade verdadeiramente remota, apesar de, aqui e ali, sinais claros de descontentamento popular anunciarem que o vento poderia começar a soprar para outro lado. Depois, veio o dia das Eleições Europeias e, num ápice, a ideia de uma derrota de José Sócrates e/ou de uma vitória de Manuela Ferreira Leite começou, rapidamente, a ganhar forma.

Ao sentirem que os dias de ouro de José Sócrates podem estar a chegar ao fim, muitas correntes e grupelhos internos do PS (demasiado parecidos com os que existem no PSD) começaram logo a contar espingardas à pressa, tendo em vista que, no dia 27 de Setembro, as coisas podem correr mal e os socialistas perderem as eleições. Se Sócrates sair derrotado daqui a dois meses e meio, certo é que, logo na noite das eleições, anunciará a sua demissão do cargo de secretário-geral do PS.

No post anterior, falei-vos da minha suspeita em relação à possibilidade de António Costa entrar na eventual corrida para a liderança do PS. Mas o que vos digo é que outro nome forte do PS pode igualmente entrar na corrida e estamos a falar, nem mais, nem menos, do que em Manuel Alegre.

Sócrates e Alegre começaram por disputar as Eleições Directas do PS (juntamente com João Soares), que levaram à vitória do primeiro sobre o segundo. Em seguida, foi o chumbo a uma candidatura presidencial de Alegre em detrimento de uma nova investida de Mário Soares. Depois de Alegre ter ficado à frente de Soares nas Presidenciais e de quase ter obrigado Cavaco Silva a ir a uma segunda volta, o deputado-poeta passou a ter uma ideia palpável da sua influência dentro do PS e na própria sociedade, pelo que começou a assumir uma postura de subgrupo dentro do próprio partido. Basicamente, Alegre imagina-se como o homem que poderá retirar o socialismo da gaveta, fazendo com que o PS regresse aos dias da pureza original.

Agora que Sócrates começa a patinar na sua corrida para um segundo mandato, Alegre posiciona-se como o seu possível sucessor, apesar de já ter batido na fasquia dos 73 anos. O artigo de opinião que o deputado-poeta publicou no Expresso deixa o gato escondido com o rabo de fora, apesar de o texto começar com uma espécie de apelo ao voto no PS contra o alegado terror que se avizinha se Manuela Ferreira Leite for eleita: “Nas europeias, não foi o PSD que teve um aumento significativo de votação, foi o PS que perdeu grande parte da sua base social, a ponto de, pela primeira vez, ter ficado aquém de um milhão de votos. Várias vezes falei de um buraco negro na esquerda. A soma da abstenção com os resultados do BE e do PCP mostram que esse buraco se situa na área do PS. Não é crível que personalidades de direita consigam recuperar para o PS o eleitorado que este perdeu para a abstenção e para a esquerda. Os socialistas não podem ter um discurso emprestado. Não se combate o liberalismo ultra com o liberalismo suave. Nem se vence o PSD com ex-ideólogos do PSD. Ainda é possível dar a volta. Mas algo tem de acontecer. Apesar dos erros, a bandeira do PS não está no chão. Mais política e menos marketing. Mais socialistas e menos figurantes. Um pouco mais de esquerda. Ou, como diria Mário Cesariny, "um acordar". Para que um dia destes não estejamos a perguntar-nos como é que se perdeu mais uma oportunidade e como é que um país maioritariamente de esquerda pode acabar uma vez mais a ser governado pela direita”.

Trocando por miúdos, Alegre, que não integrará as listas do PS nas próximas Legislativas (é a primeira vez que vai ficar de fora desde que há democracia em Portugal), parece pouco ou nada convencido com a capacidade de José Sócrates para vencer as eleições. Alegre bem diz que “a bandeira do PS não está no chão”, mas escusa-se a falar de José Sócrates, como que, implicitamente, responsabilizando o actuar líder por uma eventual derrota (e é por isso que surge o apelo “mais política e menos marketing”).

Claro que José Sócrates ainda não está derrotado. Mas, perante essa possibilidade, Alegre e Costa vão reunindo trunfos e apoios, preparando-se para a eventualidade de, no dia 27 de Setembro, o PS ficar sem líder. É que ninguém que ser apanhado com a Manilha seca na mão no momento em que o Ás saltar para cima da mesa…

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (52): Hum… pois, sei… estou a ver… sim, é “o PS de António Costa”

José Sá Fernandes, advogado e vereador independente na Câmara de Lisboa, admitiu uma convergência com “o PS de António Costa” nas próximas Eleições Autárquicas, caso o actual edil alfacinha aceite as propostas da Associação Cívica «Lisboa é Muita Gente».

Hum…

Pois é, o Sá Fernandes disse “o PS de António Costa”. Expressão interessante. Especialmente, quando ainda está na moda a expressão “o PS de José Sócrates”.

Pois, ainda está na moda. Mas, vai na volta, pode deixar de estar. Especialmente, se “o PS de José Sócrates” perder as eleições. Nesse caso, podemos ter “o PS de António Costa”.

Porque não?

O que eu sei é que, volta e meia, “o PS de António Costa” se lembra de criticar “o PS de José Sócrates”, isto apesar de António Costa já ter integrado o Governo de José Sócrates (e de ambos terem sido colegas nos Governos de António Guterres). Sei que a moção apresentada pelo movimento de Carmona Rodrigues, a criticar a exclusão da edilidade alfacinha da administração do Metropolitano de Lisboa, foi aprovada também com os votos do PS, sendo que António Costa aproveitou a deixa para atacar Mário Lino, seu antigo colega de Governo. Sei também que António Costa já critica a Lei das Rendas, ele que a defendeu nos tempos em que era ministro do Governo que agora ataca.

Tudo isto para chegarmos a um ponto: António Costa começa, lenta e eficazmente, a demarcar-se do Governo que outrora integrou.

Mas… porque o faz? Bem, se António Costa tem espírito auto-crítico, decerto reconhecerá que, como ministro da Administração Interna, foi uma verdadeira lástima e uma das piores coisas que já aconteceu a esta tutela (as razões que me levam a afirmar tal coisa seriam merecedoras de outro post). Mas, sobretudo, parece-me estar em causa uma absoluta falta de crença de Costa numa vitória do PS nas próximas Legislativas; sendo assim, e jogando no seguro, o edil de Lisboa opta por se demarcar de um Governo em nítida queda, ao qual, curiosamente, já pertenceu. José Sócrates? Não conheço esse senhor e nunca me foi apresentado…

Contudo, tenho cá um dedinho que me diz que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa está mais interessado noutros voos. Sentindo próxima a queda de José Sócrates, Costa começa a distanciar-se do Governo e do rumo por ele tomado tendo em vista um eventual assalto à liderança do PS, isto no caso de Sócrates ser derrotado a 27 de Setembro (o que implicaria a demissão voluntária do actual líder socialista).

Tudo isto são meras suposições, análises feitas em cima de quase nada. Mas aquele “o PS de António Costa”, dito por Sá Fernandes, soou-me a profético. Vai na volta, sou eu que estou a ver pestanas em ovos…

… ou não.

A MANILHA VAI SECA (51): Agora é com o menino Zé

Leram o post anterior? Se não leram, não me vou dar ao trabalho de pôr o link, porque basta recuar um bocadinho com o rato. Mas se não quiserem ler, escusam de ler este post.

Depois de pensar um bocado, achei que traçar o cenário da hipotética continuidade de um Governo minoritário do PSD no caso de uma pandemia de Gripe A seria um exercício demasiado parcial. Ainda por cima, é um exercício que parte de um pressuposto (a vitória do PSD a 27 de Setembro) cuja concretização não é minimamente certa.

Por isso, passamos a outro exercício idêntico. Desta vez, com o PS de José Sócrates reconduzido a um novo mandato, ainda que em maioria relativa (a absoluta, tanto para socialistas, como para sociais-democratas, parece cada vez mais longe).

Imaginem, uma vez mais, o mesmo cenário dantesco provocado pela Gripe A (e este é o cenário que mais se aproxima da realidade, confesso). Neste caso, seria muito mais fácil apontar culpas ao Governo de Sócrates, já que ele é que foi responsável por tomar todas as precauções em relação aos perigos da Gripe A.

Perante este cenário, imagino, uma vez mais, um quarto dos deputados reunidos para poderem apresentar uma moção de censura, a qual tinha fortes possibilidades de ser aprovada. Aí, Cavaco não teria muito que pensar: Demitia o Governo e Portugal ia novamente a eleições.

Num cenário como o que acima descrevi, o PS perderia toda a confiança do eleitorado em ira, que não mais lhe daria uma segunda hipótese. Por seu turno, o PSD (se calhar, já sem Manuela Ferreira Leite como líder) teria todas as hipóteses de conseguir uma histórica maioria absoluta, a primeira do partido desde 1991. Tal como sucedeu nas últimas Europeias, também o BE, a CDU e o CDS-PP poderiam aproveitar a perda de votos do PS para engordarem um pouco mais, ao passo que partidos como o MEP ou o MMS poderiam até ter espaço de manobra para conseguirem uma pequena representação parlamentar, captando descontentes com os cinco partidos que dominam o «sistema» (ou seja, a Assembleia da República, assembleias regionais e autarquias locais).

E assim, sem honra nem glória, terminaria a era Sócrates, à qual se seguiria um período de enorme turbulência interna dentro do PS.

A MANILHA VAI SECA (50): Uma maçã envenenada para a menina Manuela

Vamos partir do princípio que José Sócrates e o PS estão mesmo na mó de baixo, sem ânimo para esboçarem uma jogada de contra-ataque até ao dia das Eleições Legislativas. Vamos mesmo partir do princípio que o primeiro-ministro está farto de o ser e que, a partir de finais de Setembro, quer é sopas e descanso e, por isso, até vai agradecer se perder as eleições.

Se Sócrates perde, é Manuela Ferreira Leite quem ganha, não é?

Se calhar… não.

O PSD tem, no dia 27 de Setembro, uma oportunidade histórica para poder regressar ao poder. Mas, este arrisca-se a ser um Governo inacreditavelmente efémero, se Manuela Ferreira Leite não se aperceber da ratoeira que lhe estão a preparar. Por isso, se Ferreira Leite quer mesmo ser primeira-ministra por mais do que uns meses, vai mesmo ter de arranjar uma maioria absoluta, seja apenas com os votos do PSD, ou através de uma coligação que reedite a AD ou o Bloco Central.

Mas por que cargas de água estou eu a traçar tal cenário, tão drástico e aparentemente exagerado?

Por esta altura, já a população portuguesa está mais do que preparada para o pior. Dia a dia, vou perdendo a conta os novos infectados e, bem vistas as coisas, estamos ainda em pleno Verão. Quando chegar o Outono, o número de infectados vai subir drasticamente, especialmente nas escolas e jardins-de-infância, onde a concentração de pessoas numa pequena sala é propícia a todo o tipo de contaminações; muitas pequenas e médias empresas não têm dinheiro para planos de prevenção face à Gripe A e assumem mesmo que confiam na sorte. Para juntar a tudo isto, o Ministério da Saúde já fez saber que as vacinas para a Gripe A estarão disponíveis lá para finais de Novembro, depois de passado o pico das contaminações.

Trocando por miúdos, as estimativas que apontam para a possibilidade de 25 por cento da população portuguesa acabar por ser contaminada começam a parecer-me estranhamente realistas e, se calhar, optimistas. Mas já se sabe que o Sistema Nacional de Saúde não tem capacidade para fazer face a uma pandemia de Gripe A.

Temo mesmo que o pior possa acontecer e que, em Portugal, haja vítimas mortais por causa da Gripe A. E se, entre as vítimas, estiverem crianças, já se sabe que a comunicação social vai explorar o caso ao máximo, criando aquele discurso de pedir a cabeça dos responsáveis. Só que, partindo do cenário descrito anteriormente, quem estará na liderança do Governo nesta altura será justamente o PSD, embora a trapalhada das vacinas seja da responsabilidade do PS. Mas se o PSD não tiver forma de resolver o problema no mais curto espaço de tempo, certo é que cabeças vão rolar - provavelmente, o primeiro ministro da Saúde não irá nem aquecer a cadeira.

Logo em seguida, teremos as outras consequências indirectas da Gripe A, como sejam as escolas fechadas e os atrasos nas aulas e programas para o ano lectivo. As empresas poderão sofrer horrores, com muitos trabalhadores de baixa, seja para tratarem da própria gripe, seja para prestarem assistência a familiares.

Perante um cenário destes, o que podem fazer os partidos da oposição diante de um Governo minoritário a quem toda a gente pede responsabilidades pela pandemia de Gripe A?

APRESENTAR UMA MOÇÃO DE CENSURA.

Se 116 deputados votarem favoravelmente a moção de censura, o Governo cairá imediatamente, consoante o que vem expresso na alínea f do artigo 195.º da Constituição da República Portuguesa.

Perante tal cenário, o Presidente da República será chamado a desempenhar um papel decisivo na matéria, mas Cavaco Silva teria de jogar habilidosamente com a situação, já que também ele irá a votos no início de 2011. Ou seja, os níveis de popularidade do Governo e a possibilidade ou não de o PSD ser eleito num novo sufrágio irão determinar a decisão de Cavaco Silva, que não quererá manchar a sua própria imagem a pouco tempo de ele próprio ir disputar uma eleição.

Basicamente, Cavaco pode nomear um novo Governo do PSD, provavelmente sem Manuela Ferreira Leite, mas só o fará se as sondagens disserem claramente que a manutenção dos sociais-democratas no poder representa a vontade da maioria. Caso Cavaco actue para beneficiar o PSD contra a opinião dos portugueses, estará a comprometer, em definitivo, a sua reeleição. Por isso, em caso de dúvida, Cavaco deverá optar por convocar novas eleições, as quais darão a vitória… ao PS? Ao BE? Ao PNR? Bem, para adivinhar o hipotético vencedor de umas eleições altamente hipotéticas que sucederão a um Governo ainda hipotético, nem os meus dotes de leitura de cartas de Tarot chegam.

Mas o que é verdade é que, para o português comum, a saúde é um dos bens que estão à frente de tudo o mais. E quando digo à frente, quero dizer que supera a importância dada, por exemplo, à educação, à cultura, às finanças ou à economia. Caso se confirme a contaminação de 25 por cento da população, Portugal em peso irá voltar-se contra o Governo que não protegeu os cidadãos da Gripe A, ainda que as responsabilidades de um Executivo recém-empossado possam até ser relativamente reduzidas.

Por isso, Manuela, se queres manter o rabo sentado na cadeira do poder por mais do que uns meses, toma atenção ao que eu te digo: Ataca, logo desde início, a Gripe A e faz o que for possível e impossível para que os efeitos da pandemia quase nem se façam sentir. Isto, é claro, se venceres as eleições a 27 de Setembro, tarefa que ainda não demonstraste ser capaz de cumprir.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

ESPADAS QUE PICAM (14): As limitações da ACT e os entraves às liberdades, direitos e garantias dos cidadãos

O Filinto, ex-jornalista d’ O Primeiro de Janeiro, chamou-me a atenção para o facto de a Autoridade para as Condições do Trabalho já ter visitado as instalações do conhecido matutino portuense, sendo que, segundo ele, esta inspecção da ACT ter resultado em nada.

A questão do papel da ACT parece ser, muitas vezes, subvalorizada, quando, na verdade, deveria merecer especial atenção por parte do poder político.

Não vou estar aqui a discorrer sobre as justiças ou injustiças do Código do Trabalho de Bagão Félix e respectivas alterações promovidas pelo actual Governo. O que é certo é que existe um código legislativo a regular os direitos e deveres de empregados e empregadores, cujas normas são sistematicamente violadas um pouco por toda a parte. Não é segredo para ninguém que, em todo o país, há despedimentos ilegais, feitos à margem de toda e qualquer legislação, seja ela mais ou menos justa, e que a Justiça pouco ou nada tem conseguido fazer para que a legalidade seja reposta. O caso d’ O Primeiro de Janeiro é apenas um entre muitos e citei-o duas vezes por ter sido uma história que mereceu especial destaque na comunicação social.

O que é certo é que a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica faz o que bem entende e fiscaliza quando e onde quer. Se a ASAE entender que um dado café não tem condições para funcionar, pode encerrar o dito estabelecimento comercial e aplicar uma valente multa aos proprietários, sejam eles quem forem.

Contudo, quando olhamos para outra autoridade, a ACT, verificamos que as coisas se passam de maneira substancialmente diferente. A ACT fiscaliza, mas as consequências dos seus actos são bem menos evidentes, oferecendo a uma certa fatia do patronato uma sensação de total impunidade. Recentemente, o ministro Vieira da Silva anunciou a admissão de mais uma leva de inspectores estagiários para reforçar os quadros da autoridade, mas, apesar de louvável, esta medida, por si só, não chega. A ACT necessita de mais poderes e, sobretudo, de se assumir como a entidade que, em nome do Estado, defende os direitos e garantias dos trabalhadores, tal como vem consagrado do Código do Trabalho. As empresas que, de má fé, prejudicam os seus trabalhadores, devem ser exemplarmente punidas.

Claro que há quem diga que, se a ACT funcionasse como a ASAE, muitas empresas teria de fechar as portas. Tudo bem, admito que seja verdade, mas a ASAE já fechou as portas a muitos estabelecimentos que davam emprego a muita gente e ninguém falou disso.

Não estou a dizer que a ACT seja uma espécie de grupo de fanáticos religiosos com o Código do Trabalho nas mãos em vez da Bíblia. A função da ACT deve ser também ela pedagógica, mas os abusos terão obrigatoriamente de ser castigados. Para muitos empregadores, é mais rentável pagar a multa (que pode ser sempre contestada nos tribunais e ter o seu pagamento adiado para o dia de São Nunca) e continuar a manter trabalhadores em condições verdadeiramente deploráveis.

Sem invalidar tudo que acima referi, nada justifica que se fuja de uma inspecção da ACT (seja onde for), nem que seja pela mensagem que se está a passar a patrões incumpridores. Quem foge da ACT, diz ao Mundo que aceita trabalhar em condições ilegais e deploráveis e é esse o alerta que pretendo fazer.

Quem abdica dos seus direitos enquanto trabalhador, abdica também dos seus direitos enquanto cidadão e isso é uma matéria que já entra no campo dos direitos humanos, uma vez que há relações laborais que mais não são do que relações entre proprietário e escravo.

ESPADAS QUE PICAM (13): Infelizmente, o tempo deu-me razão

No dia 18 de Maio, publiquei um post onde alertava para uma prática, comum em muitas empresas, de pôr os trabalhadores a fugir pela porta das traseiras sempre que a ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho) aparecia para fazer uma inspecção. Na época, alertei com base na minha própria experiência: “Quem foge da ACT, foge do cumprimento da lei, mas, sobretudo, dos seus próprios direitos”.

Nesse mesmo post, relatei uma história (que até conheço melhor do que dei a entender na época): “No centenário O Primeiro de Janeiro, ilustre matutino portuense, a prática de fugir à ACT era mais do que comum, o que dava à entidade empregadora, a Sédico, o direito de cometer todas as arbitrariedades possíveis e imaginárias (muitas delas foram já tornadas públicas). Um dia, quando a carteira minguou, o patrão da Sédico e d’ O Primeiro de Janeiro, Eduardo de Oliveira Costa, montou uma estratégia de despedimento colectivo e completamente ilegal de 34 trabalhadores do célebre matutino, alegando que ia suspender a publicação do jornal por um mês… o que, como se sabe, não veio a acontecer. De um momento para o outro, 34 pessoas ficaram sem emprego, com salários em atraso, sem indemnizações, sem subsídios de férias e de Natal… basicamente, ficaram sem nada. Quando recorreram à justiça, a insolvência da Sédico acabou por ser decretada judicialmente, mas a empresa anteriormente detentora d’ O Primeiro de Janeiro não tinha quaisquer bens - nem sequer o próprio título, que havia sido previamente «trespassado» para outra empresa do grupo A Folha Cultural”.

O episódio do despedimento colectivo, feito à margem de todas as leis, de 34 jornalistas d’ O Primeiro de Janeiro teve lugar a 31 de Julho de 2008.

Ontem, dia 8 de Julho de 2009, um comunicado do Sindicato dos Jornalistas dava conta da situação dos que ficaram a fazer o ilustre matutino portuense (uma redacção que mescla elementos do suplemento O Norte Desportivo, no Porto, com a redacção do Notícias da Manhã, em Lisboa). De acordo com o SJ, no Janeiro, os cinco jornalistas que lá trabalham têm já três meses de salários em atraso; ao que pude apurar por conta própria, neste último ano, vários foram já os que bateram com a porta, mas os que ficam, fazem-no porque, no Porto, é cada vez mais difícil exercer a profissão de jornalista e ali, ao menos, ainda podem fazê-lo, embora em condições desumanas.

O mesmo comunicado do Sindicato dos Jornalistas alerta para a situação no Motor, semanário onde há gente com oito meses de salários em atraso. O SJ não especifica se são colaboradores externos ou membros efectivos da redacção, mas confesso que me custa a acreditar nestes oito meses (as minhas fontes não me mencionaram o caso deste jornal, do qual, em tempos idos, fui grande fã). Contudo, não me espantava nada se fosse verdade.

Isto é o que se passa na redacção do Porto, mas o Sindicato dos Jornalistas nada diz sobre dois outros títulos do grupo A Folha Cultural onde a situação não é exactamente melhor. No Fundão, no Diário XXI, trabalha-se igualmente com três meses de salários em atraso e o senhorio que arrendou as instalações onde funciona o jornal há muito tempo que não mete as mãos nos cheques correspondentes às rendas devidas. Em Lisboa, no Notícias da Manhã (onde funciona parte da redacção d’ O Primeiro de Janeiro), as duas jornalistas sobreviventes (sim, duas) não recebem há quatro meses, ao passo que o senhorio também está há quatro meses sem ver o dinheiro referente ao arrendamento; para cúmulo do ridículo, nesta redacção, a casa-de-banho foi desactivada por falta de pagamento à EPUL (sim, é isso mesmo, a água foi cortada).

Ao tomar conhecimento dos dois primeiros casos, o Sindicato dos Jornalistas lançou um apelo à ACT no sentido de intervir imediatamente. Ou seja, os que antes fugiram da ACT, agora correm para ela.

Por isso, finalizo este post repetindo a frase que rematava o post de 18 de Maio: “Não fujam da ACT, ela é vossa amiga”.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O EDITOR VAI A JOGO (10): 100

Eis-nos chegados ao centésimo post do ONZE DE ESPADAS, a obscura sala de jogo onde uma enigmática criatura, que diz ser um tal Dr. Mento, deixa fluir para a pena estranhos pensamentos que lhe atormentam a alma. Já antes o fazia, mas os jornais em papel, com as suas limitações de espaço, caracteres e outras, não eram o local ideal para que a liberdade se expressasse da forma adequada.

Confesso-vos que o rumo que este blog tomou não era aquele que, inicialmente, havia planeado. De certa forma, imaginei que este espaço seria somente um local de sátira, de escárnio e maldizer, onde, pela via do humor, tentava colocar sal em algumas feridas da sociedade e da vida política portuguesa. Isto sucedeu na época em que os meus posts eram publicados em simultâneo com a minha actividade como jornalista, a qual, como decerto já se aperceberam, acabei por cessar há algum tempo (de forma voluntária). Quando deixei de ter um espaço físico, em papel, para tentar desmontar e analisar certos episódios do dia-a-dia de um país, senti, de certa forma, um vazio, que acabou por ser preenchido aqui, no ONZE DE ESPADAS. É por isso que, actualmente, os textos de humor são bem menos do que as análises mais a sério, sendo estas últimas uma sequência lógica daquilo que eu já escrevia numa certa coluna, numa certa publicação.

No passado, já tive alguns blogs, mas nenhum me deu tanto prazer, nem exigiu tanto de mim como o ONZE DE ESPADAS. Contrariamente a blogues que analisam o dia-a-dia quase ao minuto (e muitos deles estão entre os que mais visito e admiro), esta casa de jogo pretende análises mais profundas sobre cada momento, o que justifica que os textos sejam publicados com uma ligeira distância em relação aos acontecimentos: É esse tempo que me permite reflectir sobre um dado assunto e captar aqueles detalhes e aquelas perspectivas que uma análise mais a quente não é capaz de apanhar. No fundo, o ONZE DE ESPADAS pretende ser um espaço de reflexão, porque me obriga a pensar e porque quer deixar quem o lê a pensar (nem que seja pela via do humor).

Neste momento, nem sei ainda ao certo quais as minhas expectativas em relação a esta casa de jogo, que optei por manter de portas abertas mesmo após uma violenta crise de inspiração (é a minha faceta de escritor a revelar-se) que me fez questionar tudo. Não sei o que será o futuro e mal sei como tem sido o passado. Mas sei que estou a gostar disto, justo eu, que rapidamente me desapego em relação a quase tudo (menos àqueles que, de facto, estão sempre comigo em pensamento).

Ao longo de uma centena de posts, notei que houve gente que gostou, de facto, daquilo que eu ia escrevendo. E é isso que me dá um ânimo extra para continuar. Embora, de certa forma, esteja um pouco a escrever para mim mesmo e para não perder a mão, também não é menos verdade que o faço para outras pessoas, mesmo que, muitas vezes, não saiba quem elas são, do mesmo modo que quase ninguém sabe quem é, na verdade, o misterioso Dr. Mento (no máximo, uma ou duas pessoas).

Bem, findo este momento de divagação, resta-me agradecer a todos pelo apoio que me têm dado desde Abril, pelos muitos conselhos e até pelos reparos e críticas construtivas, sem esquecer os elogios, que sabem sempre bem (o meu ego é pequeno, anda um pouco ferido, mas ainda vai existindo).

A todos, beijos e abraços, consoante a preferência.

(E agora, vamos aos posts que interessam)

ROYAL STRAIGHT FLUSH (4): Ouvir apenas faixas de trabalho, seguir apenas a playlist e criar acefalia musical

Um familiar meu, perdido algures no final da adolescência, espanta-se sobejamente com o facto de eu ainda adquirir CD’s e, imagine-se, possuir álbuns inteiros. Para ele, que passa dias inteiros agarrado ao seu mp3, a música resume-se a um amontoado de músicas isoladas (as que passam nas rádios e na MTV a toda a hora e a todo o momento), que, obviamente, não podem ser compradas - para alguma coisa existe o e-mule (que também serve para encher os computadores de vírus).

Preocupa-me este sentimento das gerações mais novas em relação à música. Em primeiro lugar, a ideia de que o fruto do trabalho dos artistas (e, em muitos casos, o seu ganha-pão) não deve ser comprado, devendo, isso sim, estar disponível de forma totalmente gratuita. Logo aí temos o sinal de uma adolescência marcada por doses cavalares de facilitismo: Tudo é fácil, tudo se arranja, tudo é grátis, nada dá trabalho.

Em segundo lugar, a ideia de que só existem os artistas e bandas que as rádios e os canais de música divulgam. Felizmente, ainda há muita gente que se dá ao trabalho de seleccionar a música que irá ouvir, o que, muitas vezes, significa descobrir coisas verdadeiramente inacreditáveis. Por exemplo, Elend. Alguém conhece? Pois, não passa nas rádios, nem na MTV ou na VH1. Mas existe. E é projecto soberanamente bom (ouçam apenas se estiverem num estado de espírito melancólico). Mas Elend é apenas um exemplo entre milhões e, para muitos, até pode ser um mau exemplo (há quem ame e há quem abomine este projecto franco-austríaco).

Em terceiro lugar, a ideia de que apenas existem músicas e não álbuns. Por vezes, o primeiro single escolhido para apresentar um álbum é aquela faixa certeira, mas, em muitos casos, pode dar-nos uma ideia errada de todo um trabalho. Há singles que são melhores do que todo um álbum, ao passo que outros são apenas a faixa de trabalho escolhida e a menos interessante de todo um registo.

Em quarto lugar, o mais importante: Se deixarmos que sejam as rádios ou a MTV a escolher a música que vamos ouvir, arriscamo-nos a cair numa ditadura mental sem nos apercebermos. Basicamente, as editoras trabalham um determinado produto, «obrigam» as rádios a divulgá-lo e os ouvintes, carneirada acéfala sem vontade, deixam que os seus ouvidos se transformem em penicos onde toda a merda pode ser depositada. Se deixamos que tal suceda, deixamos de ter vontade… e tornamo-nos acéfalos musicais. Depois de deixamos de ter vontade própria em relação ao que ouvimos, podemos perfeitamente de deixar de ter vontade própria em relação a tudo o mais. É só o primeiro passo.

A música é uma das melhores formas de libertação que existem e um dos muitos caminhos para o conhecimento (foi graças a Herr Spiegelman, dos Moonspell, que senti vontade de ler «O Perfume», cujo capítulo 49 é parcialmente citado a meio da música). A música pode ser igualmente um reflexo dos nossos estados de espírito e isso é algo que ninguém pode escolher por nós, porque nós é que sabemos como nos sentimos naquele momento, naquela hora, naquele instante, naquela semana.