quarta-feira, 8 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (49): Sou advogado do Diabo e vou defender o lado bom de Maria de Lurdes Rodrigues

CALMA!

Já leram o título, não leram? Pois bem, deixem-me, desde já, salientar uma coisa: Para mim, Maria de Lurdes Rodrigues foi uma das piores coisas que já passou pelo Ministério da Educação.

Não que critique o uso do Magalhães, que pode ser uma interessante arma para combater o analfabetismo informático, embora isso seja algo que só se vai perceber daqui a muitos anos. Não que critique o programa de renovação de escolas, já que muitos estabelecimentos de ensino (e podemos começar pela Secundária Filipa de Lencastre, cuja biblioteca tresanda a mofo) necessitam mesmo de obras. Não que critique e existência, por si só, de um modelo de avaliação de professores, desde que a mesma seja feita com pés e cabeça. Não que critique o combate a certos corporativismos sindicais, personificados num tal Mário Nogueira, que, para além de necessitar urgentemente de cortar aquele bigode, precisava de dar umas quantas aulas antes de ter legitimidade para vir defender os que, de facto, fazem do ensino a sua actividade profissional.

Em teoria, o Ministério da Educação até tinha boas intenções. Só que, de boas intenções, está o Inferno cheio e a forma como a tutela acabou por gerir certos dossiers, acabou por transformar tudo numa gigantesca trapalhada, que só serviu para arrasar completamente com o ensino público português. Se algum ultra neoliberal vier a terreiro defender a privatização completa do ensino público, decerto encontrará e Maria de Lurdes Rodrigues a sua musa inspiradora, já que ela transformou a escola oficial num local a evitar por quem tiver capacidades (financeiras, obviamente) para tal.

Mas, em tudo, há sempre um lado bom. Até mesmo em Maria de Lurdes Rodrigues.

Há coisa de uma década (ou década e meia, vá lá), era comum dizer-se: “Se não arranjares o que fazer, vais dar aulas. Se quiseres ganhar mais algum, vais dar umas aulas”. Ou seja, qualquer gato-pingado que quisesse fazer mais uns trocos ou não tivesse competência para coisa alguma, poderia aventurar-se no ensino, mesmo que a sua vocação fosse zero ou menos do que isso. Esta mentalidade fez com que o ensino público ficasse cheio de pessoas, que, apesar de terem nas mãos o amanhã dos nossos filhos, se estavam pura e simplesmente a cagar para eles.

Agora, nada disso acontece.

Neste momento, para se ser professor, há que ter a consciência de que o ensino público é um meio inacreditavelmente agreste e difícil - e o último local onde os pára-quedistas de ocasião vão querer estar. Tudo isto pode conduzir a que, dentro de algum tempo, só vá para o ensino quem realmente GOSTA de ensinar e têm vocação para tal. No fundo, só vai entrar na maratona quem quiser correr por gosto, que são sempre os que não se cansam. A médio prazo, a escola pública portuguesa até pode beneficiar alguma coisa com esta curiosa purga involuntária, ainda que os jovens que atravessaram estes anos de convulsão do consulado de Maria de Lurdes Rodrigues tenham de ser os mártires de todo este processo.

Ainda assim, dá para encontrar alguma coisa de bom nos anos de Maria de Lurdes Rodrigues. Mas, se não se importam, preferia um (ou uma) titular da pasta da Educação ao qual não fosse tão difícil apontar qualidades e que a melhor delas seja justamente uma purga. Não é por nada…

terça-feira, 7 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (48): Sim e assim-assim

Não é meu costume falar da imprensa portuguesa, mas, hoje, abro uma pequena excepção. Muito se disse a falou sobre o lançamento do i, com muita gente a tecer duras críticas ao jornal do Grupo Lena. Bem, pode ser que algumas críticas sejam perfeitamente válidas, mas uma coisa é certa: O raio do jornal tem-nos brindado com uma série de boas entrevistas a inúmeras personalidades.

Da entrevista a Maria Filomena Mónica, há um par de frases que merecem uma nota.

“Prefiro o António Costa ao Santana Lopes, embora o Santana Lopes me divirta muito mais. Mas ele só me diverte quando está fora do poder, no poder é um irresponsável”. Sintético e certeiro. Pena é que António Costa não consiga fazer valer outros argumentos para além do facto de, para muitos, ser melhor e mais responsável do que Santana. Lisboa merecia mais.

Já sobre José Sócrates, Maria Filomena Mónica diz: “É um rapaz da província que subiu na vida à custa da esperteza e de muito pouco trabalho”. Concordo com a primeira parte, mas não com a segunda. José Sócrates é conhecido como sendo um homem muito trabalhador (já o era como ministro do Ambiente) e o esmero com que prepara as suas idas à Assembleia da República mostra bem que faz os trabalhos de casa melhor do que ninguém. Marques Mendes, que demorou muito a aperceber-se desta faceta de Sócrates, levava cada baile no Parlamento que até metia dó. Os episódios que podem levar-nos a pensar que Sócrates não seja um homem trabalhador (como o dos projectos na Guarda ou o da licenciatura) são como as noitadas de Cristiano Ronaldo, que escondem o facto de o CR9 ser o senhor que, por norma, mais dá de si nos treinos. Pena é que Sócrates não seja tão bom primeiro-ministro como CR9 é jogador...

JOKER (7): Agarrem-me, que eu vou para o Brasil!!!

Pois é, meus caros amigos, o vosso Dr. Mento vai deixar-vos. Na verdade, não sois vós quem eu abandono, mas sim esta pátria ingrata e cruel, onde a insana voracidade de uns abandona os demais, seus iguais à nascença, à mais triste e desditosa das sortes. Amargo, sim, quiçá inclemente e irredutível, mas eis chegada a hora de partir, dizer adeus, contemplar as gentes que acenam e não mais voltar a olhar para trás.

Nesta altura da minha vida, é chegada a hora de uma decisão. A minha está tomada: tal como os meus antepassados de quinhentos, parto numa nau de madeira e velas de pano em busca da minha terra prometida, onde erguerei a Veraz Cruz dos meus sonhos. Portugal, mesquinha piolheira, será passado. Brasil, terra de esperanças mil, será futuro enquanto não passar a presente.

Por cá, viu vilipendiado, ignorado, desprezado, hostilizado. Lá, no país dos sonhos em tens de verde e amarelo, sei que os meus mil talentos e saberes serão merecedores de mil elogios, mil reconhecimentos, mil aplausos. São gentes civilizadas, aquelas, sedentas de novos génios incompreendidos aos quais saberão dar o devido reconhecimento. Bem sei que todos os génios são incompreendidos. E a mim ninguém me compreende.

NÃO, NÃO E NÃO!

Escusam de se prostrar num gesto clemente, deitando por terra vossos joelhos. A decisão está tomada e mais do que tomada. O primeiro avião que me deixar em Jundiaí será o meu passaporte para a liberdade, para a felicidade. Em Jundiaí, erguerei o meu castelo, não de sonhos por cumprir, mas de pedras nascidas do suor dos meus talentos.

NÃO! JÁ DISSE! ESCUSAM DE IMPLORAR!

Vou para o Brasil para ser feliz, voltando costas a um país abjecto que me voltou as costas.

NÃO RECONSIDERO COISA NENHUMA!

Eu vou. Já estou a fazer as malas. Em breve, não mais português serei quando a minha nacionalidade brasileira mostrar ao Mundo as feridas que a lusa pátria abriu no meu coração. A mim e a tantos outros, meus pares na desgraça infinda. Maria João Pires já foi, Miguel Sousa Tavares já vai e o Padre Frederico já lá está. Todos, à sua maneira, gentes de talento, gentes escorraçadas por um país avaro para os seus talentos. Ó, inglória pátria, que nem um mísero subsídio me dais para pôr em marcha os meus mil projectos e sonhos.

NÃO! EU…

O quê? Uma contra-proposta? Como assim?

Ah!, pois.

Mas… num banco? Ainda por cima na Caixa Geral de Depósitos? Têm mesmo a certeza? Eu nem percebo grande coisa de bancos, finanças, economia, gestão…

Pois. Sim, compreendo. É para ser administrador não executivo. Estou a perceber. Vou lá uma vez por semana, pico o ponto, recebo o meu e tenho carro com motorista pago pela Caixa. O que fizer com os meus dias é da minha inteira responsabilidade, que a Caixa nada tem a ver com isso. Pois, faz sentido, se não percebo nada de bancos, não vale a pena ir lá muitas vezes e nem sequer iria fazer muito sentido ir às reuniões para fazer figura de corpo presente. Para isso, fico esquecido na cama, no vale dos meus lençóis.

Sim, nesses termos vale a pena. Se bem que se me dessem um subsidiozinho…

Ah!, tenho que almoçar com o ministro. Não faz mal. Mas a conta do almoço é paga pela Caixa, que eu não sou rico para andar a desbaratar dinheiro com poucas-vergonhas.

Bem, pois é…

O tempo… está calor, não está?

Pois, pois, pois…

Enfim…

Ai, ai...

Sendo assim...

PUTA QUE PARIU O BRASIL!

(Sem ofensa!)

A MANILHA VAI SECA (47): Costa joga um trunfo

Não digo que António Costa seja a melhor coisa que já aconteceu a Lisboa. Também não sou da opinião que o seu mandato (ou melhor, meio mandato) tenha estado isento de erros ou de projectos equivocados. Mas há que fazer justiça ao senhor quando ele merece.

António Costa sabe perfeitamente que, no dia 11 de Outubro, estará em jogo muito mais do que o seu futuro na Câmara de Lisboa. Se, dias antes, José Sócrates perder as Eleições Legislativas, Costa afigura-se como uma boa alternativa para lhe suceder no lugar de secretário-geral do PS. Só que, para poder sonhar com o lugar de líder do PS (seja em Outubro ou daqui a algum tempo), Costa não pode, de forma alguma, perder a Câmara de Lisboa para Santana Lopes.

Por outras palavras: António Costa joga, no início do Outono, todo o seu futuro político.

Como as sondagens indicam que a competição entre Costa e Santana vai ser muito, muito renhida, o ex-ministro da Justiça e da Administração Interna começa já a jogar alguns trunfos para aniquilar o seu adversário, a quem, de resto, são apontadas inúmeras fragilidades fáceis de apontar. Por exemplo, não é segredo para quem quer que seja que, do ponto de vista financeiro, a presidência de Santana (repartida com Carmona Rodrigues ao sabor do vai-e-vem de gente do Governo) foi um completo descalabro. E António Costa já tratou de, subtilmente, explorar este aspecto.

Como efeito, a Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL) veio a público anunciar o início da reabilitação do edifício da sua antiga sede, na Quinta dos Lilases, para onde deverá regressar até ao final do ano, poupando assim 800 mil euros anuais em rendas. Recorde-se que, em 2003 (durante a liderança de Santana), a EPUL foi transferida provisoriamente para umas instalações no edifício Alvalade XXI, sendo que só a mudança de instalações custou a módica quantia de três milhões de euros.

Este pequeno detalhe vai ser um indicador de como será a campanha em Lisboa, com António Costa a insistir na tecla do despesismo exorbitante da gestão de Santana. Aliás, logo desde a altura em que tomou posse, António Costa sempre fez da redução do despesismo da edilidade alfacinha uma das suas bandeiras, pelo que não será de surpreender que surja, num qualquer debate com Santana, com umas folhinhas cheias de números para atirar à cara do seu adversário; se Santana for apanhado desprevenido e não tiver cartas para rebater os frios números de Costa, a eleição estará perdida para o menino-guerreiro, independentemente de as Legislativas poderem transportar o PSD para um novo estado de graça.

Decididamente, a política é um jogo muito, muito previsível.

ESPADAS QUE PICAM (12): O povo não tem pão? Que comam com o circo!

Numa primeira apreciação, ver 85 mil pessoas num estádio (com bilhetes pagos) para verem a apresentação de um único jogador de futebol parece-me um exercício de puro non-sense.

Mas, bem vistas as coisas, faz todo o sentido.

Toda a paranóia em torno da ida de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid parece um momento de histeria colectiva, mas a realidade está bem distante dos números da transferência (94 milhões, uma bagatela face àquilo que o Real vai lucrar com a brincadeira), do ordenado e outras remunerações de CR9… ou até do seu valor como jogador (que não está minimamente e causa).

Na verdade, tudo não passa de um momento de circo quando o povo não tem pão. Portugal e Espanha param para ver a chegada do homem das fintas e das mudanças de velocidade estonteantes numa altura em que a crise económica castiga estes dois países de forma impiedosa. Na Península Ibérica, o desemprego atinge valores tenebrosos e o desespero chega a demasiados lares. Como nenhum dos executivos socialistas da Península Ibérica arranja soluções milagrosas para a crise (e, sobretudo, para o desemprego), milhares de pessoas (merengues ou não) aplaudem a chegada ao Santiago Bernabéu do homem que melhor tem sabido ignorar a crise: Ele ganha o quer bem quer e lhe apetece e até se dá ao luxo de escolher para quem deseja trabalhar, numa altura em que milhares de ibéricos andam de mão estendida em busca de um emprego qualquer.

Cristiano Ronaldo, mais do que um extremo velocíssimo (ok, também pode jogar como ponta-de-lança), é o sonho personificado de toda uma Península Ibérica. É o herói de um espectáculo de circo, onde o povo que assiste, por momentos, se esquece do pão que não lhes deram e que muita falta lhes faz. De rosto bovino e de olhos pregados à televisão (ou ao relvado do Bernabéu), a crise parece nem existir.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (46): Mó de cima, mó de baixo

Até 7 de Junho:

- JOSÉ SÓCRATES: Vai vencer as Europeias, as Autárquicas e as Legislativas, embora não seja certo que consiga a maioria absoluta nestas últimas. É o líder que agrega a esmagadora maioria das tendências dentro do PS (com excepção do grupo de Manuel Alegre) e o secretário-geral incontestado. Mistura dinamismo com algumas medidas acertas e sabe embrulhá-las na forma de propaganda. Teve a coragem de implementar certas reformas essenciais e de lutar contra muitos interesses corporativos instalados na sociedade portuguesa. Mau grado alguns defeitos e muitas dúvidas em torno de certos dossiers polémicos (como o Freeport ou a Independente), em Portugal, não se vislumbra outro líder político com capacidade para batê-lo.

- MANUELA FERREIRA LEITE: Mais um erro de casting do PSD, que deve ser corrigido antes da sequência tripla de eleições. Se continuar à frente do partido, vai perder as Europeias, as Autárquicas e as Legislativas (apesar de poder ficar com a vitória moral de, eventualmente, conseguir evitar a maioria absoluta do PS e de José Sócrates). Não sabe falar, não se sabe vestir, não tem imagem, não tem empatia com o público, não demonstra simpatia, não é capaz de agregar as várias tendências dentro do PSD. É feia que nem a noite das tempestades. É um desastre a escolher candidatos, especialmente quando aposta em Santana Lopes para Lisboa e Paulo Rangel para Estrasburgo. Fez declarações homofóbicas, racistas e anti-democráticas que só prejudicaram o PSD. Mais dia, menos dia, é destronada por Pedro Passos Coelho.

Depois de 7 de Junho:


- JOSÉ SÓCRATES: Simulou a postura arrogante com uma falsa humildade, que lhe vai custar uma derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Saiu-se com o discurso das “campanhas negras”, que lhe vai custar uma derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Lidera um partido e um Governo sem rumo, num sinal claro de que vai perder as Legislativas e, provavelmente, as Autárquicas. O episódio dos cornos do Manuel Pinho pode custar-lhe as Legislativas e, provavelmente, as Autárquicas. O caso da venda da TVI à PT foi desmascarado e, apesar da inflexão, deve custar-lhe a vitória nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. As dúvidas sobre o seu envolvimento no Caso Freeport devem custar-lhe a vitória nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Combateu cegamente várias classes profissionais e não soube distinguir entre interesses corporativos e descontentamento generalizado de amplos sectores da população, o que anuncia uma derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Os portugueses já não engolem ilusionismos propagandistas e isso vai ditar a sua derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. Suspendeu os projectos da linha ferroviária de alta velocidade e do novo aeroporto de Lisboa, os quais, pelo despesismo que representam, podem ditar a derrota nas Legislativas e, provavelmente, nas Autárquicas. António Costa deve suceder-lhe depois da derrota confirmada nas Europeias e quase certa nas Legislativas… e, provavelmente, nas Autárquicas. Foi o pior primeiro-ministro de que há memória.

- MANUELA FERREIRA LEITE: Ganhou as Europeias com tenacidade e teve o bom-senso de escolher Paulo Rangel para cabeça-de-lista das Europeias. Com Santana Lopes, vai ganhar a Câmara de Lisboa a António Costa. Tem uma imagem de seriedade, compostura e de dizer a verdade, não iludindo os portugueses com falsas esperanças e expectativas. Não faz promessas que não pode cumprir. Ú um triunfo da seriedade, do rigor e da competência sobre a manipulação, o espectáculo e a propaganda. Não está envolvida em escândalos que desprestigiam os cargos que ocupa, a vida política portuguesa e a imagem do país lá fora. Não vai apostar em megalomanias e vai reforçar os apoios às PME’s, que compõem a esmagadora maioria do tecido empresarial português. Será a primeira mulher a ser eleita primeira-ministra em Portugal, já que Maria de Lurdes Pintassilgo liderou um Governo de iniciativa presidencial e, como tal, não foi a votos. É a salvadora da pátria. Vai varrer Pedro Passos Coelho e outros parasitas do PSD. Venceu as Europeias, vai vencer as Legislativas e, provavelmente, as Autárquicas.

(…)

Isto é só um exercício para demonstrar como muitas opiniões mudam ao sabor de ventos e marés. Para quem está na mó de baixo, é difícil sair de lá e Sócrates vai sabê-lo melhor do que ninguém até Setembro (Manuela Ferreira Leite já conhece o segredo).

O que eu queria salientar com este post é que as opiniões variam muito ao sabor do vento. Manuela Ferreira Leite já foi uma besta, mas agora é bestial. Sócrates tem feito o trajecto oposto. Mas o que é verdade é que Manuela Ferreira Leite continua a ter os mesmos defeitos que tinha antes de 7 de Junho e que, na época, eram criticados por meio mundo, a começar pelo próprio PSD. Do mesmo modo, José Sócrates não perdeu as qualidades que tinha antes das Europeias e que, antes de 7 de Junho, até lhe mereciam bastantes elogios (e muitas críticas por parte de certos rivais invejosos).

Sócrates e Ferreira Leite são o que são. Têm virtudes e têm defeitos. São humanos e ponto final.

Depois de os ataques a Ferreira Leite terem estado na moda, é chegada a hora de dizer o pior possível do Governo e de José Sócrates. O leão está moribundo e todos lhe batem, mesmo aqueles que já comeram nas mãos da fera ferida e que agora rastejam diante da eventualidade de uma nova liderança.

Mas a verdade continua a existir para além das modas e dos resultados de umas eleições às quais nenhum dos dois concorreu. Por isso, digo-vos: Antes de entrarem em modas, analisem friamente um e outro. Analisem os programas de PS e PSD (e, já agora, dos demais partidos). Nenhum deles é uma besta, nenhum deles é bestial.

Eles são o que são.

CHARLIE E A FÁBRICA DE CARTAS (3): O risco


No mundo automóvel, há construtores elitistas e construtores elitistas. Há quem pense que, por conduzir um BMW, acede automaticamente à elite do universo das quatro rodas. Mas há quem tenha um conceito de elite ainda mais restrito e, para esses, há marcas deliciosamente elitistas, como, por exemplo, a Aston Martin. James Bond adora a Aston Martin, essa fábrica de sonhos elitistas, onde o desportivo jamais abdica de uma nota de sublime requinte.

Só que tudo isto é muito bonito… em teoria. Os tempos em que a Aston Martin se podia dar ao luxo de viver unicamente do luxo terminaram no dia em que a marca britânica passou das mãos da Ford (um dos três gigantes da indústria automóvel norte-americana) para a Prodrive de Mr. David Richards. Longe da almofada da Ford, a Aston Martin vê-se agora obrigada a dar lucro, sob pena de, mais ano, menos ano, fechar as portas.

Para poder chegar aos lucros, a elitista Aston Martin opta por uma jogada inacreditavelmente arriscada, mas que pode apontar um caminho para a indústria automóvel do futuro.

A certeza de que o petróleo não é eterno e o medo de uma nova escalada do preço do crude tem sido o maior aliado de um certo sentimento de preservação do planeta, que, cada vez mais, deixa de ser uma moda para passar a ser uma tendência. Um pouco por toda a parte, morre a ideia de que um carro grande e vistoso é o primeiro cartão de visita do nosso suposto status social. Actualmente, as grandes «banheiras» com motores de elevada capacidade e consumos astronómicos começam a ser vistas como um pecado politicamente incorrecto, numa época em que os carros citadinos ganham uma pujança jamais vista nas últimas décadas. Cito, como exemplo, a Fiat, que vai comercializar o novo 500 nos Estados Unidos, onde, curiosamente, este city-car parece ter bastante mercado, justo num país onde a tradição, até há bem pouco tempo, pedia automóveis enormes e gastadores.

É certo que alguns construtores mais elitistas, que tinham o seu core-bussiness nas viaturas acima do segmento D, há muito que pairam pelo universo dos carros citadinos. A Mercedes já tem o seu Smart ForTwo há mais de uma década, do mesmo modo que, há oito anos, a BMW decidiu dar uma nova vida ao Mini. Só que, em ambos os casos, nem a Mercedes, nem a BMW quiseram colocar os seus logótipos nos city-cars que produzem, mesmo que estejamos a falar de modelos destinados a franjas de mercado com algum poder de compra (especialmente no caso do Mini, que não é exactamente barato).

O caso da Aston Martin é, por isso, curioso de se analisar. A marca já mostrou imagens de uma variante de pré-produção do Cygnet, que mais não é do que um city-car com menos de três metros. Para terem bem uma ideia, este Cygnet vai conviver com uma gama de modelos, na qual o modelo mais «baratucho» custa, em Portugal, mais de 162 mil euros (falo do V8 Vantage 4.3), isto numa hipotética versão desprovida de equipamentos opcionais; no extremo oposto, temos o DBS, cujo preço se aproxima dos 320 mil euros (sem quaisquer opcionais).

Mas a loucura não se fica por aqui. Bem sei que não é inédito que a Aston Martin use plataformas de outros construtores. Sei que isso aconteceu com o DB7, que partilhava a mesma base do Jaguar XK. Só que a Jaguar (que, tal como a Aston Martin, integrava o Grupo Ford) é também ela uma marca elitista (embora menos do que a AM) e inglesa. O problema é que o futuro Aston Martin Cygnet vai usar a base do Toyota IQ - sim, de um modelo de grande produção de uma marca generalista… e japonesa. Para os puristas, isto vale um ataque do coração.

A Aston Martin entende que os seus clientes não mais podem conduzir, no dia-a-dia, bombas como o V8 Vantage, o DB9 ou o DBS. Por isso, numa jogada de alto risco, apresenta uma solução (em formato pequeno e ecológico) para quem quiser conduzir um Aston Martin, mesmo no meio do caos infernal das grandes metrópoles.

Não sei que carta é este Cygnet, mas admiro a Aston Martin pela coragem. Se a ideia pega, pode ser uma tendência para um futuro, onde os carros serão mais pequenos, mais ecológicos, menos gastadores e senhores de um aproveitamento absolutamente racional do espaço interior. No fundo, é o conceito “small is beautiful” levado ao extremo, reciclado e transformado em moda para as elites (sim, porque o Cygnet não vai ser nada barato).

domingo, 5 de julho de 2009

CARTAS MARCADAS (2): Pacheco Pereira

“Meu muito estimado e auto-elogiado Zé:

Espero, do fundo mais profundo do coração, que esta cartinha te encontre de boa saúde, apesar de achar que uma dieta não te faria mal algum. Se queres que te diga (e perdoa-me, desde já, a sinceridade), acho que a SIC te paga o suficiente para te inscreveres num ginásio, embora saiba que má cara farás a esta observação, porque um Zé como tu, mas com sobrenome de filósofo grego no lugar de um comum apelido de árvore, se lembrou de baixar o IVA das mensalidades dos ginásios de 21 para cinco por cento. Sim, eu sei que não gostas do homem, mas essa barriguinha… não sei não, parece que tens um Rei (de Paus) escondido lá dentro.

Mas não é sobre o teu abdómen que desejava trocar umas palavras contigo.

Sabes que, há coisa de dias, estive no teu blogue e li lá uma coisa que muito apreensivo me deixou: “os blogues são uma boa coisa, a blogosfera (política) está muito má. Má, intriguista, mesquinha, superficial, amiguista e revanchista, muito longe do país, que desconhece, muito longe da vida, que não vive”.

Ó pá, pareces-me o siracusano que diz que todos os siracusanos são mentirosos. Sendo ele siracusano e sendo todos os siracusanos mentirosos, tal significa que está a mentir e que todos os siracusanos são verdadeiros… embora o facto de ele ser siracusano e estar a mentir invalide que todos os siracusanos sejam verdadeiros.

Mas percebes onde quero chegar, certo? Tu tens um blogue político desde o ano da pedra lascada e vais a esse mesmo blogue político dizer que todos os blogues políticos são muito maus e cheios de vícios. Ora como tu tens um blogue político, isso significa que o Abrupto é muito mau e cheio de vícios, certo? Ou estarei enganado? Ah, para ti há uma excepção absolutamente excepcional que confirma a regra de forma excepcional. Muito bem, muito me contas tu…

Depois, dizes tu: “Duas notas: uma de fundo, outra de circunstância. A de fundo tem a ver com a ideia que a intervenção política implica uma capitis diminutio da opinião, e a sua redução a algo que torna ‘suspeita’ a intervenção no espaço público”.

Homem, não escrevas para o teu umbigo. Escreve para as pessoas, pá. Eu sei que és pessoa letrada e de boa escrita, mas frases como aquela que copiei do teu blogue não são sexo, são masturbação. Em bom português: Queres foder a torto e a direito, mas sai-te punheta. É o que acontece a quem não tenta cativar um parceiro ou parceira.

Não, não estou a ser malcriado. Isso é o Pinho, que faz cornos na Assembleia da República. Estou só a ser teu amigo e a avisar-te. E avisto-te já que uma dieta e umas horas de ginásio fariam maravilhas pela tua rubicunda silhueta.

Mas o que me preocupa mesmo é a tua mania de estares sempre a falar mal dos jornalistas e dos jornais portugueses. Volta e meia, até dizes que, se as pessoas soubessem como são feitos os jornais, não mais os comprariam. Bem sei que há muita merda nas redacções, mas tu, que diabo, tu escreves para o Público e para a Sábado. Se as pessoas não comprarem jornais, ninguém lê o que tu escreves, homem.

Além do mais, tens ganas de chamar merda aos jornais, mas não te dão os escrúpulos na hora de receberes umas moedas pelas tuas colunas, pois não? Homem, o que tu estás a fazer é algo como seres convidado para ir jantar a casa de um amigo, chegares lá e dizeres: “És um falhado, a tua mulher é uma puta, o teu filho é um maricas, os canapés sabem a esterco, os cortinados da sala deviam ser queimados e estás mais gordo. O que é o jantar?”

Ainda por cima, como se não bastasses o que mal dizes dos jornalistas em papel, ainda vais vociferar contra eles na SIC-Notícias e no Rádio Clube, onde, não sei se sabes, também há jornalistas. Pagam-te o jantar e ainda os insultas. Isso não é ter a espinha erecta, é ter falta de bom-senso. Pior: É seres Janus, comendo com uma boca e vociferando com outra.

Bem, a carta já vai longa e mais não me quero alongar. Por isso, deixo para outras núpcias a tua adoração nada escondida pela Forreta Leite, que defendes com um amor, um carinho, uma convicção, uma destreza, uma ferocidade que quase comovem as pedras da calçada. Ai homem, se não és tu que te perdes a ti mesmo, há de ser um rabo de saia. Ainda por cima, AQUELE rabo, que se esconde atrás DAQUELA saia. Mas pode ser que ela engrace contigo e que te arranje uma panelinha no Governo. Pois, pois, dizes que não, mas, se ela te acenar com o tacho, vais a correr como um cãozinho atrás da bola. Depois diz-me se não é verdade.

Não leves a mal os reparos que te faço. São de valor, porque são sinceros, escritos do fundo mais profundo da alma. E, das profundezas te digo: dieta e ginásio, saladas e suores.

Um abraço,

Do teu sempre amigo,

Dr. Mento

PS (sem D): Esqueci-me de te dizer, mas uma boa dieta e umas valentes horas de ginásio fariam milagres por ti. Vai na volta, até ficavas mais bem-disposto com a vida e paravas de andar sempre de caçadeira em punho a matar pardais, para depois os servires na ceia da dama com cara de bruxa.”

JOKER (6): Uma ideia genial para arranjar 55 milhões de euros num abrir e fechar de olhos

Morreu.

Esticou o pernil, foi desta para melhor, empacotou, bateu a bota, aviou as malas, quinou, deu-lhe o badagaio, foi para a terra da verdade, virou presunto, faleceu.

Há lágrimas, caixão, flores, roupas negras, cadáver, lápides, coveiros, hipocrisias, condolências, padre, missa e umas pazadas de terra. Só que, no caso daquele cota esquisito que fez parte dos Jackson 5 (como é mesmo o nome dele?), há mais uma coisa a acrescentar: 17.500 bilhetes gratuitos para assistir ao funeral do senhor. Como estamos a falar de uma cerimónia de respeito, os bilhetes não vão ser vendidos, mas sim sorteados Staples Center e no Teatro Nokia em Los Angeles. Quem não conseguir o bilhete mais desejado (nem que seja na candonga), sempre pode assistir, no dia 7, ao enterro pela televisão.

17.500 bilhetes de borla.

Hum…

Não sabiam cobrar 50 euros pelo raio dos bilhetes? Pensem bem: multiplicando 17.500 por 50 atingimos a bonita quantia de 875 mil euros. Se puserem mais umas bancadas, sobe-se o número de espectadores para 30 mil (a capacidade de muitos estádios de futebol), o que elevaria as receitas para um milhão e meio de euros. Se fizerem a porcaria do funeral num estádio bem grande arranja-se lugar para 60 mil pessoas e os lucros sobem logo para os três milhões de euros.

E as televisões? A família do defunto diz que as televisões que estiverem interessadas, podem difundir as imagens do funeral. E onde é que ficam os direitos de transmissão? Se for cobrado meio milhão de euros pelos direitos de transmissão, não vai ser difícil arranjar uma centena de cadeias de televisão a querer comprar as imagens, o que dá logo mais 50 milhões de euros no bolso. É claro que as televisões vão chiar e dizer que é caro, que é isto, que é aquilo, mas, no final, arranjam sempre patrocinadores que paguem a conta. “O funeral de Michael Jackson é oferecido por: BES, Sagres, EDP - Energias Renováveis, Modelo, Worten, Compal Clássico e Cuecas Baiona”. Soa bem, não soa?

E o caixão? Tanto espaço livre não pode levar com os autocolantes de um par de patrocinadores, como acontece na Fórmula 1? Será que a Red Bull não estará interessada em patrocinar a experiência mais radical que alguém pode ter na porra da vida? Vá, dois milhões de euros e não se fala mais no assunto, mas com direito a uns autocolantes grandinhos na carrinha funerária. Mas é o patrocinador quem paga a rave no final do enterro, para homenagear o que virou presunto.

Como vêem, mesmo em tempos de crise, é fácil fazer dinheiro. Num par de horas, arranjei-vos 55 milhões de euros. Onze milhões de contos em moeda antiga.

Crise? A crise é só para os otários.

NOTA ADICIONAL: Por cá, um tal Manuel Pinho meteu-se a fazer uma pega de caras na arena errada e acabou mortinho para a política. Quando é que fazemos um enterro político decente para a criaturinha? Vá lá, com jeitinho, o Berardo ainda se oferece para patrocinar a brincadeira e até se arranjam 230 palhacinhos de São Bento para animar a malta ou para mandar o morto para o… baralho.

CARTAS DO QUINTO NAIPE (3): O Bilhete de Identidade

(Já é nostalgia para alguns)

Morou nas nossas carteiras décadas a fio. Em muitas carteiras lusitanas, ainda o podemos encontrar. Mas não na minha. O meu já morreu, de morte morrida. Foi-se. Extinguiu-se, tornou-se obsoleto e levou alguns amigos consigo.

Para ter um, precisávamos de tirar umas quantas fotografias em papel, que, invariavelmente, deixavam os cavalheiros com ar de presidiários. Sim, eram precisas fotos em papel. E era necessário sujar o dedo com tinta.

Era grande demais para quem tem uma carteira pequena: 10,5 por 7,5 centímetros. O aspecto era mais do que antiquado, especialmente quando estava na companhia e outros colegas seus em formato de cartão de crédito. E era um desbocado, porque dizia mais do que devia - até o nosso estado civil era chamado para o assunto, como se o Mundo parasse para saber se somos casados, solteiros, divorciados ou viúvos.

Mas, com todos os muitos defeitos que tinha, foi uma presença constante nas nossas vidas. Era ele quem dizia ao Mundo: “Olhe, está a ver, aquele senhor ali é um cidadão português”. Depois dos 10 anos (ou seja, antes de entrarmos para o 5º ano/1º ano do Ciclo Preparatório) era quase tão obrigatório como a chegada da morte num qualquer ponto das nossas vidas. Por tudo e por nada, tínhamos de chamá-lo à baila.

O Bilhete de Identidade morreu. O meu, pelo menos, já está na cova, com sete palmos de terra e uma jarra com flores em cima. Nas sepulturas do lado, encontro os meus cartões da Segurança Social, de Contribuinte e de Eleitor (este último, com o mesmo formato horroroso do defunto que dá nome a estas linhas). Só lamento que a Carta de Condução não tenha ido junto, mas nem tudo é perfeito e a minha antiga carta, a cor-de-rosa, até era bem pior do que esta que tenho agora.

Tenho a carteira mais leve. Não tenho Bilhete de Identidade. Nem saudades dele. Tive muitos e nenhum me agradou. Eram grandes, feios e desajeitados.

Há dois anos, um tal José Sócrates anunciou que o BI ia morrer. Sem pesar, nem nostalgia, mostrou-nos o pequeno Cartão do Cidadão, todo catita e janota, que já não necessitava de fotografias em papel da Idade da Pedra ou dos jurássicos dedos molhados na tinta negra. Dois anos depois do anúncio, matei o meu BI. Não fui eu que o matei, foi o senhor da Loja do Cidadão, que furou o defunto e entregou-mo de volta para recordação.

O meu foi-se. Ainda bem. E o vosso?

sábado, 4 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (45): Cornos, bebés na incubadora, cubanos e a razão de ser de todos os que não querem escrever sobre a última ida à praia

Nos últimos dias, Manuel Pinho tem sido o assunto central da esmagadora maioria dos blogues que se dedicam a temas de índole política (com excepção de alguns, fundamentalmente ligados ao PS, que sentiram um enorme incómodo em falar sobre o episódio). Todos criticam Manuel Pinho (também o fiz), todos qualificam o gesto dos cornos como sendo inqualificável, todos dizem mal, todos esmagam o senhor.

Mas digam-se só uma coisa: Não são as figuras como Manuel Pinho a razão principal de ser de muitos blogues? Não são as figuras como Manuel Pinho que dão assunto a muitas e muitas colunas de opinião em jornais e revistas, sejam elas escritas por jornalistas ou não?

Isto para dizer que Manuel Pinho foi uma figura de renome na blogosfera. Foram mil as graçolas, gafes e atitudes irreflectidas, foram milhões os posts sobre o assunto. Mas nós, que escrevemos, necessitamos de temas que nos inspirem e Manuel Pinho era uma das nossas musas, uma das fontes de inspiração dos que gostam de criticar (e eu sou um deles).

Imaginem um país sem Manuel Pinho e os seus cornos. Imaginem um país sem Manuela Moura Guedes e a sua bocarra vociferando a justiça do quarto poder segundo uma interpretação demasiado particular da informação. Imaginem um país sem Marinho Pinto, de dedo em riste, vociferando contra Manuela Moura Guedes e a sua interpretação demasiado particular da informação. Imaginem um país sem Santana Lopes e as suas santanices (neologismo criado em homenagem aos disparates ditos e feitos pelo senhor). Imaginem um país sem os equívocos de Mário Lino. Imaginem um país sem as declarações homofóbicas, racistas e anti-democráticas de Manuela Ferreira Leite. Imaginem um país sem o «tou-me cagando» de Manuel Vilarinho. Imaginem um país sem as fanfarronices de Valentim Loureiro. Imaginem um país sem os discursos inacreditáveis de Alberto João Jardim em Chão de Lagoa, em Porto Santo ou noutro sítio qualquer onde Baco, as ponchas e as nikitas o inspirem. Imaginem um País sem as noções democráticas de Bernardino Soares. Imaginem um País sem José Eduardo Martins a chamar palhaço a José Sócrates ou a mandar Afonso Candal para o caralho.

Imaginem.

Imaginem que todos os políticos tinham um discurso polido, bem estudado, auto-elogioso e positivo como o de José Sócrates. Seriam um país bem chatinho, não seria?

Para o bem e para o mal, figuras como Manuel Pinho ajudam-nos a escrever algo sobre algo, dão motivo aos nossos talentos, dão-nos ânimo, dão-nos inspiração. Se não fosse esta gente, os nossos blogues seriam algo do género: “Hoje fui à praia e estava lá montes de gente. À noite, fui ao Lux com os amigos e amigas. Tenho uma vida muito feliz e contente”.

ARGH!

Pinho, WE FUCKING LOVE YOU!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (44): O Santana de Sócrates e a arte de deitar bombons para o lixo

Lembram-se do célebre dia em que Pedro Santana Lopes comparou o seu Governo a um bebé na incubadora, que, impiedosamente, levava murros e estalos dos irmãos mais velhos? Foi esta a infeliz metáfora (ou seria comparação?) que fez verter o copo da paciência de Jorge Sampaio, que, sem mais rodeios, dissolveu a Assembleia da República e convocou novas eleições. Se tivesse sido esse o único disparate de Santana, Sampaio ainda fechava os olhos e engolia em seco, mas o menino-guerreiro já tinha feito muitas diabruras e a paciência presidencial tem limites.

Já perceberam onde quero chegar, certo?

Manuel Pinho foi, na verdade, o Santana deste Governo, o homem que passou quatro anos e meio a fazer graçolas e a dizer as maiores alarvidades, sempre com Sócrates a engolir em seco e a fingir que nada se passava. Dizem as más-línguas que, quando Pinho tentou vender aos chineses a ideia de que Portugal era um país de mão-de-obra barata, Sócrates estaria capaz de lhe apertar o gasganete. É uma pena que não o tenha feito na altura, confesso. Mas está tudo bem, já passou.

Até ao dia.

Os cornos de Manuel Pinho para Bernardino Soares mais não foram do que a enésima falta de educação que os portugueses tiveram a oportunidade de presenciar naquela tabanca instalada no Palácio de São Bento. A diferença é que Pinho já não tinha margem de manobra para mais uma graçola destas, em especial depois da infelicíssima tirada da papa Maizena (que muito ajudou Paulo Rangel a tornar-se conhecido junto da população em geral, diga-se em abono da verdade). Ainda que as críticas de Bernardino Soares fossem profundamente injustas e Pinho tenha dado tudo por tudo para salvar as minas de Aljustrel, nada justificava o fatal gesto dos cornos no órgão máximo que simboliza a democracia portuguesa.

Não sei se foi Pinho a pedir a demissão ou se foi Sócrates que o pôs a andar, mas isso pouco ou nada interessa. Foi o fim da linha, o ponto final, a morte política do menino-guerreiro deste Governo.

Todo este episódio acabou por favorecer a oposição de uma forma que, decerto, ninguém poderia imaginar. Sendo o debate sobre o Estado da Nação o derradeiro embate de José Sócrates na Assembleia da República durante a actual legislatura, tudo teria de correr pelo melhor, de forma a passar a melhor imagem possível para o eleitorado descontente e/ou com dúvidas.

Como é seu apanágio, Sócrates preparou-se bem para o debate e levou na manga alguns trunfos para jogar. Para adoçar a boca dos portugueses e calar as bocas da oposição, o mestre da ilusão jogou um reforço de 115 milhões de euros da dotação para a construção de novos equipamentos sociais, a criação de uma linha de crédito de 50 milhões também para esta área e a promessa (mais uma) de que o programa nacional de requalificação e modernização dos centros de saúde e urgências hospitalares teria, este ano, uma comparticipação adicional de 20 milhões. Com os cornos de Manuel Pinho, os bombons foram todos para o lixo e quem se lixou foi o próprio Sócrates, já que as medidas/promessas que apresentou perderam toda a visibilidade em favor de um par de cornos.

Se eu fosse José Sócrates, dava uma carga de porrada a Manuel Pinho até o deixar estendido no chão. Vai na volta, Sócrates até conseguiria reconquistar uma boa fatia do eleitorado se optasse por partir para a ignorância, já que estaria a satisfazer a vontade de 10,7 milhões de pessoas (incluindo ele próprio).

quinta-feira, 2 de julho de 2009

ROYAL STRAIGHT FLUSH (3): E, ao oitavo dia, Deus inventou o YouTube

Primeiro, Deus fez a Terra. Depois, fez a espécie humana. Por fim, para que tudo fosse perfeito, inventou o YouTube.

(Estranha entrada para um ateu convicto)

Se há invenção que me fascina é o YouTube.

Já passou muito tempo desde os tristes dias de há duas décadas, quando tínhamos que esperar pelo telejornal das 20h00 para podermos saber as novidades do dia devidamente ilustradas com imagens. Muitas vezes, se não chegássemos a tempo de ver os telejornais da RTP 1 ou da RTP 2 (este último, passava bastante mais tarde), saberíamos as novidades do dia nos matutinos do dia seguinte.

Hoje, somos bombardeados de informação a toda a hora e todo o momento. A Internet teve um papel fundamental neste fluxo de informação, mas, nos tempos das ligações por telefone a 56k (ou ainda mais lentas), mais não tínhamos do que meros jornais digitais com um resumo de notícias (apenas em texto) da Lusa. Desde 2005, com a chegada do YouTube (que surge numa altura em que as ligações rápidas já eram uma realidade em muitos lares), o fluxo de imagens ganhou uma nova dinâmica: acontece uma polémica e, segundos depois, as imagens estão no YouTube.

Se Saddam Hussein tivesse sido executado nos anos 80, o máximo a que teríamos direito seria a umas fotografias, que estariam nos jornais, na melhor das hipóteses, no dia seguinte. Foi o que sucedeu quando Nicolae Ceauşescu foi executado no dia de Natal de 1989. Contudo, a morte de Saddam teve direito a outros requintes, já que uma qualquer alminha gravou as imagens da execução do ditador com um telemóvel e tratou logo de as colocar no YouTube. Na manhã do dia 30 de Dezembro de 2006, já meio Mundo havia visto Saddam a ser enforcado.

O fluxo de imagens no YouTube permite-nos ter acesso a uma tal quantidade de informação que, por vezes, o papel do jornalista se torna irrelevante. A peixeirada entre Marinho Pinto e Manuela Moura Guedes não necessitou de grandes palavras, porque toda a gente pode vê-la e revê-la as vezes que entendeu - mesmo quem não estava a ver a TVI às 20h00 daquela sexta-feira. O mesmo sucedeu agora, com os famosos cornos de Manuel Pinho. O mesmo sucedeu antes, com a guerra entre uma professora e uma aluna na Escola Secundária Carolina Michaëlis. O mesmo sucedeu …

… em dezenas de outros casos.

Hoje, tudo se sabe e tudo se vê, porque há uma coisa chamada YouTube. Hoje, já ninguém nos diz o que aconteceu - passam-nos o link para o vídeo, que já está no YouTube.

Deus inventou o YouTube, porque, como ser omnipresente e omnipotente, queria saber tudo. Mas lixou-se, porque deve ter havido um Prometeu qualquer que lhe gamou o segredo e o entregou aos homens, fazendo deles os novos deuses.

E em boa hora o fez.

A MANILHA VAI SECA (43): O Porto tal como Sintra

Há algum tempo, disse que a candidatura de Ana Gomes à Câmara de Sintra representava um PS a assumir: “Não vale a pena, esta não ganhamos”. Ana Gomes, que perdeu as eleições para a concelhia local, foi escolhida pela concelhia (dominada pelos seus antigos adversários) para enfrentar Fernando Seara - ou seja, escolhe-se uma derrotada (sem sentidos pejorativos para a senhora) para assumir nova derrota. Pelo meio, Ana Gomes foi eleita para o Parlamento Europeu e é por lá que deve ficar nos próximos cinco anos.

Na altura, não quis falar do Porto, porque não conheço tão bem os meandros da política local da Invicta, mas adivinhei logo que fosse uma situação parecida. Elisa Ferreira foi eleita eurodeputada e aceitou concorrer à Câmara do Porto porque o PS não queria queimar nomes fortes num concelho que, à partida, deve estar perdido. Aliás, há uma sondagem da Universidade Católica para o JN/DN/RTP e Antena 1 que frisa que Rui Rio tem 58 por cento das intenções de voto, contra 25 por cento de Elisa Ferreira.

Eu sei, as sondagens valem o que valem e começam a ser tão fiáveis como um qualquer professor Zandinga cá do bairro. Seja como for, uma sondagem, desde que não seja feita com o olho do cú (já vi algumas assim, mas não da Universidade Católica), indica sempre uma tendência. E, neste caso, a tendência é muito, muito clara. Mas nem precisava das sondagens para perceber isso - o próprio PS, ao lançar Elisa Ferreira, já tinha dito ao país e ao Mundo que a Câmara do Porto estava mais do que perdida, salvo alguma surpresa extraordinária de última hora.

A MANILHA VAI SECA (42): Eu é que sou a capital do novo distrito!

Para quem é mau a Geografia, vale a pena lembrar que, administrativamente, o território português está dividido em 18 distritos (Aveiro, Braga, Bragança, Beja, Castelo Branco, Coimbra, Évora, Faro, Guarda, Leiria, Lisboa, Portalegre, Porto, Santarém, Setúbal, Viana do Castelo, Vila Real e Viseu) e duas regiões autónomas (Açores e Madeira), onde se inserem 308 concelhos (não querem que os liste, pois não?) e 4260 freguesias (esqueçam lá as listas!). Claro que, pelo meio, há as NUTS (Nomenclaturas de Unidades Territoriais para fins estatísticos), sub-regiões estatísticas, áreas metropolitanas, comunidades urbanas e mais pseudo-divisões cujo valor administrativo continua a ser próximo de zero.

(Ok, por esta altura, já toda a gente adormeceu)

A ideia de alargar a regionalização ao território de Portugal Continental não é nova e até mesmo o PS de José Sócrates parece interessado em reviver esta ideia, depois do sonoro chumbo do referendo de 1998. Há muito quem defenda que a partição do território nacional em regiões (o Governo quer cinco) pode ser uma forma de coesão territorial e de existir um nível intermédio de decisão que possa desenvolver projectos conjuntos para um conjunto de concelhos, sem ser necessário que estes tenham de ir até à Assembleia da República.

Isto tudo é muito bonito, mas, na prática, as coisas prometem ser muito diferentes. E vou pegar num exemplo bem recente.

Na última assembleia da Comunidade Intermunicipal do Oeste foi a votos uma proposta da JSD/Oeste, de seu nome «Pela Unidade do Oeste», a qual pretendia criar um novo distrito nesta sub-região da região de Lisboa e Vale do Tejo. Para a JSD/Oeste, a proposta em si poderia servir para criar uma região-piloto, que serviria de laboratório para novas experiências de regionalização em todo o Continente.

OK, a ideia não me parece descabida, se tivermos em conta que existe, de facto, uma realidade chamada Oeste e que esta sub-região está, administrativamente, dividida pelos distritos de Lisboa (com os concelhos de Alenquer, Arruda dos Vinhos, Cadaval, Lourinhã, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras) e de Leiria (com os concelhos de Alcobaça, Bombarral, Caldas da Rainha, Nazaré, Peniche e Porto de Mós). A proposta incluía igualmente uma espécie de convite a Rio Maior (Distrito de Santarém) e a Mafra (pertencente ao Distrito e à Área Metropolitana de Lisboa)

O problema maior desta criação de um novo distrito é a necessidade de esta unidade administrativa ter uma capital. E ai é que a porca iria torcer o rabo. Li a proposta da JSD/Oeste e confesso que nada encontrei sobre esta questão, mas seria quase certo que Torres Vedras e Caldas da Rainha seriam as cidades elegíveis para o… cargo, digamos. E só este aspecto bastaria para desencadear uma guerra tal que o distrito do Oeste estaria irremediavelmente condenado, uma vez que nenhuma das cidades quereria abdicar do sonho de liderar um distrito. A cidade (e a metade pertencente a cada um dos actuais distritos) que perdesse a contenda seria irremediavelmente relegada para uma posição secundária.

Por muito que se diga que a regionalização promove a coesão territorial e o desenvolvimento, a ideia, que é boa em teoria, continua a esbarrar na mentalidade portuguesa. Vivemos num país onde os pequenos caciques locais continuam a fazer mover influências, poderes e redes de contactos, o que justifica uma defesa exacerbada da terrinha, do quintal de cada um que é sempre melhor que o quintal do vizinho.

É por isso que mesmo conceitos mais avançados como os das áreas metropolitanas continuam a funcionar muito aquém do que seria espectável. Aliás, lembro-me mesmo de uma sessão da Assembleia Metropolitana de Lisboa (alguém sabe que isto existe?), onde um deputado metropolitano (alguém sabe que isto existe?) perguntava mesmo se valia a pena estarem todos ali ou se aquele órgão mais não era do que uma tertúlia entre amigos…

A MANILHA VAI SECA (41): Eu bem vos disse

Se bem se recordam, quando o PS perdeu as Eleições Europeias da forma que perdeu, alertei-vos para a necessidade de não anteciparem já a derrota de José Sócrates para as Legislativas. Por varias vezes tenho alertado para o facto de o primeiro-ministro se preparar para jogar cartas bem fortes, sendo certo que, se Manuela Ferreira Leite quiser ganhar as eleições, vai ter de suar muito, muito, muito.

Sócrates não vai olhar a meios para seduzir o eleitorado. Em tempos, previ mesmo que, se necessário fosse, o IVA seria revisto em baixa como forma de adoçar a boca a toda a gente em tempos de crise e como caminho para estimular o consumo (e, por conseguinte, as empresas e a criação de emprego, embora isto seja assim tão linear). Recuem uns posts e verão o texto onde falo sobre isso.

Ora, num take da Lusa, encontrei esta curiosa novidade: “O Governo admite alterar vários impostos aplicáveis à hotelaria e restauração, nomeadamente o IVA e os montantes dos Pagamentos Especiais por Conta (PEC), no quadro de um Plano de Desenvolvimento e de Competitividade para todo o sector. A posição do Executivo, (…) expressa em comunicado do Ministério das Finanças, surge dias depois do Governo ter negado a intenção de baixar a taxa de IVA em vigor para os restaurantes”.

Neste momento, a escalada do défice das finanças públicas não permite grande margem para baixar a taxa máxima do IVA (que está, actualmente, em 20 por cento), mas pode arranjar-se forma de fazer com que a taxa para a restauração, que é de 12 por cento, desça qualquer coisinha. Como o bom português é amigo de ir ao restaurante e ao café, decerto que muitos iriam sentir na carteira este bónus (isto se os comerciantes não optarem por manter os preços e aumentar as margens de lucro, tal como fizeram alguns ginásios quando a taxa caiu de 21 para cinco por cento).

Para quanto irá baixar a taxa? Segundo o presidente da AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal), Mário Pereira Gonçalves, depois da União Europeia ter declarado a restauração como actividade de mão-de-obra intensiva, ficaram reunidas as condições para baixar o IVA até… cinco por cento.

Pois é, meus amigos, as minhas previsões confirmam-se. E a procissão ainda vai só no adro da igreja…

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (40): Junta-se água, mexe-se bem, leva-se ao frigorífico e temos milhões de empregos (história da fábrica de penicos)

Vou contar-vos uma pequena história.

Era uma vez um vielarejo do interior (imaginem-o onde quiserem) chamado Vilar do Burro em Pé. Nesta pacata localidade, havia uma próspera fábrica de penicos, que dava emprego a 150 pessoas, havendo famílias inteiras que trabalhavam para o doutor que fabricava as mais ecológicas cagadeiras de que há memória. Um dia, o doutor da fábrica conhece uma moça vinte anos mais nova que lhe dá a volta à cabeça, levando-o a desbaratar a sua pequena fortuna nos mais extravagantes presentes, ofertados na ânsia de satisfazer os mais recônditos e animais desejos de luxúria, de prazer, de sensação de poder fictício sobre uma mulher muito mais jovem, muito mais bela, muito mais tudo.

Quando volta a colocar os pés na terra, o nosso empresário está falido. Sem cara para enfrentar quem quer que seja, esvazia os cofres da empresa e foge para uma ilha paradisíaca. Sem patrão, a outrora fábrica de penicos de Vilar do Burro em Pé é obrigada a fechar portas, deixando centena e meia de desgraçados na mais desgraçada situação de um dia para o outro. Muitos, vão aprender a viver com o subsídio de desemprego, mas os que nem contrato tinham passam a conviver com todas as dificuldades e mais algumas.

Um mês depois do fecho da malfadada fábrica de penicos, uma ruidosa comitiva de gente importante chega a Vilar do Burro em Pé. É gente importante, bem vemos. Há um enxame de jornalistas por toda a parte, esperando microfones e gravadores nas cataduras dos mais incautos, atropelando meio mundo para exercerem o seu Quarto Poder a troco de 500 euros a recibos verdes. E lá está o presidente da Câmara, engomadinho e limpinho como um bácoro de laço, recebendo, submisso e subserviente, o senhor ministro disto, o doutor ministro daquilo, mais o engenheiro ministro de acolá, todos circundando o mais ministro de todos os ministros, o nosso primeiro-ministro (pode ser o Sócrates, mas pode ser quem quiserem escolher para o papel).

Nesse dia, o mais ministro de todos os ministros anuncia a Vilar do Burro em Pé e a Portugal inteiro que, naquela parvalheira estupidificada, vão ser criados mais 300 postos de trabalho com a construção de uma fábrica de sanitas. Sim, o dobro daqueles que se perderam com o fecho da velha linha de produção de higiénicos penicos. E enquanto os ministros e gentes de renome se empanturram de rissóis, o povo da vila bate palmas e dá pulos de contente, rejubilando com os novos 300 empregos que aí vêm.

(…)

O problema, meus amigos, é que, quando se fecha uma fábrica, as pessoas que nela trabalhavam vão para a rua de um dia para o outro. No entanto, quando se anuncia uma nova fábrica, estamos a falar de um empreendimento que, na melhor das hipóteses, tem já o projecto aprovado. Pegando no exemplo de Vilar do Burro em Pé, os 150 empregos esfumaram-se de um dia para o outro, mas os 300 novos postos de trabalho prometidos pelo Governo, vão demorar muito, muito, muito tempo até serem uma realidade.

Certa vez, lembro-me de estar numa dessas cerimónias de colocação de primeira pedra, onde José Sócrates até dava pulos de contente com a criação de 15 mil novos postos de trabalho e não se fartava de passar manteiga aos espanhóis que iam investir em Portugal. O problema é que esses empregos iriam ser criados ao longo de… DEZ ANOS. Sim, leram bem: dez anos, 120 meses. Toda a encenação em torno de novos anúncios de investimento não passa disso mesmo: de tornar cenograficamente instantânea uma realidade que só será palpável muito tempo depois.

Mas Sócrates continua a apostar nessa coreografia como se não houvesse amanhã. Desta feita, como não tinha uma primeira pedra para colocar, anunciou ao país que Portugal estava na corrida para receber a fábrica europeia de baterias que irão alimentar a primeira geração a sério de carros eléctricos da Nissan. Anuncia-se uma possibilidade, apenas isso. Pode haver emprego, se a Renault-Nissan escolher Portugal para instalar a sua nova fábrica e depois de o projecto estar devidamente realizado e aprovado por todas as entidades competentes, havendo ainda que escolher um terreno para edificar a nova unidade de produção; quando as obras começarem, algumas pessoas ganharão emprego (maioritariamente, trabalhadores da construção civil), mas o grosso da coluna apenas chegará quando a fábrica começar a laborar… o que deve acontecer daqui a bastantes anos (demasiados, para quem espera e desespera por um emprego que lhe permita uma sobrevivência minimamente digna).

ESPADAS QUE PICAM (11): Esses fascistas da GNR que durmam numa cela cheia de ratos!

A fazer fé numa denúncia do deputado social-democrata José Manuel Ribeiro, as instalações da GNR de Anadia são do mais terceiro-mundista que há, sendo o retrato mais triste das condições em que trabalham as nossas forças de segurança. Muito nos queixamos do clima de insegurança que reina por todo o país e não raras vezes lamentamos a falta de acção das forças de segurança. Contudo, dentro da PSP e da GNR, há verdadeiros heróis que trabalham em condições que não seriamos capazes de dar ao nosso cão.

Isto para dizer que, nas instalações que agregam o Posto Territorial de Anadia, bem como o Destacamento Territorial que abrange os concelhos de Anadia, Mealhada e Oliveira do Bairro, os militares da GNR dormem… numa cela. Segundo um parecer da Inspecção-Geral da Administração Interna, a dita cela não tinha condições para albergar reclusos, mas, como as instalações da GNR de Anadia estão em obras, a cela passou a acolher militares da Guarda, que dormem quatro de cada vez num espaço que nem para reclusos servia (faço notar que a cela não teve obras de requalificação). Ou seja, os militares da GNR são tratados abaixo de detido.

E este é apenas um de muitos exemplos anedóticos que existem um pouco por todo o país e que revelam as condições lastimáveis das nossas forças de segurança. É certo que, volta e meia, o Ministério da Administração Interna faz uma operação de charme e chama a imprensa para mostrar as novas viaturas que vai atribuir à GNR ou à PSP, mas ignora que, em certas esquadras e postos, há viaturas novas paradas, porque não há verba para levar os ditos carros à revisão.

Bem sei que a GNR e a PSP estão longe de serem perfeitas e sei perfeitamente que acolhem, no seu seio (ou seios), algumas maçãs podres. Contudo, como não desejo ver o caos e a desordem a tomarem conta das ruas, continuo a achar que as forças de segurança ainda servem para alguma coisa (nem que seja para evitar que as nossas casas e carros passem a ser assaltados dia sim, dia sim).

Depois de sete anos de Ditadura Militar e de 41 de Estado Novo, resiste, na mente dos portugueses, uma aversão doentia à autoridade, como se um elemento das forças de segurança fosse, antes de tudo o mais, um agente da ditadura, da autocracia, da privação de liberdades e direitos (dos nossos, pois claro). De certa forma, esse pensamento chega às próprias classes dirigentes, que continuam a achar que, quanto menos se investir nas forças de segurança, menos se investe na ditadura de uma coisa chamada Lei, que, convenhamos, nem sempre nos dá muito jeito (e dizem que a muitos políticos, ainda dá menos jeito).


A MANILHA VAI SECA (39): Em que mundo vives tu, Mariano?

Durante o 3º Fórum Espacial Português, Mariano Gago, o ilustre senhor de bigodes que tutela a Ciência, a Tecnologia e o Ensino Superior, saiu-se com um conjunto de declarações verdadeiramente lapidares: “Se hoje tivermos que fixar uma meta de cientistas na população activa, essa meta não pode ser outra que não o dobro da média europeia. Esse é o nível que atingiram o Japão e os Estados Unidos e a média de alguns dos países mais desenvolvidos da Europa. (…) Para resolver um problema, o problema não está à espera de saber se o país é grande ou pequeno. Tem de haver para aquela equipa e laboratório um número de pessoas suficiente com capacidade para resolver os problemas”.

Ao longo da vida, não poucas vezes considerei que, entre o Ensino Superior e a realidade propriamente dita, distava um mundo inteiro. Mas, sinceramente, não esperava que o homem que tutela esta área estivesse ainda mais distante da realidade.

O que sucede é que muitos cientistas portugueses são, na verdade, meros bolseiros, que investigam a troco de um punhado de moedas. Muitos não usufruem dos tradicionais direitos e regalias que são atribuídos aos demais trabalhadores (falo, por exemplo, dos comuns subsídios ou descontos para a Segurança Social), sendo relegados para a mera condição de precários. Para muitos investigadores, dar aulas é a única solução para poderem usufruir daquelas regalias mínimas que permitem a alguém fazer aquelas coisas básicas, como comprar uma casa, adquirir um carro, ter filhos… e por aí adiante. Mas quem opta pelo ensino, não pode, de forma alguma, ser cientista a tempo inteiro, porque o dia não tem 48 horas e o cérebro necessita de uns bons 480 minutos diários de descanso.

Se, em Portugal, tratamos os nossos investigadores como merda, não esperemos que haja muita gente a querer enveredar por este caminho… pelo menos, neste país cada vez mais mal frequentado.

Por isso, Mariano, se queres mesmo ter muitos cientistas em Portugal, experimenta, antes de tudo o mais, viver uns seis meses a recibos verdes, com um ordenado substancialmente inferior àquele que auferes pelo teu cargo e sem as devidas regalias que te atribuem. Depois, logo conversamos…

VALETE DE COPAS (5): Auto-estima nas couves

Hoje, alguém perguntou-me se eu já não teria cerca de x anos. Basicamente, deram-me mais dez anos do que aqueles que, na verdade, tenho (e não interessa quantos são). Basicamente, a minha auto-estima, que já passeava pelas ruas da amargura, foi para as couves de vez com um comentário absolutamente inocente de alguém que estava profundamente convicto da minha idade.

De súbito, apercebi-me de quão cruéis haviam sido os últimos meses para mim. Envelheci ao ponto de o meu rosto reflectir mais uma década do que o meu Cartão do Cidadão. Num ápice, ganhei dez anos que não vivi, uma década na qual não existi, 120 meses que se consumiram sem que nada ou ninguém desse por eles (a não ser a pessoa que fez o tal comentário inocente).

A minha auto-estima está na merda mais merdosa que há na merda da vida.