domingo, 26 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (64): O significado de Miguel Vale de Almeida e Joana Amaral Dias

(Entre os dois, escolho a imagem dela - por motivos óbvios)

Os nomes que irão integrar as listas distritais do PS nas eleições para a Assembleia da República têm dado muito que falar, especialmente devido a algumas opções bastante curiosas.

Uma das escolhas mais, digamos, polémicas, foi a de Miguel Vale de Almeida, ex-dirigente do Bloco de Esquerda, antropólogo, professor universitário e conhecido activista pela defesa dos direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros (LGBT), sendo ele próprio homossexual assumido. Esta escolha tem muito que se lhe diga, tanto do lado do PS, como do lado do próprio Vale de Almeida.

Em primeiro lugar, continua nítido o medo do PS em relação ao BE, esse «papão» de votos que engorda a cada eleição que disputa, sempre às custas dos socialistas. Ao «contratar» um ex-dirigente do BE, o PS faz uma micro-aproximação a este eleitorado. Mas esta escolha é ainda menos inocente quando nos lembramos das famosas declarações de Manuela Ferreira Leite em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, palavras essas que demonstram que, entre a comunidade LGBT, o PSD não deverá conseguir muitos votos. Sócrates já se apercebeu desta fragilidade do PSD e tratou de chamar a si um activista nesta área, o que lhe poderá render uns quantos votos. Neste particular, o PS tenta, nitidamente, cortar as vazas ao BE, popularmente conhecido como o grande defensor dos direitos dos LGBT (aliás, matéria que figura no programa do partido para as Legislativas). Resta saber se este antropólogo será mesmo uma mais-valia para o PS no Parlamento.

Quanto a Miguel Vale de Almeida, antes um crítico acérrimo do PS, esta integração numa lista do PS (ainda que no sétimo lugar) faz mais sentido do que se possa pensar. Acredito que esta mudança de camisola possa ter desiludido algumas pessoas, mas Miguel Vale de Almeida é homossexual e, como tal, discriminado em tudo e mais alguma coisa pela sua orientação sexual (acreditem que há alunos que não gostam dele pelo simples facto de ser gay). Por muito que o BE possa ser o partido mais genuíno na defesa dos direitos dos LGBT, a verdade é que a força política liderada por Francisco Louçã está ainda muito longe de poder formar Governo e assim levar os seus ideais avante. Já o PS está bem mais próximo de poder continuar a ser Governo a partir de Setembro e assim aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo (isto se Sócrates cumprir o prometido no Congresso de Espinho). Vale de Almeida não está a ser instrumentalizado pelo PS, pelo menos da forma inocente que muitos poderiam pensar. Ele está, isso sim, a defender os seus próprios direitos - seus e de milhares de pessoas em Portugal.

Já o alegado convite a Joana Amaral Dias, a verificar-se, será algo bastante mais… grave. E cínico. E hipócrita. E sexista, diria mesmo. Sim, estamos a falar de uma ex-dirigente do BE, o que pode interessar ao PS, na medida em que será uma forma de entrar no eleitorado que, nos últimos anos, se virou para o Bloco. Mas, tirando isso, o PS tem quadros suficientes para formar listas de deputados ou governos sem ter que ir pedir batatinhas a outros partidos. Se lhe interessa Joana Amaral Dias é porque esta psicóloga e professora universitária tem aquela carinha que Deus lhe deu e que chama a atenção de muitos homens (e mulheres, se falarmos de bissexuais ou lésbicas). No fundo, se esse convite existir (o BE diz que sim, o PS nega), os socialistas estariam apenas a mostrar que estavam interessados, antes de tudo o mais, na (bonita) imagem de Joana Amaral Dias. Seria mesmo caso para se dizer que o PS queria Joana Amaral Dias por causa dos seus lindos olhos.

Se quiserem outro motivo para «contratar» Joana Amaral Dias, eu apontaria uma forma de silenciar as mordazes e insistentes críticas desta colunista aos partidos do Bloco Central e, em particular, ao PS (e ao Governo, pois claro). Mas, se existir essa justificação, temos um caso de tentativa de censura encapotada, o que ainda piora mais o quadro. Vale-nos o facto de, a ser verdade, o mesmo ter sido rejeitado pela própria visada.

Em ambos os casos, a questão da imagem que o PS passa para o eleitorado é um dado fundamental. Mas isso não surpreende num Governo liderado por José Sócrates, homem que muito se preocupa com a sua imagem (em vários sentidos), ao ponto de desleixar ao máximo a imagem dos seus pares de Governo.

sábado, 25 de julho de 2009

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (10): A Verdade (III)

“Ele jamais mente. Limita-se a apresentar a verdade através de um prisma um pouco diferente.”

Dr. Mento

A MANILHA VAI SECA (63): Com uma quina de trunfo não ganhas o jogo

José Sócrates está a desiludir-me. O outrora animal político, ágil e habilidoso nas suas jogadas, vai tentar ganhar esta sueca com duques, ternos, quadras e quinas de trunfo. Ou seja, com palha. E mal jogada.

Durante a apresentação do programa eleitoral do PS, Sócrates anunciou que, caso seja reeleito, dará acesso à integração profissional a cerca de 25 mil jovens, que, pela sua carreira contributiva, não têm acesso ao subsídio de desemprego. Tudo bem, a medida é boa, mas… escassa, muito escassa.

Em Portugal, há cerca de um milhão de trabalhadores a recibos verdes (alguns, verdadeiros), pelo que o número de pessoas sem acesso ao subsídio de desemprego é incrivelmente superior a 25 mil almas. Por outro lado, a questão dos apoios apenas aos jovens dá que pensar, já que há gente com 40 e 50 anos sem acesso a uma prestação essencial para a sobrevivência digna de muitas pessoas e, por vezes, das respectivas famílias. Ainda por cima, já se sabe que quem tem mais de 35 anos, terá dificuldades muito superiores em encontrar um emprego (especialmente, um emprego daqueles que tem contrato de trabalho, descontos para a segurança social e todas as regalias oferecidas a quem não é tratado como escravo).

Trocando por miúdos, o nosso primeiro-ministro oferece umas missangas aos nativos de Portugal e espera que estes pobres indígenas lhe dêem o seu voto. Ainda por cima, ele não oferece, limita-se a prometer as tais missangas (apenas a alguns, pois claro) que esqueceu ali, no navio, mas que vai buscar já, já, já.

Hum…

Sabes, Zé, assim, não vais lá. E, se queres que te diga, ainda passas pela vergonha de veres o PS ultrapassado pelo BE ou pela CDU se continuas a tratar os portugueses como uns pobres selvagens mansos e pouco espertos. É que, não sei se sabes, a malta lá da esquerda não está a oferecer missangas nos seus programas eleitorais - eles estão mesmo a dar jóias aos portugueses, coisa que tu reservas só para os teus amigos da Mota-Engil e companhia. Só que o Jorge Coelho, meu amigo Zé, só vota uma vez.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (9): Chorar

“Se chorasse sempre que devia, a subida dos oceanos já seria uma realidade e Lisboa a nova Atlântida.”

Dr. Mento

DOIS DE PAUS (3): Bernardino Soares (condicional à existência de filtragem)

Certa vez, o ilustre deputado comunista Bernardino Soares disse, ao Diário de Notícias, uma frase que chocou o Mundo: “Tenho dúvidas que a Coreia do Norte não seja uma democracia”. Acrescentou ainda o cavalheiro «encornado» por Manuel Pinho ter “muitas reservas em relação à filtragem da informação feita pelas agências internacionais”.

Ok.

Vamos partir do princípio que a notícia que vou relatar em seguida possa ter sido alvo de uma estranha “filtragem da informação feita pelas agências internacionais”. Isto quer dizer que, à luz deste princípio, o que passo a citar pode ser verdade… ou não.

Um grupo de activistas denunciou que Ri Hyon Ok, uma mulher cristã de 33 anos, foi executada publicamente em Junho, por, alegadamente, ter distribuído a Bíblia. A dita senhora foi igualmente acusada de espiar para a Coreia do Sul e para os Estados Unidos e ainda de organizar dissidentes. Como se não bastasse a execução, um dia depois da morte de Ri Hyon Ok, os pais, marido e três filhos da senhora foram enviados para um campo-prisão para políticos na cidade de Hoeryong, sendo que, com alguma sorte, ainda se escapam à execução por actos que não foram cometidos por eles.

Bem, se isto é mentira, existe uma gigantesca propaganda mundial anti-Coreia do Norte, que nos enche a cabeça de mentiras sobre um país justo, livre e democrático.

Mas, se isto é verdade, meu caro Bernardino, só me apetece dizer uma coisa: ÉS UM MONTE DE MERDA SEM NOME. Se isto é verdade, meu caro Bernardino, não me venhas dizer que o Sócrates é um ditador e que o PSD é um amontoado de fascistas, quando tu vens defender gente desta, que comete os crimes mais hediondos de uma forma que só me faz lembrar a Santa Inquisição, de tão má memória e de tanta vergonha para a História da Humanidade.

Por isso, meu caro Bernardino, sugiro-te que viajes até Pyongyang e nos digas a nós, portugueses, se a Coreia do Norte é mesmo um paraíso injustiçado pela propaganda ocidental ou se, pelo contrário, não passa de um país amordaçado por um regime carniceiro. Investiga, pergunta sobre este caso, tenta apurar a verdade. Se te executarem em público, ficaremos a saber que, afinal, até estavas enganado e tiveste o final que mereceste ao defender o que não pode ser defendido.

Mas, enquanto não decides dar um saltinho até Pyongyang (e até nos fazias um favor, tornando Portugal um país ligeiramente mais habitável), deixo-te a mais desonrosa nomeação deste blog, sempre com a ressalva de a notícia poder não ser verdadeira: O DOIS DE PAUS.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (62): O (outro) perigo da regionalização

O PS vai revelando, a conta-gotas, o seu programa eleitoral para a próxima legislatura. A bancada parlamentar socialista voltou a reforçar que o tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo vai figurar no programa do PS, tal como a criação de cinco regiões administrativas.

A regionalização é um tema razoavelmente bem escolhido para este programa, até porque o PSD não pode atacar a ideia (caso contrário, Alberto João Jardim seria chamado à baila) e o PCP até é a favor. O problema é bem outro. Em 1998, quando esta questão foi levantada pelo Governo de António Guterres, o homem dos mil diálogos decidiu levar a regionalização a referendo… e viu a ideia derrotada. Se Sócrates insistir em avançar com a regionalização pela via legislativa, sem direito a consulta popular, vai, decerto, ser acusado pela oposição de ser anti-democrático e de se estar nas tintas para o sufrágio popular (se bem que, ao incluir este tema no seu programa eleitoral, o PS está, em parte, a sufragá-lo). Mesmo aqueles que defendem a regionalização, não vão deixar de atacar o PS pela ausência de referendo e haverá mesmo quem se lembre do caso da ASAE, que, airosamente, se escapou ao crivo dos deputados da Nação e acabou ferida de inconstitucionalidade.

Sócrates já deveria ter percebido que a sua fúria reformista, mesmo que tenha toda a razão do Mundo (e, às vezes, tem alguma) não pode ser feita à custa de tudo e de todos. Estamos em democracia e, neste sistema político, um partido que deixa uma bola a saltar na área, arrisca-se a sofrer golo.

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (8): Bondade

“Desconfiem das pessoas que aparentam ser muito boazinhas. Madre Teresa de Calcutá só há uma… e já morreu.”

Dr. Mento

quarta-feira, 22 de julho de 2009

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (7): Os partidos

“Os partidos zelam pelo asseio da Nação. Lavam dinheiro e roupa suja.”

Dr. Mento

A MANILHA VAI SECA (61): O exemplo de Barrancos e uma Estrela que caiu em Sintra de pára-quedas

O PSD já deu por encerrado o processo de escolha das candidaturas às Eleições Autárquicas de 11 de Outubro. Neste momento, já estão definidas as candidaturas para os 307 concelhos onde os sociais-democratas irão apresentar-se a votos, havendo apenas um único concelho que não contará com um candidato e listas do PSD: Barrancos.

Em declarações à Lusa, o coordenador da comissão autárquica social-democrata, Manuel Castro Almeida frisou que, “em Barrancos, temos três militantes. Poderíamos inventar um candidato, isso seria muito fácil para o PSD, mas seria um candidato a fingir porque não traduziria uma opção local”. “Optámos pela natureza local das eleições locais e por uma política de verdade. Não há projecto local, não há candidatos locais”, explicou ainda.

Esta postura do PSD não deixa, de certa forma, de ser meritória. Em Barrancos, o PSD tem uma expressão quase nula e, sem projecto ou sem gente para concorrer, não vale a pena inventar um candidato de fora para marcar presença nas Autárquicas. Barrancos é uma vila alentejana longe de tudo e todos, muito mais próxima de Espanha do que do resto do Alentejo, ao ponto de, em tempos idos, as crianças apenas aprenderem a falar português quando iam para a escola - antes de se sentarem nos bancos da escola, os petizes falavam apenas o peculiar castelhano de Barrancos, que, garanto-vos, não é fácil de perceber. Se o PSD inventasse um candidato de fora da terra, este seria sempre olhado como um pára-quedista, um gajo qualquer que apareceu ali, vindo do nada, a tentar a sua sorte nesta Câmara esquecida nos confins do Alentejo.

Contudo, seria interessante se o PSD e outros partidos aplicassem o exemplo de Barrancos a outros concelhos. Sim, porque o que não falta por aí é gente que se candidata a uma dada Câmara apenas porque foi ali que conseguiu arranjar uma vaga, que, com um pouco de sorte, até termina em tacho. E há inúmeros exemplos de pára-quedistas, que, sem fazerem a mais pequena ideia de onde estão, se candidatam a Câmaras Municipais.

Querem um exemplo? Lembremos o glorioso dia em que Edite Estrela, candidata à Câmara Municipal de Sintra, foi fazer campanha pelo PS para Queluz de Baixo, que não só não pertence à cidade ou à freguesia de Queluz, como também não integra o concelho de Sintra, mas sim o de Oeiras. Edite Estrela aceitou o repto para liderar os destinos de um concelho que conhecia tão bem como eu conheço os princípios básicos da termodinâmica nuclear aplicada à engenharia genética. E ganhou porque o anterior edil, o social-democrata Rui Silva, foi das piores coisas que algum dia passou por qualquer órgão autárquico no Portugal democrático.

Esta história passou-se em Sintra, com a candidata do PS. Mas, se percorrermos o resto do país, decerto iremos encontrar outros exemplos semelhantes, provenientes deste e doutros partidos. E se formos às listas distritais para a Assembleia da República, veremos pérolas destas como grãos de areia numa praia… e não estou a falar de uma praia da Costa de Caparica (OK, a piada era desnecessária).

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (6): O Mundo

“O Mundo é, actualmente, um local muito mal frequentado, ao ponto de se tornar insuportável. Tanto que devemos deixar de lamentar os que partem, para passarmos a chorar os que ficam.”

Dr. Mento

terça-feira, 21 de julho de 2009

ESPADAS QUE PICAM (17): Machismo... só que ao contrário

Não é segredo para ninguém que a política portuguesa tem sido, por tradição, dominada pelo sexo masculino. Contudo, nos últimos anos, temos assistido a uma tentativa de mudar um pouco este estado de coisas, o qual, em parte, é de louvar. Deve haver igualdade entre sexos e não posso estar mais de acordo com isso. Mas o que se quer é uma igualdade natural e não uma coisa inventada à pressão para enfiar mulheres na política apenas porque sim.

As quotas para mulheres e as respectivas posições destas nas listas eleitorais são um bom exemplo dessa igualdade artificial. A mulher A fica à frente do Homem B na lista do partido C porque há uma lei que diz que é assim e ponto final. Não interessa se o Homem B é mais ou menos competente do que a Mulher A, o que vale é meter mulheres nos lugares que lhe estão destinados.

Pior ainda é a ideia do actual presidente da Câmara de Faro, José Apolinário, que, nas listas do PS nas próximas Autárquicas, decidiu meter mais mulheres do que homens (cinco a quatro, para sermos mais exactos). Se o fez, deveria ter ficado calado - escolhia os nove nomes que achasse mais competentes para liderar a capital do Algarve (cidade que me é muito querida), independentemente de estes serem homens ou mulheres. Se se vangloria de ter mais mulheres nas listas, está a subvalorizá-las, uma vez que uma lista maioritariamente masculina não mereceria qualquer comentário.

Que fique bem claro: Sou totalmente a favor da presença de mulheres na política. Mas que estas estejam nas listas partidárias por serem as PESSOAS mais competentes e não devido ao sexo. Isso é uma forma de machismo ao contrário.

E para finalizar este texto, tiro o chapéu a mulheres como Manuela Ferreira Leite, que ocupam lugares de destaque sem truques artificiais. Sim, porque a Dama de Espadas do PSD lidera o partido que lidera porque os seus companheiros «laranja» acharam que ela era a melhor PESSOA (sem sexo ou género) para o fazer. E pode ser que, a partir de Setembro, ela seja também a segunda mulher a chefiar um Governo em Portugal, depois de Maria de Lurdes Pintassilgo, embora, seja a primeira a ocupar tal cargo na sequência de um acto eleitoral. Novamente, se vencer, será porque os portugueses acham que ela é a melhor PESSOA para liderar os destinos do país, independentemente se, no meio das pernas da pessoa em questão, está um pénis ou uma vagina.

ESPADAS QUE PICAM (16): Pacheco ainda tem razão

No seu Abrupto, José Pacheco Pereira dedicou um post inteiro à chegada do Homem à Lua. O texto em si é excelente e, numa altura em que muitos se entretêm a criticar José Pacheco Pereira, eu opto antes por elogiar o autor de tão bom pedaço de prosa.

No seu post, Pacheco Pereira conta-nos onde estava a 20 de Julho de 1969 e os meandros da vida de um aluno de Filosofia que tentava estudar para um exame dificílimo do 1.º ano da licenciatura, no momento em que o célebre passo para a Humanidade é dado. A dada altura, diz-nos: “como era habitual na época, os professores ensinavam muito em função daquilo que tinha sido a sua tese e pouco se afastavam desse terreno que lhes era familiar”.

Pois, “como era habitual na época”.

Só na época, em 1969?

Não, infelizmente, não.

Bem sei que há docentes universitários minimamente que se esforçam por criar programas para as cadeiras que dêem aos alunos uma visão minimamente abrangente sobre um conjunto de temas. Para estes, o meu aplauso. Só que, para mal dos pecados do ensino superior, também há muitos que continuam exactamente como em 1969: Se a tese de mestrado e/ou doutoramento foi sobre a plantação de cebolas em Celorico da Beira na primeira metade do Século XX, certo é que, em toda a santa aula, a plantação de cebolas terá de vir à baila, mesmo que estejamos a falar de uma cadeira de Direito Administrativo. Conheço bastantes casos assim.

Isto ajuda a explicar porque é que, actualmente, existe a impressão que os licenciados saem de uma qualquer faculdade com níveis de conhecimento rudimentares. Com professores destes, não há milagres, mas as favas, essas, são pagas pelos estudantes e, indirectamente, pelos pais destes e pelo próprio mercado de trabalho.

Ainda há gente assim no ensino superior. Temo dizê-lo: Muita gente. O que é pena. Pacheco tem razão no que diz e teria mais razão se utilizasse um tempo verbal diferente.

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (5): A Verdade (II)

“As verdades são como os chapéus: Há muitas.”

Dr. Mento

segunda-feira, 20 de julho de 2009

CARTAS MARCADAS (3): Ana Jorge

"Querida Aninhas:

Espero que esta carta te vá encontrar, a ti e aos teus, de boa saúde. Afinal, de saúde percebes tu ou não fosses tu a mulher que trata da saúde aos portugueses. Pelo menos, é o que dizem…

Bem sei que há muito que não dou notícias, mas, sabes, lembrei-me de ti no outro dia, enquanto via um filme em casa com os gaiatos. Estava muito bem a ver o Madagáscar 2 quando, de repente, chego àquela cena em que o Melman, a girafa hipocondríaca, descobre que as girafas do Quénia não têm médicos. “E então, como é que fazem quando têm uma gripe?”, pergunta ele, ao que lhe respondem: “Vamos para os morredouros… e morremos”.

Ora, tu, que passas a vida a lutar contra as farmácias, os farmacêuticos, a indústria farmacêutica, as associações de farmácias, as associações da indústria farmacêutica, os consumidores de fármacos e sabe-se lá mais quem, estás de mãos e pés atados por causa da porcaria da Gripe A. Queres dizer à malta que está tudo bem, que não se passa nada e que não há motivos para alarme, mas a porra da gripe anda nas horas e tu ficas com cara de tacho. Se alguma criancinha bate a bota antes das eleições por causa da Gripe A, o teu amigo Sócrates bem pode dizer adeus ao Governo e aos tachos todos, que mais ninguém vota no PS. Desconfio que até o Berloque de Esquerda vos passa à frente.

Mas sei que estás lixada com esta merda toda. Queres que os gajos dos medicamentos se vão todos foder, mas a malta, à rasca, quer toda emborcar Tamiflu e vacinas e o raio mais que as parta. Ou seja, vai tudo dar carcanhol às farmácias a às farmacêuticas, que é o mesmo que engordar gulosos. Bem fizeste tu, que não arranjaste vacinas para toda a gente, nem as deixas à disposição desses maricas antes da altura crítica das gripes. Esses panascas deviam era ter vivido nos tempos do Doutor Salazar, quando a malta era rija e ia trabalhar para o campo com as gripes todas de A a Z - se morressem, paciência.

Além do mais, Tamiflu rima com cú. Cheira-me a uma boa merda…

Essa malta que arranjou a porra da Gripe A devia era fazer como as girafas: Escavavam um morredouro, metiam-se lá dentro com a cabeça de fora e morriam. Simples, pá, simples. Pronto, acabava-se logo a Gripe A. E vai na volta, morriam também uns quantos desempregados e já não davam tantas dores de cabeça ao Viera da Silva, que arranca os poucos cabelos que tem a tentar arranjar umas novas fórmulas estatísticas que lhe permitam fazer desaparecer com mais uns quantos milhares de gajos e gajas das listas oficiais do desemprego.

Olha, agora que digo isto, vou mas é escavar o meu morredouro, para quando apanhar a Gripe A. Se quiseres, escavo um para ti também, que és uma gaja fixe e até nem deixas os panascas darem sangue. Esses mariconços que vão mas é dar sangue à mãezinha deles. Mas não faças mal às fufas, que todo o homem gosta de ver duas gajas a paparem-se uma à outra e o sangue delas não deve fazer mal algum. Paneleiros é que não! Que nojo!

Olha, amiga, vou ter que ir. Resta-me desejar-te felicidades e que apanhes a Gripe A quanto antes, que, nestas coisas, mais vale despachar já o assunto. Ainda para mais, lá para o final de Setembro, vais ter trabalho que não acaba mais a arrumar as tuas coisas no Ministério da Saúde. Não te preocupes, que, se souber de algum emprego para ti, eu telefono, mas já sei que menos do que administradora não executiva na Caixa Geral de Depósitos não te serve.

Muitos beijinhos sem máscara,


Dr. Mento”

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (4): Preconceito (I)

“Ninguém é preconceituoso. Excepto em relação a todos os que não são como nós.”

Dr. Mento

domingo, 19 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (60): Costa não pode ser como Sampaio?

A aliança entre António Costa e Helena Roseta para as Eleições Autárquicas em Lisboa pôs muita gente a falar sobre as eventuais consequências políticas deste acordo, até porque a vereador do movimento Cidadãos Por Lisboa garantiu o segundo lugar na lista do PS, ainda que tendo estatuto de independente.

Antes mesmo do anúncio oficial, houve logo quem suspeitasse que, caso Costa avançasse para uma candidatura à liderança do PS, deixaria Roseta como edil de Lisboa. Na conferência de imprensa de apresentação do acordo, Helena Roseta abordou esse tema, o qual já figurava no memorando do acordo entre PS e Cidadãos por Lisboa: “As substituições ocasionais dos eleitos serão feitas de modo a garantir que o eleito de uma força política é sempre substituído por outro da mesma força política. Para efeitos do nº 2 do artigo14º da lei eleitoral autárquica (substituição definitiva do Presidente da Câmara “em caso de morte ou doença que determine impossibilidade física ou psíquica, de perda de mandato ou de opção por função incompatível”), o primeiro independente indicado pelo movimento CPL assegurará que a substituição recaia no seguinte da lista, indicado pelo PS”.

Acho muito bem que estas questões sejam esclarecidas - por escrito e publicamente - para não haver quaisquer dúvidas. Mas, tirando isso, deu-se demasiada importância a esta questão e Pedro Santana Lopes foi logo o primeiro a fazê-lo. Santana entende que esta discussão tem a ver com o pressuposto de que José Sócrates vai perder as Legislativas e sair da liderança do PS, a qual será disputada por António Costa. Para o menino-guerreiro, tudo isto é uma gigantesca desconsideração em relação a Sócrates e aos próprios lisboetas.

O problema é que Santana só tem razão em parte. Neste momento, existe a possibilidade de o PS perder as Legislativas, certo? Se os socialistas forem derrotados a 27 de Setembro, Sócrates pedirá automaticamente a sua demissão do cargo de secretário-geral do PS, o que faz sentido quando a primeira figura de um Governo vê o seu programa e acções governativas derrotados nas urnas (só Santana é que não entende isso, mas isso são contas do peculiar rosário do senhor). Ora, se Sócrates se demitir, António Costa posiciona-se como uma boa escolha para ocupar a liderança dos socialistas e, quanto a isso, parece haver um certo consenso.

Só que o cargo de secretário-geral do PS não é incompatível com o de presidente da Câmara Municipal de Lisboa - Jorge Sampaio acumulou os dois cargos e não veio mal algum ao Mundo por causa disso. Mesmo no PSD, o anterior líder, Luís Filipe Menezes, era líder do partido e, ao mesmo tempo, governava o terceiro concelho mais populoso do país.

Daí que a questão da eventual saída de Costa da Câmara para a liderança do PS seja, na verdade, uma falsa questão. Mesmo.

A MANILHA VAI SECA (59): Querem continuar a ser pobres?

Um dos truques políticos mais curiosos é uma espécie de chantagem que certos políticos fazem com o eleitorado, sendo que, neste capítulo, José Sócrates é mestre na arte de ameaçar subtilmente o eleitorado.

Por isso, no encerramento do Fórum Novas Fronteiras 2009-2013, no Porto, o secretário-geral do PS anunciou que o programa eleitoral dos socialistas vai incluir um novo subsídio para as famílias, sendo que a nova prestação social (que, obviamente, já não é para esta legislatura) irá beneficiar os casais que trabalham e têm filhos, mas cujo rendimento per capita do agregado familiar é inferior ao limiar da pobreza.

No discurso em que fez este anúncio, Sócrates abordou inúmeras vezes as políticas sociais desenvolvidas por este Governo. De súbito, fez-me lembrar o seu antecessor (e colega de Governo), Eduardo Ferro Rodrigues, que, nas legislativas de 2002, não parava de enaltecer as medidas sociais do Executivo de António Guterres. Se Ferro falasse do novo aeroporto de Lisboa, chamar-lhe-ia “aeroporto social” - aliás, ele próprio liderou o Ministério do Equipamento Social, uma designação à socialista para a pasta das Obras Públicas. Claro que Sócrates não falou em “aeroporto social”, mas andou pela mesma linha, ao lembrar a criação do complemento social para idosos e do abono pré-natal e os aumentos do salário mínimo nacional, do abono de família e da acção social escolar.

Só que as palavras de Sócrates são como uma espécie de ameaça escondida ao eleitorado. Não vou discutir se estas medidas sociais são boas ou más, até porque iniciativas deste género são sempre como as moedas: Têm dois lados. Basta ver uma das grandes criações de Guterres, o Rendimento Mínimo Garantido.

Basicamente, o que o primeiro-ministro quer dizer é algo como: “Se votarem em nós, o Governo vem, dá subsídios e ajuda os pobrezinhos. Se votarem no PSD, vêm os mauzões da direita e tira-nos isso tudo, para deixarem as criancinhas a passar fome”. Sócrates nunca diz quem paga esses subsídios (não interessa se são justos ou injustos), porque, se o fizesse, uma parte do eleitorado fugiria a sete pés do PS. A verdade, quando a há, fica sempre pela metade.

Esta estratégia de acenar com os papões da direita costuma produzir bons frutos para a esquerda (e até para o PS), ao ponto de, para alguns sectores menos informados da população, o Governo de Durão Barroso ter ficado conhecido como o carrasco do Rendimento Mínimo Garantido, quando o que fez foi, na verdade, mudar-lhe o nome e alterar um pouco as condições de acesso à dita prestação.

Quando a campanha eleitoral começar mesmo a sério, vamos voltar a ouvir falar nos papões da direita, nos mauzões que querem um Estado mínimo que se está a cagar para toda a gente, menos para uma pequena clique que transacciona favores e dinheiros de forma mais ou menos legal, mas sempre imoral. Muitos dos que se dizem de esquerda (e há tantos assim no PS) adoram este tipo de discurso maniqueísta e, muitas vezes, recheado de inverdades.

Querem um exemplo? Na segunda volta das presidenciais de 1986, muita gente no PCP pôs a correr os mais incríveis boatos do que aconteceria a Portugal se Freitas do Amaral ganhasse as eleições, havendo quem dissesse que iríamos voltar aos tempos de Mr. Salazar. E foi assim que muita gente, mesmo não gostando de Mário Soares, lá entregou o seu voto vitorioso ao fundador do PS. 19 anos depois, o mesmo Freitas do Amaral que era pior do que Salazar acabou num Governo do partido do Soares que salvou o país do fascismo.

O tempo é um excelente conselheiro, meus amigos.

PENSAMENTOS DO BURRO EM PÉ (3): Sofrimento

“O valor exacto do limite de sofrimento do ser humano é exactamente o mesmo valor da sua capacidade de auto-destruição”.

Dr. Mento

sábado, 18 de julho de 2009

A MANILHA VAI SECA (58): O impacto de Chão da Lagoa

Há quem lhe chame ditador, vigarista, malcriado, boçal e o diabo a sete, mas não falta quem lhe gabe a obra feita e a determinação. O que é verdade é que ninguém fica indiferente a Alberto João Jardim, o enfant terrible da política portuguesa, que, volta e meia, faz declarações de pôr os cabelos em pé a um santo. Na festa anual do PSD/Madeira, em Chão da Lagoa, costumam surgir discursos dos mais incríveis que há memória em Portugal, alguns deles ofensivos para os continentais, para todos os portugueses e, por vezes, até para os madeirenses.

Só que Jardim tem a importância que tem porque todos dão às suas palavras demasiada importância. Por mim, já deixei de dar para esse peditório e vejo o discurso de Chão da Lagoa como um dos melhores momentos de stand-up comedy do ano. Ainda por cima, Jardim, quando fala, nunca está sóbrio, o que torna a coisa ainda mais divertida e surpreendente (e o homem consegue ser dos poucos bêbados que não é chato e não diz que ama toda a gente).

Mas… sendo assim, porque é que se dá tanta importância às palavras de um barrigudo mal-encarado com uma tosga daquelas?

Meus amigos, este ano, a festa de Chão da Lagoa realiza-se a 26 de Julho.

Estão bem a ver a data? É em pleno Verão, altura em que, nas redacções de todo o país, o pessoal se contorce para arranjar notícias de jeito que possam fazer as primeiras páginas. Se houver muitos incêndios, dá para encher páginas com isso, mas, se chover um bocadinho em pleno Agosto, a coisa fica preta. É que até a porcaria da Assembleia da República está de férias (ou seja, não há cornos, nem deputados remetidos para o caralho) e não há debates para animar a malta. Se os conselhos de ministros que se forem realizando não tiverem nada de jeito, pior ainda. Como não dá para ter reportagens bombásticas todos os dias, a realização de uma primeira página nesta época torna-se uma tarefa algo penosa.

É neste contexto que surge Chão da Lagoa. Jardim aproveita um certo vazio de coisas novas no mundo da política para dizer o que lhe der na real gana. E di-lo mesmo com o intuito de chocar, para ganhar protagonismo, para ser manchete. Se o dia em questão for particularmente morto em termos noticiosos, Jardim tem umas quantas primeiras páginas garantidas com um par de bujardas contra este e contra aquele e contra tudo o que mexe.

É simples, demasiado simples. E, em rigor, pouco importante.

A MANILHA VAI SECA (57): PS, oportunismo e realidade

Já várias referi que considero o interesse de José Sócrates pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo como uma estratégia puramente eleitoralista, marcada por um cinismo que me choca. Afinal, o PS chumbou os projectos do BE e do PEV para legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo (acusando ambos os partidos de oportunismo político) e, logo em seguida, Sócrates anunciou justamente que o matrimónio entre homossexuais seria uma realidade na próxima legislatura. Ou seja, Sócrates quis usar os homossexuais como forma de piscar o olho a uma série de socialistas descontes, que, cada vez mais, vão pôr a cruzinha no BE (desde sempre, o partido mais genuíno na defesa dos LGBT). E convém sublinhar que, em Portugal, cerca de dez por cento da população será homo ou bissexual, o que, na hora de contar os votos, pode dar um jeito do caneco.

O que é verdade é que este Governo se está nas tintas para os homossexuais, ao ponto de o Ministério da Saúde proibir estes de poderem dar sangue. Mas só os homossexuais masculinos, para a discriminação ser mesmo a sério. Afinal, já não bastavam todas as discriminações que os homossexuais já sofriam. Agora têm mais esta: São considerados um grupo de risco, apesar de a SIDA estar a alastrar, curiosamente, entre heterossexuais. Neste particular, não deixa de ser interessante verificar que os bissexuais (mesmo masculinos) e as lésbicas não constituem grupos de risco. Ou seja, quem tiver relações sexuais com mulheres, mesmo que também tenha com homens, está na boa. Fazer sexo só com homens é que não, que isso faz mal.

No fundo, o que se passa é que Ana Jorge, a titular da pasta da Saúde, é, na verdade, tão homofóbica como Manuela Ferreira Leite, que, como se sabe, é uma homofóbica declarada. Ora, se o PS nos oferece um Governo com posturas homofóbicas e se isso choca alguém (a mim choca-me), mais vale votar no PSD… ou no BE.

Em tempos, achei que José Sócrates iria fazer uma ponta final de mandato verdadeiramente enérgica, de molde a vencer as Legislativas ou, pelo menos, para tentar vender cara a derrota. Só que Sócrates é uma coisa, os seus ministros são outra, apesar de caber ao líder do Governo a escolha da sua equipa. Ao optar por gente pouco qualificada do ponto de vista político, Sócrates conseguiu brilhar como o número um do Governo, mas agora arrisca-se a deitar tudo a perder. É que, depois dos cornos de Manuel Pinho, esta homofobia declarada de Ana Jorge é mesmo boa para deitar votos no lixo… ou nos dois principais adversários na corrida de 27 de Setembro.