Porque é que, hoje em dia, sentimos que não podemos confiar na Justiça e na eficácia e celeridade da investigação criminal?
Este sentimento não nasce hoje e o problema também não é de agora.
Dois exemplos?
A 4 de Dezembro de 1980, o pequeno Cesna onde viajavam entre outros, o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro e o Ministro da Defesa Adelino Amaro da Costa, sofre um acidente em Camarate. Todos os ocupantes do avião morreram.
Atentado ou acidente? Ainda hoje, subsistem as dúvidas. Se houve negligência na manutenção do Cesna, de quem foi a culpa? Não se sabe. Se houve atentado, quem mandou matar Sá Carneiro e Amaro da Costa e que motivos levaram a tal acto? Não se sabe.
Ora, quando o primeiro-ministro morre e todos sacodem a poeira e ninguém quer saber o que se passou, tal significa que ninguém está acima da ineficácia da Justiça. Morreu, está morto, não há Justiça para ninguém.
Outro bom exemplo é o caso das FP-25, grupo terrorista de extrema-esquerda, que, recorde-se, ceifou vidas através dos expedientes mais covardes e bárbaros (algo típico e inevitável em se tratando de uma organização terrorista). Em 1996, aprovou-se uma amnistia para os presos do caso FP-25, quase equiparando actos terroristas a multas de trânsito perdoadas. O próprio caso em si nunca foi totalmente esclarecido, demonstrando, tal como no Caso Camarate, um certo incómodo por parte de certos sectores da vida pública (não necessariamente política) em relação a esta história.
No fundo, Camarate e as FP-25 podem ser equiparadas aos Ballet Rose, o enigmático caso de pedofilia que envolvia altas figuras do Estado Novo e sobre o qual nunca se soube muito (designadamente, nunca foram tornadas públicas as personalidades envolvidas). Os Ballet Rose aconteceram durante o Estado Novo, mas a Justiça parece não ter evoluído por aí além deste 1974.
Em Portugal, permanece a regra da sujidade que fica debaixo do tapete, a norma do “não se passa nada”.
Sabemos que há coisas más, mas ninguém admite as coisas más, ninguém quer investigar as coisas más, porque gente há que quer que não se saiba tudo sobre as coisas más feitas por pessoas más, sobre as quais nada sabemos porque nada podemos saber sobre as coisas más que as pessoas más fazem.
Desde 1974, há liberdade. E a liberdade de alguns (mas quem?) dizerem que sabermos apenas o que devemos saber (uma liberdade que, na verdade, já existia no Estado Novo).
Agora, pensem em muitos outros casos judiciais famosos e tentem adivinhar o desfecho que terão.
Vencer O Medo
Há 9 horas
